OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Esse é o Joaquim!

O Joaquim Ferreira é um desses novos velhos gurus do planeta futebol. A natureza houve por bem plantar e ver crescer, inteligente e fagueiro, por estes campos de várzea de Rio Branco e adjacências, esse poetinha do mundo da bola. Foi um ponta direita grande, não um grande ponta direita. Jogou basquete, dentre outras coisas mais, e tal e tal.

A crônica o reconhece. Homem da palavra fácil, nos anos setenta e parte dos oitenta, pelas ondas da Rádio Novo Andirá, o Joaquim era (e ainda é) perfeito enquanto narrador de futebol. Intrépido, vibrante, ótimo português, era uma espécie de José Carlos Araújo acreano nosso de todos os domingos, na Jornada Esportiva, no tempo em que por aqui ainda se batia bola de verdade.

Já se vão alguns anos das ocorrência que seguem. Ano 2000. Durante o intervalo entre as aulas no colégio onde temos buscado ser bons professores, alguém deixou cair a seguinte pérola: a direção deste Colégio está igual à Seleção Brasileira; ninguém quer. Todos riram muito por conta de tal maledicência ter saído da cabeça de um anjo de boca suja, o Pinto, um cara que bodeja em ótimo inglês.

Passamos, então, a referir-nos apenas à questão Seleção Brasileira, pelo fato de todos nós, um a um, sermos melhores técnicos de futebol que o Velho Lobo.

Do alto da sua bem apessoada figura, cheio de razão, já se esguiando, um tanto filosófico ou premonitório, muito seriamente, o Joaquim Ferreira fez uma observação, amiúde, que eu, cá de baixo do pano verde da minha pouca humildade, tenho feito há alguns anos, em altos papos de botequim. Disse-me ele que o Brasil, apesar do avantajado número de cento e noventa milhões de especialistas em futebol, nunca teve um técnico realmente bom, no que prontamente concordei, afinal o homem tem história. O professor de Matemática afirmou ainda que o que existe à beira dos nossos gramados, em realidade, são homens jogados às traças do futebol, mímicos que, cansados dos longos piques e desempregados, se arvoram a técnicos, ganham algumas partidas seguidas e são guindados ao cargo, apenas pelo acaso e dificilmente pela competência. É drástico? Nem tanto. É realidade pura.

Aí pelos anos setenta, era (como ainda sou) fã inconteste do Hinnuns Mitchum, técnico holandês criador da laranja mecânica e do carrossel que botou literalmente o Brasil na roda em 1974. Aquele, sim, era técnico na essência da palavra. E era muito mais: era o senhor tática, psicologia, comedimento nas substituições, concentração de enxadrista, e assim por diante...

Vimos outros grandes técnicos europeus operarem milagres com times antes obscuros como o da Dinamarca, o da Hungria, o da Bélgica ou o da Suécia, dentre outros. Vimos, então, por último, esse tecnicozinho de trinta e poucos anos que dirige o time da África do Sul dizer que o futebol brasileiro não mais existia, no que prontamente discordamos. Sem xenofobia, praticamos e continuamos a praticar o melhor futebol do planeta em vista da qualidade técnica dos nossos futebolistas. Todavia, o que não temos mesmo é técnico. Eis a relidade.

Sem querer generalizar e já generalizando, com todas as minhas desculpas pelo pedantismo acerbo, quais os grandes feitos do Leão em nível internacional? E os do Abel Braga? E os do Levi Culpi? E os do Oswaldo de Oliveira? Nenhuns! Reconheço alguma capacidade no Scolari, no Parreira, como reconhecia no Telê, no Cilinho e no Cláudio Coutinho (rimou!), um campeão apenas moral. Sobre os demais, nada tenho a comentar, posto que são velhos boleiros que buscam um lugar ao sol dos dólares pagos, sem muita acuidade, por cartolas fúteis que montam máquinas milionárias - como do atual Corinthians Paulista (2006) - e, muito a contragosto, vêem sonhos se tornarem pesadelos, em vistas dos milhões em dívidas acumuladas e nenhum título.

Contratem aquele técnico camaronês (ou o da África do Sul), e um bom preparador físico, que vá fundo no ofício, e todos verão esses rapazes amarelecidos pela preguiça morderem do início ao fim do jogo.

Faz-se urgente e necessário dar todas as razões do mundo ao Joaquim Ferreira. Nós não temos técnicos-táticos com competência suficiente para dar contornos artísticos às obras de arte com que os nossos clássicos da bola nos brindam... Isto, quando não estão morrendo de preguiça.

Observação, hoje. Veio o Scolari, botou moral e nós fomos campeões do mundo em 2002 . O Joaquim estava certo.

* Cronista

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 5 de novembro de 2006
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
P E S Q U I S A