| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Memória da arqueologia acreana (XI) Depois de vinte anos de pesquisa ininterrupta, o ano de 1999 marcou a realização de uma das mais importantes missões de pesquisa arqueológica no Estado do Acre. A missão efetivada neste ano cumpriu a dupla função de coletar material para elaboração da segunda tese de doutorado a ser elaborada sobre os sítios com estruturas de terra geométricas e de estabelecer uma cronologia segura para estas ocorrências na região. Mas infelizmente esse ano ficou marcado também pelo agravamento da situação de saúde da excepcional arqueóloga acreana Mauricélia Sousa.
Depois do ótimo resultado obtido pela pesquisadora Rose Latini, que teve sua tese de doutorado aprovada em 1998, seu orientador, o Dr. Alfredo Belido, do Departamento de Físico-Química e Geoquímica Ambiental do Instituto de Química da Universidade Federal Fluminense (UFF) estimulou outra pesquisadora a dar continuidade ao trabalho de datação de sítios arqueológicos acreanos através do método de termoluminescência. Assim a pesquisadora Ieda Gomes Nicoli da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) topou o desafio, que deveria ser cumprido ainda em 1999 para atender aos prazos estabelecidos pelo programa de Doutorado da UFF. Uma vez que os sítios geométricos do Acre (atualmente tratados de forma sensacionalista como geoglífos) se apresentam distribuídos por uma ampla área do vale do Acre-Purus o Dr. Ondemar Dias e a Profª. Mauricélia Sousa organizaram um trabalho de campo cujo principal objetivo era o de revelar a rota de deslocamento dos povos que os construíram. Para tanto foram realizadas pesquisas em sítios arqueológicos situados em diferentes áreas do Estado: Xapuri, Rio Branco e Sena Madureira. A hipótese a ser testada era que através da datação por termoluminescência da cerâmica arqueológica destes sítios poderíamos saber se esses povos pré-históricos se deslocaram da Bacia Amazônica em direção aos Andes (do norte para o sul, tal como a ocupação histórica da região) ou na direção contrária. A partir desta orientação, portanto, a equipe formada por Mauricélia Sousa, Alfredo Belini, Rose Latini, Ieda Nicoli e eu, complementou os trabalhos anteriormente realizados nos sítios Los Angeles e Ouro Branco, mas também realizamos cortes-teste no sítio Xipamanu, que é o maior sítio geométrico circular já localizado até aqui, com cerca de 350 metros de diâmetro. Todos no município de Xapuri, próximo à área da BR-317. Dessa forma poderíamos ter um panorama razoavelmente claro acerca da ocupação da área sul do estado. Já na porção central do vale do Acre, no município de Rio Branco, retornamos ao sítio Alto Alegre, que havia sido localizado em 1992, às margens da BR-364, próximo ao rio Iquiri, e é constituído por uma estrutura de terra bastante complexa composta por um circulo principal com um semicírculo externo, duas muretas de saída e outra mureta levemente elíptica que foi cortada pela construção da estrada. Ou seja, um sítio bem distinto dos círculos simples de Xapuri e característico das formas variadas e complexas que existem no divisor de águas dos rios Acre e Iquiri. Finalmente, foi selecionado para esta pesquisa também o sítio Lobão, situado no município de Sena Madureira, ao longo da antiga estrada Lobão que ligava as cidades de Rio Branco e Sena Madureira antes da consolidação da BR-364. Este sítio foi escolhido porque desde a pesquisa de 1977 se destacou por sua característica bastante diversificada em relação aos sítios com estruturas de terra localizados em outras áreas do estado. Além de apresentar dois pequenos círculos de terra (com cerca de 70 e 50 metros de diâmetro), o sítio Lobão, como já foi descrito anteriormente na publicação de Ondemar Dias de 1988 e nesta série, apresenta também áreas de terra preta que assinala ocupações pré-históricas, bem como informações acerca da ocorrência de urnas funerárias. E quis o destino que nesta pesquisa de campo, realizada em março de 1999, conseguíssemos localizar uma urna funerária de grandes dimensões (com 1 metro de altura com 0,90 de diâmetro) que atualmente faz parte do acervo exposto no Palácio Rio Branco e da qual foi recolhido material para datação, além de outras urnas e potes inteiros e fragmentados associados às terras pretas. Assim passamos a contar com informações e datações também para a porção norte do estado do Acre e obtivemos à efetivação de todos os objetivos traçados anteriormente ao trabalho de campo. Como resultado deste trabalho a pesquisadora do CNEN, Ieda Nicoli, elaborou uma importante Tese de Doutorado, denominada “Estudo de Cerâmicas de Sítios Arqueológicos Circulares da Bacia Amazônica por meio de Métodos Geoquímicos”, que tal como a Tese da Rose Latini, também foi aprovada ainda no ano de 2000. A partir dessa pesquisa, portanto, passamos a contar com uma série de datações e informações relacionadas aos sítios com estruturas de terra geométricas que indicaram que os sítios da região de Xapuri, ao sul, são mais antigos, estando situados entre 3.000 e 1.200 anos “antes do Presente” (“aP” na linguagem dos arqueólogos) do que aquele localizado na região norte (Sena Madureira), que teve datação de 1.800 anos aP, mas indica também que foram, durante algum tempo pelo menos, contemporâneos. Além disso, pudemos observar que estes sítios apresentam diferentes tipologias e características ocupacionais. Esse conjunto de informações parece confirmar a hipótese anteriormente levantada por Ondemar Dias que haveria relações entre os sítios geométricos acreanos e ocorrências semelhantes registradas na região do Llano de Mojos (ou Moxos), na bacia do rio Beni na porção norte da Bolívia, portanto ao sul do estado do Acre, e que há muito tempo vem sendo pesquisadas por Clark Ericson. Mas essas são informações que aprofundaremos melhor na próxima série desta coluna. Ressaltamos assim que no mesmo ano em que começaram as primeiras divulgações sensacionalistas acerca dos “geoglífos”, a pesquisa arqueológica realizada de forma séria e responsável já estava bastante adiantada, contrariando muito do que vem sendo divulgado amplamente desde então. Mas, parece que é assim mesmo que caminha a humanidade: enquanto alguns trabalham a partir de um comportamento ético, outros se aproveitam do trabalho alheio para se auto-promover. Importante ainda registrar que a Profª Mauricélia Sousa não pôde participar intensamente de todas as etapas do trabalho de 1999, já que desde o ano anterior estava em tratamento de saúde relacionado a um problema extremamente grave, mas ainda estava também cheia de esperança de poder se curar e assim dar prosseguimento ao seu trabalho em prol do conhecimento da pré-história acreana. Aliás, devo sublinhar o fato de que em nenhum momento de seu penoso tratamento a Célia se entregou, lutando com todas as suas forças, com uma coragem e determinação realmente admiráveis diante das imensas dificuldades provocadas pela radioterapia e pela quimioterapia. Neste mesmo ano de 1999, eu e a Profª Mauricélia Sousa passamos a integrar o Departamento de Patrimônio Histórico da Fundação Elias Mansour (que, aliás, apoiou a pesquisa aqui descrita), no Governo Jorge Viana, o que marcou início de uma nova fase em nosso trabalho e deverá ser o assunto do artigo da semana que vem, se tudo correr bem, o ultimo desta já muito longa série. |
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