ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Cedida

Menos berro na Expoacre

A primeira impressão que a feira me causou, numa breve visita domingo à noite, foi muito ruim. Tinha gente demais, uma multidão de pessoas trajando calças jeans apertadas, botas e chapelão sob uma barulhada infernal inspirada no estilo country. Ou pior: cópia vagabunda de um modismo que agride a estética da floresta. Saí de lá correndo e desabafei com alguém: “O Acre capitulou de vez”!

Pela manhã havia lido no blog do Altino Machado, o estrago da bosta que os cavalos da cavalgada de sábado tinham deixado sobre o asfalto da Via Verde. E me senti tentado a acrescentar algum protesto ao comentário do jornalista, que logo sugeriu: “Escreve um texto para o blog”.

Ainda bem que não me faltou na ocasião a ética jornalística! Ela alertou-me de que eu poderia estar fazendo avaliação precipitada e equivocada, sobre a Feira Agropecuária do Acre inaugurada dia 28. De pronto respondi ao Altino: “Prefiro voltar lá com mais calma, depois escrevo minha opinião”. Ele compreendeu e falou: “Beleza”!

Quinta-feira à noite estive de volta à exposição e, surpreendentemente, vi coisas que me agradaram. Comparada com a do ano passado, a Expoacre parece bem mais “sustentável” e menos “bovinizada”. Dei uma circulada pelos estandes, observei vários serviços públicos funcionando com segurança e boa organização.

Merece elogio o tratamento dado este ano aos artesãos. Eles ocupam imenso espaço central bem iluminado e distribuído. Ano passado, permaneceram confinados numa ruela escura da exposição, fora do circuito que atraia os visitantes.

Também chama atenção o estande da Integração que abriu vaga para “nuestros hermanos” peruanos e bolivianos. Estes fizeram sucesso vendendo tudo o que trouxeram nos dois primeiros dias da feira. Na quinta, consegui comprar duas latinhas de “trucha ecológica”, produzidas pelo Bio Trucha Andina Peru. O vendedor me disse que se trata de um peixe saboroso da região do lago Titicaca. A receita recomendada é comê-lo com macarrão, como às vezes fazemos com nossa sardinha em lata.

Animado com a novidade (ou seja: a integração andina), paguei 10 reais para um caricaturista peruano desenhar o rosto de minha filha Yasmim. Ela pousou durante 20 minutos, atraindo curiosos, e saiu satisfeita com o retrato feito a lápis crayon em cartolina.

Depois fui à Polleria Aló Peru comer um frango (polle) com legumes. De lá fiquei “bispando” as pessoas que iam e vinham passeando na feira, e me alegrei por ter agido como jornalista checando melhor a tal primeira impressão. Posso afirmar com segurança, agora, que os acreanos ainda são maioria, apesar da zueira dos cawboys.

Ouvi até uma dupla sertaneja que cantou sem botas e sem chapéu. Pareceu bastante desafinada, mas passou um recado politicamente correto sobre a vida, paixão e morte nos seringais. Ouvi também foguetório, como se alguém tivesse anunciando o nascimento de mais gente na floresta, e gravei gestos de quem ainda não se acostumou com multidão.

Enfim, refleti: a Expoacre continua com seus rodeios, com os bancos dando mais dinheiro para quem já o tem de sobra (vi um montão de carros e motos de luxo em pedestais e algumas caras arrogantes do poder), mas percebi uma guinada boa na direção da florestania. Esta palavra –faço questão de dizer- não perdeu seu charme, sua força e significância, a não ser para quem apenas finge ser povo da floresta pensando, quem sabe, que é fácil nos enganar.

COMENTÁRIOS

Publicado no blog do jornalista Altino Machado (www.altino.blogspot.com) sextá-feira, 3, o texto acima provocou alguns comentários:

1- do próprio Altino:

- Pena que a tal ”guinada” mencionada pelo articulista tenha demorado nove anos de Governo da Floresta para começar a acontecer. Daqui a pouco outro boi vem e lambe-a.

2- do fazendeiro Leandrius Bocão, postado no blog pelo jornalista com o título “Maldita floresta que tanto traz o atraso do Acre”. Altino esclarece que “Leandrius (veja a página dele no Orkut) é um fazendeiro do Acre que não suporta boa parte do conteúdo deste blog. Mas ele sempre assina os comentários que faz, embora eu já tenha deixado de publicar alguns por considerá-los ofensivos a terceiros. Vejam o questionamento dele a partir do artigo “Menos berro na Expoacre”, de autoria de Elson Martins:

- Porque todos vocês, que defendem tanto essa maldita floresta que tanto traz o atraso do Acre, não mostram como ganhar dinheiro com esta porcaria? Em vez de ganhar dinheiro com boi, por favor, eu peço que me mostrem como progredir com a ajuda desta tal florestania.

DESABAFO

Tive que fazer alguns exames médicos. Segundo o meu médico, de rotina já que, aparentemente, estou bem de saúde.

Fui para o Hemoacre quinta-feira, 6 da manhã, em jejum de 12 horas. E fiquei na fila lá de fora: a primeira de 3 que garantem o atendimento.

Eu tenho pavor de exame de sangue. Por isso, esperar por cerca de quase meia hora foi como esperar uma eternidade.

Chegando minha vez tive que ouvir de uma senhora muito mal humorada: “me dê aí seus pedidos!” E continuou: “Olhe, estes não fazem aqui, só lá na Fundação, Ou então a senhora paga particular...Os outros, pode vir amanhã”.

Sem me dar tempo de qualquer reação, ela me deu um papel anotado para que eu voltasse sexta-feira. E gritou: “o próximo”!

Tudo bem – pensei, - estou fazendo yoga, pagando para ter paz interior e não vou me exaltar.

Voltei 6ª feira, às seis e meia da manhã. Jejum de novo. E daí fui direto pra fila que dá um outro papel e autoriza você entrar pra coleta. Tinha umas 60 pessoas. Só os que ficam no “rabo da fila”, os 10 últimos, podem ter o privilégio de ficar sentados em um banco de cimento até que a fila ande. Os primeiros, ficam em pé, apesar da existência de uns 5 bancos de madeira vazios que ficam paralelos à formação da fila.

São 7h14: começo a conversar com as pessoas da fila, digo que vou fazer uma matéria sobre como somos tratados: é penoso ficar em pé em jejum, não ter água, nada.

De repente, notamos que apesar de diferentes “placas indicativas” a fila é única e começa a andar rapidamente, algo que nos impressiona. Penso comigo mesma: será que foi por que eu disse que ia sair no jornal? Será? Continuo entrevistando as pessoas e vou ouvindo coisas do tipo: “No meu bairro tem posto, mas não faz exames ou por falta de médico, ou aparelhos, ou gente para trabalhar, ou material ou por estar fechado há mais de mês.

Novamente não quero, mas quase me exalto porque testemunho uma cena que agride a quem vê: chega a vez de uma senhorinha de uns 70 anos que ouve da moça do balcão: ”Não estamos fazendo esses exames por falta de material. A senhora vai lá pra Fundação, que lá eles fazem”. A senhorinha dá alguns sinais de pouca audição, tenta ouvir para entender direito e lá vem de novo: ”Fundação, Fundação, minha senhora, vai pra lá! Lá faz”! E sem dar tempo para qualquer outra explicação, grita: ”Próximo! A fila tem que andar”!

A senhorinha sai cabisbaixa e perdida indagando: “quem sabe onde fica essa Fundação pra onde tenho que ir”?

7h48 chegou minha vez. Passo do balcão e entro por uma porta que vai me levar para a sala onde vou aguardar na fila de “colher sangue”...Como a fila de fora andou rápido, congestionou lá dentro. E então ficamos encostados no corredor, onde tem dois banheiros, completamente fétidos, pois estão com entupimento. É um cheiro de pura merda e urina, que só demonstra há quanto tempo aqueles banheiros não recebem sequer um balde com água.

Mas não vou desmaiar, nem me exaltar. Só não agüento a lentidão...

Começo de novo a falar com algumas pessoas e ouço de vozes alternadas que algumas chegaram às 5, 5 e meia, 6..os que vem da colônia dormem por aqui etc, etc,etc.

Nada que surpreenda a um povo sofrido, que em época de eleição ouve dos candidatos que aqui no Acre a saúde é de “primeiro mundo”.

Novamente reparo que o fenômeno se repete. Surge um senhor, todo de branco, típico “senhor gestor”, com aquela cara de quem vive em ar condicionado e só atende celular pra se dizer em reunião.

E ele faz a fila andar: “Vamos minha filha, vamos, vou mandar mais 3. Isso, gente! Assim, mais 3!..” Com sua varinha de condão faz a fila acabar às 8h16. Vocês acreditam? Após a coleta, saí e pasmem: lá fora não tinha mais fila.

Moral da estória: a questão é de atitude e decisão; gestão, pois se a fila andar rápido as pessoas que lá estão terão que trabalhar mais. Se ninguém fiscaliza, deixa lenta mesmo e fica com a meta de 60/70 por dia que tá bom.

Será que gerentes e gestores da área de saúde em seus constantes planejamentos diante de problemas como estes já pensaram sobre isso?

Dois lembretes: 1- sempre apoiei os funcionários públicos e minha vida de mais de 15 anos na Caixa Federal me atesta uma “guerreira” na defesa des direitos 2 – enquanto me encontrava nas diferentes filas, conheci um cantor, compositor chamado Nonato Rodrigues; ele me mostrou seu CD, que é prá quem está com dor de cotovelo ou foi abandonado por um grande amor, conforme me explicou. Me pediu que eu divulgasse, já que ia sair no jornal. Valeu! Fiz meus exames...

(Hoje é dia 3, e depois do dia 15 deste mês de agosto poderei ir buscar o resultado dos exames solicitados semana passada.)

Célia Pedrina

Elson Martins
Célia Pedrina é militante histórica e membro do diretório regional do PT

 
 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
Rio Branco-AC, 5 de agosto de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
P E S Q U I S A