OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Nós, mulatos!

Vai mais ou menos por aí a letra de um samba mais ou menos antigo. Nós somos um País mulato e cheio de preconceitos, sim. É comum exercermos certos tipos de discriminação para com a nossa própria gente...

E bastou o Paulinho da Mocidade colocar uma nota de cinqüenta reais no bolso e já se sentiu o preto mais branco do universo... Pelé ou Martinho da Vila não são exatamente negros porque levam a vantagem de ter dólares em conta bancária. Ademais, no Acre, conheço casos vários das negras mais loiras do Brasil...

O Sr. Erwin Potschmann tem uma filha de treze anos, loura e linda nos seus olhos azuis de seda. Andrei, meu filho, um mulato de feições privilegiadas, é seu colega de turma no St. Etiènne College. Num desses dias, meu garoto foi à residência dos Potschmann, em companhia de Maureen, a garota. Andrei foi muito bem recebido pela família de ascendência eslava, afinal eles se auto proclamam anti-racistas. Todavia, as idas e vindas se fizeram constantes, Maureen provou e adorou o nosso charque, e o Sr. Potschmann, enfim, mergulhou na sua realidade branca e viu, assustado, a possibilidade de um namoro entre o meu mulato e a loura dele. É mole!?

O parágrafo acima, estilo Seleções do Reader’s Digest, é pura obra da minha ficção, embora o Andrei seja real. Mas, imaginemos um mulato de cor carregada - como no nosso caso - de namoro com uma loura, sua filha, com sobrenome inglês... Seriam necessários muitos dólares ou euros para comprar a loura talvez burra ou vagamente inteligente. E então?... Há aí já toneladas de preconceito para comigo próprio e contra as louras, adoráveis oxigenadas, que muito bem podem nem ser tão inteligentes quanto as morenas... Será?...

Observemos, assim, que, em linhas poucas e subtis, está esboçado o retrato contorcido do racismo velado existente entre os brasileiros.

E convém ilustrar com uma cena carioca interessantíssima. Estava eu de férias ao pé da televisão, genuflexo, humilhado perante a Vênus Platinada e, no Rio de Janeiro, casava-se pela segunda vez Romário, o jogador de futebol. De repente, aquela movimentação que logo se fez amena, próximo à capela onde se realizaria o casamento. Eis que aparece, então, em BMW lustroso, um ex-quase-novo-rico, convidado especialíssimo, o Nélio, que à época jogava no Flamengo. O cinegrafista, numa sacada magistral, filma no interior do veículo, dois roliços pares de coxas brancas, loirinhas, pelinhos em blondô, em contraste com duas mãos escurinhas ao volante do bólido alemão. E eu, pensativo, ensimesmado, sozinho na sala, apelei: Oh Zeus!... Ele merece!

Mas não me processem! Eu sou negro e feminista (Não efeminado!).

Seria então coerente tratar de Steve Biko, líder negro sul-africano assassinado pela polícia política do apartheid, em 1977, que foi a vários julgamentos por crimes que não cometeu. Tais julgamentos eram comumente transformados em defesas de lúcidas teses anti-racistas, por parte de Biko, diante de extasiada platéia branca. Numa dessas ocasiões, Biko afirmou que a base do vandalismo, assassinato, estupro e saque está na sociedade branca, a real fonte do mal, que está se bronzeando em praias exclusivas ou relaxando em seus lares burgueses. (Woods, Donald. Biko. Nova Cultural : São Paulo, 1987, p. 159). É preciso dizer que os juízes até entendiam as reivindicações do líder negro, mas a polícia política o odiava pelas demonstrações de rara inteligência e por isso o assassinou.

Pergunte-se: o que tem uma coisa a ver com a outra? Responda-se: somos essencialmente negros e irremediavelmente pobres, em termos materiais.

O Brasil é também um país de negros e mulatos maltratados, humilhados ou assassinados por um sistema que os exclui de toda e qualquer oportunidade de ascensão social, uma vez que tais oportunidades ainda ficam restritas às castas mais ricas da sociedade. Como seus pais e avós, os garotos riquinhos devem aprender, nas grandes universidades (públicas), como exercer rígido e inteligente controle contra a massa de espoliados que ganha R$ 380. Mínimo, múltiplo, incomum!

Os nossos guetos negros - aqui apelidados favelas - são antros onde a droga, o roubo e a prostituição são moedas com que se compra a indignidade de uma raça forte, que não vai à escola (ou vai à escola de péssima qualidade) porque aos poderosos não interessa uma negritude crítica e pensante. Felizmente ou infelizmente, ainda do morro dá pra ver tão legal o que acontece aí no seu litoral.

O Estado dito de direito não se faz presente e os burgueses se trancam por trás de mil esquemas de segurança, com medo da miserável horda que lhes assalta e lhes mata. E eles se perguntam sobre os motivos de tanta violência... Ora, a burguesia já não é tão inteligente e não vê que, desde a Lei Áurea, se as oportunidades tivessem sido dadas, os negros estariam dividindo o poder com eles, sim, mas não os assassinariam em busca de um naco de pão com que alimentem mais Fernandinhos Beira-Mar, Elias Malucos, Marquinhos do Boréu...

Por isto é que os meus irmãos negros, endinheirados, fogem da cor ao miscigenar-se com loiras oxigenadas que lhes preferiram em vista do regime de comunhão de bens que as fará tão ricas quanto eles. É por isto que as nossas negras se fazem loiras, fugindo da cor que não lhes empresta o ar burguês que gostariam de ter desde o berço.

* Cronista

 

 
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Rio Branco-AC, 5 de agosto de 2007
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