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| Elson Martins | |
Nem tudo que reluz... Conversei outro dia com o extrativista Raimundo Conceição Azevedo, um experiente habitante da Floresta do Antimary. Ele é mais conhecido por Raimundo “Comboieiro”, apelido que ganhou pela função que exerceu no seringal, de conduzir burros (em comboio) por dentro da mata, transportando o aviamento (açúcar, sal, charque, querosene, munição etc.) dos seringueiros, recolhendo na volta a borracha para o patrão seringalista. Em 30 anos ele exerceu outras funções: foi seringueiro, gerente, monitor de comunidade de base da Igreja Católica e pastor evangélico. Hoje, aos 65, é agente de saúde e presidente da Associação dos Seringueiros da Floresta Estadual do Antimary. A Floresta do Antimary é considerada o berço da economia florestal que o governo implementa hoje. Ela foi pensada em 1987 quando o engenheiro florestal (e atual governador) Jorge Viana e o economista Gilberto Siqueira dirigiam a Funtac (Fundação de Tecnologia do Acre). Dela sairam parte das experiências de manejo florestal comunitário que se espalham pelas áreas públicas estaduais e federais transformadas em assentamento extrativista, reserva extrativista e outras unidades onde se pratica a exploração sustentável dos recursos da floresta. Seu Raimundo ocupa a colocação Bairro Alto no Projeto de Assentamento Extrativista Canary (PAE Canary). Sua parcela possui quatro estradas de seringa englobando uma área de 400 hectares. Existem outros três PAEs instalados ou se instalando no Antimary, além de uma Fazenda que escapou da desapropriação do seringal. Cerca de 80 famílias extrativistas vivem na região. Elas trabalham na agricultura familiar, na coleta castanhas, criam galinha caipira e fazem carvão.Caçar também é permitido, mas somente para sobrevivência, sem cachorro e sem armadilhas. A comunidade produz milho, feijão, cana de açúcar e banana nos roçados autorizados, mas boa parte da produção se perde por falta de orientação técnica. O gorgulho acaba com o milho e os bananais estão morrendo, ninguém sabe por que. Para seu Raimundo faltam técnicos agrícolas presentes na área. Ele reconhece, entretanto, que no tempo dos patrões seringalistas tudo era mais difícil: “Se a gente vendesse um cernambi (pequena bola de borracha feita com a raspa do látex que ficava na bacia após a defumação) o patrão botava a gente pra fora do seringal”. Hoje não está melhor porque o processo é lento e existem famílias desestimuladas ou confusas sobre como trabalhar as mudanças. “Os seringueiros pegaram aquele espírito de fazendeiro: querem plantar capim em 3 ou 4 alqueires. Não fazem porque a associação controla”, garante. Controla mesmo? Fundada em 1995, a associação ficou muito tempo sem organização e trabalho perdendo a confiança dos produtores. “O pessoal tem medo até de reunião”, admite o dirigente. Certamente, sentem saudades das antigas e atuantes comunidades eclesiais de base da Igreja Católica, enfraquecidas pela ausência dos padres. Em compensação, existem três igrejas evangélicas dentro do Antimary. Os tempos são outros. Na verdade, as mudanças acontecem hoje através do planejamento dos governos estadual e federal através do programa de manejo florestal comunitário. Esse planejamento colocou quatro escolas na área, com ensino até a oitava série e deve colocar segundo grau ano que vem. São escolas boas, com placa solar, televisão, vídeo cassete e merenda. Tem cinco barcos conduzindo alunos e cinco barqueiros empregados. Os jovens não querem sair da floresta, diz Raimundo: eles acompanham as atividades dos mais velhos e estão animados com as escolas. Reclamam, contudo, da falta de bolas para organizar peladas de futebol. (Essa coisa elementar deve ter escapado do planejamento!) Como agente de saúde seu Raimundo Comboieiro não se queixa, pelo menos quanto ao atendimento básico. Ele fez treinamento na cidade e encontra-se preparado para fazer sutura e drenagem de tumores; aprendeu a fazer exames de malária e leshimaniose, e como tratar dessas doenças. O posto de saúde tem até microscópio. Essa foi uma mudança importante, pois morria muita gente confiando em remédios do tipo raspa de paxiuba, fumo e cocô de boi no umbigo da criança... “Os rezadores viviam com o beiço grosso de rezar, mas não davam jeito”. A reza é importante, pondera, mas o médico ensinou praticas mais eficazes às parteiras. O resultado geral é animador, assegura seu Raimundo Comboieiro: “Todo mundo fala: Deus me livre de ir pra cidade. Estamos ficando com medo de sair da floresta. Aqui nós somos libertos”. Deus o ouça! A DONA BRABA DO SERINGAL PAUINÍ
O poeta Mangabeira Océlio Medeiros O Acre passou a ser retratado, desde o fim do século XIX, como um palco de aventuras, safáris, de diplomatas e militares marcadores de limites . Foi também cenário natural de tragédias, dramas, comédias e teatro de confrontos guerrilheiros. Nas suas fronteiras vivas, as linhas de limites foram isóbaras entre pressões. Na Ribalta do Eldorado Verde dançaram as bandeiras dos estados soberanos limítrofes e nos afluentes das bacias amazônicas, drapejaram as flâmulas dos colonialistas e seus navios de guerra, montando guarda nas guarnições armadas e coletando tributos nos postos alfandegários... Mas há um outro Acre: o que foi e é, no espaço sideral das artes, o astral dos poetas, músicos, compositores, pintores, artistas plásticos... Neste firmamento do Noroeste, os telescópios dos observatórios da cultura do Acre centenário começam a procurar os reflexos das estrelas mortas, que iluminam o Noroeste com o seu brilho. Sobre este assunto, impõe-se recordar que, para as Bacias e os Ecúmenos da Região Acreana, não só vieram as levas dos flagelados das secas, os caçadores de fortunas e os sedentos de direitos de cidadania... Vieram também, à frente ou atrás das levas de flagelados, advogados, médicos, engenheiros, naturalistas, antropólogos e intelectuais. E entre tantos homens ilustres, alguns dos quais conheci quando era menino e rapaz, fulguraram poetas, compositores e músicos de ambos os sexos. Um deles sobrevive nas orquestras, nas gargantas dos estudantes, nas cerimônias, homenagens e eventos cívicos: Francisco Mangabeira, autor da letra do belo hino acreano. Nascido em Salvador, aos 8 de fevereiro de 1879 – filho de Francisco Cavalcanti Mangabeira e Augusta Mangabeira, genitores também dos dois grandes e históricos brasileiros da Bahia, os irmãos Octávio e João Mangabeira – o autor da letra do Hino do Acre teve o seu centenário de nascimento celebrado no Senado Federal, por iniciativa do Senador Jorge Kalume, na sessão ordinária de 30 de maio de 1979. O seu sobrinho, médico e escritor Paulo Mangabeira Albernaz, traçou-lhe a biografia em “Francisco Mangabeira – Sonho e Aventura”, que o governo do Acre deveria reeditar, juntamente com o discurso comemorativo do acreano Jorge Kalume. Aqui reproduzo para os acreanos algumas linhas da sua biografia: quando acadêmico, voluntariou-se para a Guerra dos Canudos, com 16 anos... No retorno, diplomou-se e serviu como médico de bordo num dos navios da linha costeira Salvador-São Luís... Transferiu-se para Manaus, de onde foi prestar serviços médicos no Rio Negro, Javari, Madeira e Purus... A seguir, viajou para o Acre, onde se incorporou no Exército Acreano organizado por Plácido de Castro... Integrou o corpo médico do exército e serviu como secretário da revolução... Contam que quando houve a intervenção militar do Brasil e os heróis do Exército Acreano ficaram acampados no “Seringal Boa Fé” aguardando os acontecimentos, o poeta-médico-guerrilheiro - que escreveu livros de poemas, a letra do “Hino do Acre” e “Cartas do Amazonas” - deu um passo à frente e pondo sob o braço o chapéu colonial, começou a recitar os versos candentes do Hino do Acre. E foi, portanto, perante a oficialidade e os soldados, que mangabeira leu, pela primeira vez, o belo poema musicado depois pelo maestro Donizete. |
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