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O homem que destrói... e constrói No Dia do Meio Ambiente, a lembrança de que preservar a região é essencial para a sobrevivência da fauna, da flora e da vida humana |
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TEXTO: ANDRÉA ZILIO E RENATA BRASILEIRO FOTO: MARCOS VICENTTI Os rumos do planeta se transformaram em um palco de discussões de cientistas, professores e até mesmo entre vizinhos, e o que antes era visto como discurso piegas de ambientalista virou preocupação real. O maior vilão contra a natureza é a falta de educação e consciência do ser humano, segundo os gestores que trabalham em órgãos ambientais e alguns moradores de bairros que sofrem com o problema do lixo. Uma simples atitude de jogar fora do lixeiro o que deveria estar dentro dele resulta em conseqüências graves. Essa freqüência de atitudes e a ausência de ações resolutivas, e não somente paliativas, têm gerado às futuras gerações uma herança de incerteza, que ameaça transformar qualquer bom lugar para se viver em um verdadeiro pesadelo. Enquanto a maioria vive o cotidiano sem muita preocupação, alguns grupos isolados atuam para manter acesa a chama da esperança, e o que deveria ser freqüente e natural torna-se exceção que merece ser divulgada como um bom exemplo a ser seguido. No dia do Meio Ambiente, ontem, essas ações foram demonstradas com maior enfoque, e muitas outras foram notícias neste jornal. São projetos que tentam vencer o maior obstáculo, que é a mudança cultural. O secretário municipal de Meio Ambiente, Arthur Leite, diz que alguns costumes do seringal precisam ser esquecidos. “O meio ambiente é sempre enfocado na zona rural, mas é preciso ver a zona urbana, coisas que acontecem que são hábitos antigos, como queimar lixo no quintal até a falta de educação em depredar o patrimônio público”, diz. O geógrafo Claudemir Monteiro diz que as datas alusivas são trabalhadas de forma transversal, mas o que é feito nela deve render as ações permanentes do dia-a-dia, e o principal é ensinar o certo às crianças, que serão os futuros jovens e adultos e não podem agir como a maioria faz hoje, que prefere jogar o lixo no chão a colocá-lo no lixeiro. Quando o homem é o principal responsável No bairro Nova Estação, às margens do Igarapé Fundo, os moradores que habitam a invasão já estão acostumados com o mau cheiro, a água escura e o acúmulo de lixo. Apenas nas lembranças dos mais antigos o cenário é outro, pois quando chegaram os filhos tomavam banho tranquilamente na água que corria por ali. Surpreendentemente os relatos afirmam que durante a cheia, quando as águas do igarapé aumentam e o lixo transborda, algumas crianças ainda se banham no local, o que parece ser inacreditável, pois hoje, o que era um igarapé, se transformou em um córrego de esgoto. “Moro há quinze anos aqui, fomos uma das primeiras famílias a morar nessa área. O igarapé era limpo, tinha gente que tomava banho nele, mas a cada dia foi piorando. Ano passado à prefeitura limpou tudo, colocaram até um lixeiro em frente a uma casa no início da invasão, mas o dono dela queimou a caixa. Hoje está do mesmo jeito, tudo sujo. Não tenho mais esperança de ver esse lugar limpo”, diz o autônomo Antonio Costa, 45. Assim como Antonio, Maria Nazira, 40, também está desacreditada. Diz que até armazenava o lixo corretamente, mas sem ter onde colocar, o único lugar é o lixo, ou o fedor dentro da casa fica pior. “É difícil de acreditar que isso possa ficar limpo de novo, todo mundo joga lixo nesse igarapé, ele nem tem vida mais”, comenta. Água e óleo não se misturam Mas se alguns estão descrentes, há quem acredite na mudança. O professor Jorge Braun decidiu agir e trabalhar a questão da poluição do óleo de soja em Rio Branco. Após ouvir cem donas de casa no Terminal Urbano, ele reuniu alunos da escola Heloísa Mourão e com eles trabalha a conscientização da população informando os males causado pelo líquido quando jogado no ralo da pia, poluindo os rios, ou diretamente no quintal da casa, contaminando o lençol freático. O professor e os alunos também estão coletando o óleo dos cidadãos que colaboram com o projeto, armazenando em garrafas Peti em casa e depois levando até a escola ou chamando o educador para recolher. O trabalho, que ainda está sendo feito nos moldes “formiguinha”, já tem êxito, ganhando fiéis parceiros, entre eles a empresária Didi Caele, dona de uma panificadora e ex-professora. A cada 15 dias ela fornece mais de 15 litros de óleo, que são restos da produção e seriam destinados ao lixo. Quando completar 400 litros, ele será enviado à Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac), para ser analisado, e, quem sabe, ser transformado em biodisel. O amor que mantém vivo um pedaço da Amazônia Outro exemplo de preservação é carregado pelo servidor público Antônio Saady Sobrinho. Há nove anos ele mora nas margens do Igarapé São Francisco, e muito distante de ser comparado a um risco para a natureza, ele mostra que o convívio entre o homem e meio ambiente pode ser muito saudável, dependendo do que está no coração do homem. E essa é a sua contribuição para a natureza, que está ali, no quintal de sua casa: uma ampla área com plantação de cupuaçu, coco, açaí, patoá, bacaba, pitanga, laranja, pupunha, araçá, goiaba, cacau, lima, além de bananais e seringueiras. Tudo foi plantado por ele, com o auxílio dos três filhos. O gesto previne o desbarrancamento das margens do igarapé. Segundo os ambientalistas, o São Francisco representa 70% da drenagem natural de Rio Branco. É também a principal bacia da capital. Por esses e outros motivos é que o afluente vem sendo alvo de discussões entre órgãos e comunidades ribeirinhas, a fim de que o quadro de poluição apresentado hoje seja revertido. “É óbvio que é muito mais difícil consertar aquilo que já foi consolidado. Não é de uma hora para outra que se despolui um rio. Leva três ou quatro anos, se não houver mais interferência do homem. Por isso, conservar o meio ambiente é mais barato e a melhor opção”, enfatiza Arthur Leite. Tudo que se planta, colhe-se! Efeito estufa é um termo ainda complexo para ser entendido pelo pequeno Ian de Souza, de 4 anos. Mas isso não foi nenhum empecilho para que, por iniciativa própria, o garoto plantasse sua primeira árvore na manhã de ontem, durante uma atividade realizada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, alusiva ao Dia do Meio Ambiente. O menino não sabe, mas o seu gesto é capaz de salvar muitas gerações que estão por vir. Isso porque as árvores são capazes de diminuir as conseqüências da alta temperatura da terra. Elas funcionam como um depósito para o gás carbônico e, após absorvê-lo, devolve à natureza os resíduos de oxigênio. “Eu quero plantar mais árvores. Quero ver a minha cidade bonita e preservada”, argumentou o pequeno Ian, mostrando que, mesmo sem entender nada sobre termos científicos, possui uma consciência ambiental muito maior do que se pode esperar de uma criança. E assim, com a participação de outras crianças da mesma idade de Ian, a secretaria municipal de Meio Ambiente promoveu ontem um grande plantio de árvores nas proximidades da Bacia do São Francisco, no Manoel Julião. O gesto deveria ser imitado no dia-a-dia. As pessoas não precisam esperar por uma data como essa para darem seu primeiro passo, segundo secretário de Meio Ambiente do município, Arthur Leite. Muitos adultos, com 40 ou 50 anos a mais que Ian, sequer chegaram perto de fazer algo pelo meio ambiente. Isso não se prende somente ao plantio de uma árvore, como também à adoção de comportamentos que não exigem esforços, mas que previnem a degradação ambiental. “O mais difícil é educar a população, fazer com que ela transforme essa cultura antiga de poluição em ações que beneficiem o meio ambiente. Muitas pessoas têm uma lixeira perto de casa, mas não perdem o costume de jogar o lixo no mato”, reforçou o secretário. A luta entre o grupo que polui e o grupo que despolui é grande. Algumas comunidades já estão cientes de sua obrigação com a natureza e não esperam mais por ações governamentais para reprimirem àqueles que não têm compromisso algum com as questões ambientais. É o caso dos moradores do Manoel Julião. O bairro - que nasceu de um grande erro, por não ter recebido tratamento de esgoto em sua fundação – passa hoje por um grande problema de poluição, prejudicando o Igarapé São Francisco. Lá, todos os resíduos são despejados no afluente. “Há alguns anos decidimos trabalhar algumas atividades visando despoluir o igarapé e isso só é possível com a ajuda da comunidade. Nós entramos com a parte de plantio e de limpeza e a comunidade com a preservação. Felizmente essa parceria tem dado certo. Até hoje as pessoas denunciam o abuso daqueles que insistem em jogar lixo nas imediações do igarapé”, completou o secretário. Você faz sua parte? “Eu vejo que a cidade está mais limpa e mais preservada, principalmente o centro. Isso mostra a melhoria do comportamento da população, que antes jogava lixo na rua e hoje já sabe jogar numa lixeira. Eu tenho fé em Deus que ainda vamos melhorar mais e que este ano nem vamos ter grandes queimadas.” - Raimunda Ferreira, 28, gerente de restaurante “Eu trabalho como doméstica e no dia-a-dia armazeno corretamente o lixo e limpo o quintal sem queimar. O óleo de cozinha eu jogo na pia, sei que não faço muito pelo meio ambiente. É errado?”. - Maria Antonia, 23, empregada doméstica “Sempre ouço as pessoas reclamarem da prefeitura quando vêem alguma coisa suja. Mas a maioria não tem motivos para reclamar, já que também não faz a sua parte. Não adianta nada os gestores fazerem a limpeza se a população não tiver consciência ambiental.” - Thales John, 17, estudante. “Sou a favor da defesa da floresta, mas sou analfabeto, não sei muito que fazer. Eu armazeno direito o lixo de casa. Meus filhos aprendem também o correto na escola.” - Diocleciano Cardoso, 62, autônomo. * Jornais: 2 a 6 semanas para se decompor * Embalagens de papel: um a quatro meses * Cascas de frutas e guardanapos de papel: três meses * Ponta de cigarro e fósforos: dois anos * Chicletes: cinco anos * Naílon: 30 anos * Garrafas de plástico (PET): 100 anos * Latas de alumínio: 200 anos Garrafas e frascos de vidro: 1 milhão de anos (Fonte: Embrapa). |
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