POLÍTICA

Álcool Verde e biodiesel viram atração

Empresários, prefeitos e vereadores de Rondônia vêm conhecer a experiência que envolve pequenos produtores

Juracy Xangai
Cerca de 100 autoridades de
Rondônia visitaram as instalações da
Usina Álcool Verde, no último sábado


Juracy Xangai

Prefeitos, vereadores e empresários formando uma comitiva de aproximadamente cem pessoas estiveram no Acre sábado passado para conhecer a usina da Álcool Verde, em Capixaba, e o Centro de Referência de Energia e Fontes Renováveis, na Funtac, onde foram instaladas duas usinas para a produção de biodiesel e ecodiesel.

O evento, promovido pelos senadores Sibá Machado (PT-AC) e Fátima Cleide (PT-RO), teve como objetivo principal demonstrar as alternativas para a produção de bionergéticos, especialmente a política de inclusão do capital social comunitário nos grandes negócios através da chamada parceria Pública, Privada e Comunitária (PPC), garantindo a participação de pequenos produtores familiares nos grandes negócios.

Declarando-se impressionada com o volume de investimentos público e privados e a extensão dos trabalhos de pesquisa local, a senadora Fátima Cleide foi enfática: “O que lamento em meu Estado é termos as instituições de pesquisa voltadas fundamentalmente aos grandes negócios, enquanto aqui no Acre os dois lados são igualmente atendidos como forma de promover o desenvolvimento sustentável do ponto de vista econômico, ambiental e socialmente justo. O que vimos aqui nos impressionou muito positivamente como uma lição que mostra o caminho a seguir adaptado à nossa realidade”.

Segundo a senadora, o relevo de Rondônia cria condições especiais para o funcionamento de 20 pequenas hidrelétricas (PCHs) e está prestes a instalar outras 20, além de empreendimentos de grande porte como a usina de Samuel e o complexo do Rio Madeira, que ainda enfrenta polêmica para a instalação.

“Mesmo com tudo isso, ainda vamos precisar de mais energia. Sempre tivemos nossos olhos voltados para o Sul ou o Nordeste quando temos experiências tão positivas sendo desenvolvidas aqui no Acre com o objetivo de atender as necessidades de nós que vivemos na Amazônia. Esse é o caminho que passaremos a seguir daqui por diante”, destacou a parlamentar.

Aliança em construção

A comitiva foi recebida no início da manhã de sábado no Palácio Rio Branco pelo diretor-presidente da Funtac, César Dotto, representando o governador Binho Marques, prefeito Raimundo Angelim e seu vice Eduardo Farias e os deputados estaduais Juarez Leitão e Mazinho, além dos secretários Nilton Cosson, Carlos Eduardo e Carioca.

O próprio senador Sibá fez questão de destacar que a visita da comitiva de políticos representando os principais municípios e empresas de Rondônia marca o início de uma nova fase no relacionamento entre os Estados. “Acre e Rondônia sempre estiveram separados e chegaram a rivalizar em algumas questões, mas hoje precisamos ter clareza para entender que temos de nos unir política e economicamente para aproveitarmos as oportunidades de negócio que estão se abrindo com a Transoceânica, quem em três anos nos abrirá as portas do mercado andino, especialmente do asiático, onde estão grandes centros consumidores como China e Japão. Estaremos em melhor condição de concorrência porque nossos produtos terão uma semana a menos de viagem para chegar aos portos do Peru”, lembrou, fazendo depois referência ao fato de que do porto de Santos à China os navios levam 70 dias e a partir do Peru, 17 dias.

Combustível para o desenvolvimento

A exemplo do Acre, Rondônia ainda não tem nenhuma usina produtora de álcool em funcionamento, mas pelo menos três delas estão se instalando por lá. Uma delas, a Usimat, que já possui extensos plantios de cana, começará a ser instalada em setembro deste ano para iniciar sua moagem em abril de 2009. O interesse das autoridades rondonineses na usina da Álcool Verde estava em conhecer seu sistema de funcionamento sem a compra de terras nem a promoção de derrubadas, mas em parcerias com os fazendeiros utilizando pastagens hoje degradadas para instalar suas lavouras. Além de garantir a participação dos pequenos produtores familiares organizados em cooperativas, tanto no fornecimento da matéria prima quanto no próprio capital da empresa, ou seja, participando de seu lucro final.

Eziquiel Alves da Silva, gerente-geral que vem comandando os trabalhos de reativação da usina que já está com 1.200 hectares de cana plantados, gerando emprego para mais de 360 trabalhadores, explicou que a meta para este verão é plantar 4,5 mil hectares, mais 7 mil em 2008 e 8 mil em 2009, perfazendo um total de 20 mil hectares que chegarão pelo menos a 40 mil até 2012. Ele lembrou que a Álcool Verde é uma das onze usinas em funcionamento ou em fase final de instalação pelo Grupo Farias e Associados em todo o Brasil.

“Iniciaremos nossa produção em maio do ano que vem moendo 400 mil toneladas de cana para produzir pelo menos 36 milhões de litros de álcool hidratado. Nossa meta inicial é a de atendermos o mercado interno, depois poderemos expandir para atender também o mercado externo, já que nossa empresa luta, com apoio do senador Sibá Machado, para ser uma das duas empresas brasileiras credenciadas para vender álcool ao Japão, e aqui pela Estrada do Pacífico fica bem mais fácil”, disse.

Ele destacou que, apesar das críticas de pessoas como o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, que chegou a declarar que não é possível produzir cana na Amazônia, as lavouras feitas no Acre ultrapassam os seis metros de altura e no primeiro teste para verificar o teor de açúcar ela atingiu 19 brix, que na prática significa uma produção média de 140 quilos de açúcar por tonelada de cana moída, quando no restante do Brasil essa produção fica na faixa dos 100 quilos.

Um Estado em transformação

Políticos e empresários rondonienses que conheceram o Acre antes de 1998 e só agora voltaram ao Acre ficaram admirados com as transformações ocorridas nos primeiros oito anos do governo da Frente Popular do Acre. “A transformação do Acre aconteceu sob a liderança do governador Jorge Viana, que soube se posicionar corretamente para solucionar problemas administrativos e de segurança que impediam nosso desenvolvimento. Também pela capacidade que ele teve de fazer alianças e escolher as pessoas certas para trabalhar pelo Acre, que em 1998 era o 26º Estado em qualidade da educação e hoje é o 15º graças ao trabalho capitaneado pelo atual governador Binho Marques, que trabalha para fazer com que até 2010 sejamos o melhor lugar para se viver na Amazônia”, declarou Sibá Machado.

Intercâmbio de experiências

Israel Neiva de Carvalho secretário de Administração e Planejamento do município de Cerejeiras, explicou que sua prefeitura está apoiando a instalação da Usimat com a doação do terreno e serviços de terraplenagem para sua instalação. Em agosto inicia-se o plantio dos primeiros 400 hectares, que serão apliados para 2.400 em 2008 e 20 mil em 2009, quando começa a primeira moagem de dois milhões de toneladas para produzir 80 milhões de litros de álcool por ano, gerando 200 empregos permanentes e mais 700 temporários durante sete meses.

“Considerando que cada cortador tira uma média de R$ 1,3 mil por mês e cada um dos 40 caminhões de transporte de cana, uma média de R$ 6 mil por mês, só aí teremos uma grande injeção de dinheiro no mercado local de Cerejeiras e cidades próximas”, explica Israel. “Isso sem contar com as mais de cem famílias de pequenos produtores familiares que estaremos incluindo nesse processo de produção da matéria-prima. As novidades que vimos aqui no Acre são as parcerias com os fazendeiros no uso das terras e a participação dos pequenos produtores familiares como sócios no capital financeiro da empresa. Isso representa um avanço muito importante do ponto de vista social e econômico”, garante.

Cerejeiras este ano produziu mais de 50 mil toneladas de soja, 8 mil de arroz e 7 mil de milho, fora as lavouras de girassol, feijão e gergelim, além do extrativismo do babaçu e outras oleaginosas regionais que estão sendo estudadas para a instalação da primeira usina de biodiesel, que irá beneficiar também a produção dos municípios de Colorado d’Oeste, Cabixi, Pimenteiras, Cerejeira e Corumbiara.

Energias renováveis

Na parte da tarde a comitiva rondonienses foi conhecer as experiências que vêm sendo realizadas no centro de referência de energias de fontes renováveis da Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac), duas delas premiadas pela Finep no ano passado. Foram elas, a luz espelhada criada pelo acreano Alceste Castro e o fogão a lenha que além de cozinhar gera energia elétrica para alimentar cinco lâmpadas e uma televisão ou aparelho de som por um período de pelo menos cinco horas, a exemplo do que fazem as placas de energia solar, mas a um custo bem mais baixo.

Mas as estrelas da visita foram à usina transesterificação para a produção de biodiesel e a de craqueamento que permite a produção de biodiesel a partir de óleos de origem animal ou vegetal, ou o ecodiesel utilizando materiais como restos de pneu ou plásticos de alta densidade. Ambos combustíveis utilizáveis em veículos e máquinas movidas a diesel.

O diretor presidente da Funtac, César Dotto foi enfático ao afirmar que: “Estamos testando todas as boas idéias que nos são apresentadas, no caso do fogão gerador de energia queremos reduzir seu custo de produção a um terço das placas solares para que possam ser instaladas junto às famílias que vivem mais isoladas oferecendo-lhes energia elétrica de baixo custo produzidas com lenha, um combustível que elas têm em abundância”.

Quanto aos projetos do Biodiesel, ele alertou que essa é mais uma fonte renovável a ser utilizada para produzir energia, mas que não será a única. “No caso do biodiesel sua eficiência está comprovada e agora esperamos que a iniciativa privada cuide de sua produção tendo em vista que o governo federal até já criou leis projetando sua mistura ao diesel de petróleo. Usinas como a de craqueamento tem um funcionamento bem mais simples, o que permitirá que pequenas comunidades isoladas na floresta produzam o combustível necessário para gerar energia elétrica ou funcionar outros motores de que fazem uso no seu dia a dia. É para o bem estar de nossos produtores familiares e aqueles que vivem mais isolados que nossas pesquisas estão voltadas”.

Motor a óleo vegetal

Já Artur Moret, professor de física pela Universidade Federal de Rondônia atuando como pesquisador na área dos biocombustíveis para a geração de energia em comunidades isoladas, informou: “Colocamos em funcionamento geradores de energia com motores movidos a óleo vegetal para atender comunidades isoladas da Reserva Extrativista de Ouro Preto e a prefeitura de Machadinho d’Oeste está misturando ao diesel de seus caminhões 30% de óleo vegetal comprado dos próprios produtores, o que está resultando na injeção de mais de R$ 1 milhão por ano na comunidade”.

Segundo ele, 60 das 130 famílias da Resex Ouro Preto estão participando do projeto que gera energia elétrica para onze famílias, mas todas as demais são beneficiadas indiretamente com a utilização da usina de quebração dos cocos, moagem e extração do óleo das amêndoas. “A produção do óleo fez surgir outras atividades como a produção de sabonetes de babaçu, farinha do mesocarpo, artesanato variado, além de um carvão de primeira qualidade feito com o resto das cascas dos cocos. A atividade gerou uma nova economia na comunidade, e isso é só o começo”, destacou.

 
 
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Rio Branco-AC, 5 de junho de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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