| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
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UM DEDO A MENOS João Dezenove trabalhava nas noites, de segunda a sexta-feira, sem atrasar nem prorrogar, era uma devoção. Tinha muitas habilidades para apropriar-se do alheio e exercia várias delas durante essas noites. Ocasionalmente, por tentação, por falta de sorte no negócio primitivo ou por absoluta falta de ocasião, principiava-se noutras áreas furtivas, uma ou outra punga, um truque com palitos ou tampinhas, em dar a loba na pretinha, em aplicar no faz-de-conta de uma receita vencida ou de uma viagem sem destino. Precisava de uma ajudinha, ele dizia. Mas, no habitual, o trabalho de Dezenove nos dias úteis era pura técnica, arte e criatividade no ofício profissional, com requintes personalíssimos. Em regra, a rotina do João, com seus dezenove dedos, era assim, mais ou menos, sem tirar nem por, ou melhor, mais tirando que pondo. Dando na veneta, Dezenove tinha uma esquina preferida para assaltar automóveis e motos de uns patos que voltavam do trabalho e caíam na besteira de parar no semáforo do “Vai Quem Quer”, velha casa de massagens de uma asiática chamada Dolores, cujos fundos vazavam para uma área impenetrável, onde uns chegados deixavam Quase-vinte agasalhar o produto, mediante módico dízimo do faturamento. E depois, os distintos orientavam o pato a perseguir o assaltante, que certamente havia fugido por uma via marginal, no rumo da periferia mais distante, onde haveria um desmonte paraguaio legítimo. Que nada. João apenas dava a volta e entrava pela retaguarda da Dolores, indo deixar o desembaraço do ganho com um alemão chamado Tição, que despachava tudo para inclusão no PIB de peças usadas, no agenciamento de pneus, no desmonte de sonhos velozes, de destinos estacionados. Então o dia estava ganho e Dezenove dava as mãos da noite a uma moça chamada Ingrid, chegada do sertão e da desilusão. Dançava até as duas, depois pedia que ela lhe embalasse as saudades e as aspirações e, mais uma vez, prometia a ela um anel de turquesa, direto da Bolívia. Ele encomendaria a um indiano, que nesses dias estava sumido, fora de área. Ela também não havia podido estudar, foi sexta filha de uma lavadeira sem posses, desbotou a língua pedindo emprego e na décima sexta cantada caiu. Caiu de fome e de precisão, a nunca mais ser possível escrever o que ela dizia, a nunca mais soletrar o miudinho, só dançar. A noite estava perdida e ela ainda ensaiava. Em dias de lua João investia em casais. Assaltava em motéis e se divertia ao ver os frangotes caindo do poleiro, os galos velhos soltando a franga. O apurado era menor, mas variava e saía das massagens da Dolores para um reality efetivo, sem deixar de estar no show. Ou então, na cara, chegava junto a uns destelhados que ficavam olhando a lua, enamorados, prometendo o céu, um para o outro, sem ver a nuvem negra se aproximando. Casais o estimulavam com uma certa idéia de reciprocidade. Talvez fosse para compensar os dedos ímpares. Era tudo rápido. Chegado o horário, Dezenove corria para o strip-tease da Fabíola, procurar a Brenda, que sempre lhe contava sobre os tempos de criança, lá no interior da solidão, ao lado de um lugar chamado Redenção. Era mesmo preciso correr. Ela sempre queria contar a mesma conversa para o primeiro que quisesse ouvir seus lamentos. Quem chegasse primeiro poderia levar. E a vez do João poderia mudar de semana. Às vezes, Brenda, facilitava as coisas para Fabíola, velha companheira de guerra, de calças vermelhas e batom rosa, de unhas negras e pouca conversa, perigosas unhas, que prendiam o futuro de João, lhe cravando na pele um presente indiferente, um prazer doloroso. Um prazer bom para chorar. Tudo bem. Se tudo também corria, outra terça-feira logo estaria de volta. João disparava, olhava os luminosos, quase lia, entendia de tudo, desde quando teve que se virar, sem estudo, sem chance, com fome e sem jeito. E foi nisso que deu-se o fato, ele roeu o osso, mordeu a isca da vida, caiu na real e virou artista no ofício do toma lá, traz pra cá. Pensando bem, João não tomava nem furtava, arrecadava, angariava, com habilidade especial, os meios para desfrutar momentos de realização, que só assim se mostravam possíveis. E ele ia ganhando os dias, viajando a vida, conquistando a sorte. Em dias esportivos, o Menos-um queria multidão. Fazia ponto em acesso de estádio de futebol (mas não se importava se tivesse que variar de praça esportiva e de modalidade, nada o aborrecia, também gostava de vôlei). Nesses lugares a verba já vem trocada, separada, mas é sempre bom conferir os outros bolsos, além dos titulares sempre há alguns reservas, e João precisava receber a bandeirada. Nesses dias, lembra-se muito de quando perdeu um dedo e virou Dezenove. Foi um rojão de festa junina, lá em Boa Esperança, há muitos anos. Deu vergonha. Nunca mais teve vontade de ir pra escola, ficou difícil escrever, ficou sem graça ver olhares desconfiados, sorrisos disfarçados, gozações escancaradas. Sem contar que aquela ave-maria não era fácil. Lembrando disso, João queria ver muita gente e não falar com ninguém. Não é fácil fazer gol na vida, por isso, após faturado o ingresso para a noite, João mandava-se para o Poleiro, uma famosa rinha, onde sempre escapava alguma beliscada. Lá encontrava com Julieta, uma peruana loura que lhe dizia so love, so love. Ali se encerravam as apostas do dia, naqueles olhos pacíficos e cheios de água, um oceano de prazeres em tempo de desaguar. João abria as asas e beliscava a felicidade, o amor vencia, venceu, dormiu. Mudando de lado, uma brisa caribenha desfilava em seus sonhos quando chegava o fim do mês. Nesses dias, João queria shopping-center. Agia no mercado de importados, com modos operandi tupiniquim, sem perder o jeito traquejado. Essa gente usava cartão, mas era fácil selecionar os portadores da espécie, da bufunfa pura, do capilé. Pareciam gansos, cheios de pompa, emplumados, com pescoços empinados, rodando para lá e para cá, se mostrando. João sabe tudo. Lembrou de quando foi pedir para estudar, lá em Boa Esperança, e o diretor (também vereador) disse que não tinha vaga. João danou-se com ele e lhe rapinou um frango. O decente ficou sabendo e aprontou, entupindo o rojão. De lá para cá, João não gosta desse pessoal poderoso. Voltou à vida, dentro do shopping, escorregou pela rolante, atirou-se nos braços de Angélica, a vendedora de chope, e ela lhe forneceu umas fichas para bebida, cigarro e coxinha João sorriu, olhando o mundo, esperando a felicidade, de olho no caixa da Angélica. Fruta não cai longe de árvore, todos eram da mesma semente, a vida uniu essas pessoas pelo mesmo caminho, o caminho de acostumar-se a tudo, sem parar. João sonhava e tomava outra noite, embriagado dessa vida. Nas sextas-feiras é hora de buscar a concentração popular num pagode, ganhar no ritmo. Só lá pelas tantas, era hora de bailar com o jambo da Imaculada, e olhar na sede dos olhos dela, para enxergar o sábado chegando, chegando, daqui a pouco, vem um gosto de cerveja, um cheiro de feijoada, daqui a pouco, é dia de folga. Enquanto isso, no estacionamento, João fazia o ganho, botava uns moleques pra assaltar os pintos da primeira pena, sem atravessar no samba. Na portaria também havia um investimento, ele indicava quem tinha, fazia conduzir as necessidades. Ganhando tempo, ele ganhava a vida. A morena sorteada esperava a vez dela, do alto dos saltos, era a rainha do lugar e batia continência para o Quase-vinte. Quando ela chegou, lá de Retiro, ainda sem habilidades, embora com potencial (um caminhoneiro, na vinda, lhe passou a valsa e quitou uns goles), foi João quem a recebeu no palco, quem lhe proporcionou a estréia, quem lhe introduziu no rebolado, facultando-lhe o gozo de certo percentual. Era-lhe muito agradecida, enquanto dançava, enganando o tempo, sorrindo, gastando a existência. Sem preocupações, a sexta-feira transcorria nessas vidas, nesse mundo, na subtração desse deixar estar. Sábado! Isso é que é dia. Nada de esquina nem shopping, nada de futebol, de motel nem de pagode, tampouco pracinha, sábado é dia de carteado, o dia todo, até a manhã de domingo, ninguém é de ferro, se vem fácil o ganho, também pode ir fácil. Homem tem que sustentar o vício, afinal, para que é que se trabalha tanto? E no fim, o que é que a gente leva, se a vida está perdidamente ganha? Mas, no baralho, se alguém ganha, leva! Que seja ele. Não interessa, agora é a vez de sair batido, com duas feitas, de mão, e outra pronta, e é só rodar, é só dar asa aos patos, bater com dez, arrastar as fichas, a grana, os vales, e até aquele relógio (que réplica bem-feita!). E pensava, agora, agora, depois, não deu, que coisa... - Será que tão me roubando? E questionava: - Só dá a casa, só me dão a loba, é melhor trocar as cartas, tomar uma atitude, dois goles, tomar conta da situação, afinal, quem é o bom aqui? Sábado, é hoje, porque é. E porque hoje é sábado, mulher só de manhã. Domingo, logo cedo, tem que ter, João não dorme só, tem medo, não gosta de parar para pensar nem tem coragem de ver um mundo tão grande, com ele tão sozinho. Precisa de companhia, de dia, quando acorda, e também de noite, necessita de uma vigia, ele cuida delas, como ninguém cuidou dele, ele é jeitoso, carinhoso, necessitado. Moças da vida cuidam da vida dele, descuidada, feliz. Alguma Maria embala o sono do João enquanto sonha com um redentor, enquanto a tarde rouba a manhã. Alguma Maria, todas elas, nenhuma tem ninguém nesta vida, nessa lida, por isto, se entregam ao ofício, e esperam por ele, para também se entregar, como a elas ninguém nunca se deu. É a vida. Imagine você, elas terem ficado lá, além da desilusão, bem depois da daquela vida sem sensação... O sono do João embala as diferentes Marias da vida e ninguém acorda para as indiferenças do mundo. Se tudo passa, se tudo corre como quem rouba, o domingo é dia de visitar os parentes, há oito filhos, numa tarde só não dá... João visita a prisão em que estão suas lembranças, entrega-se e confessa tudo que vem imaginando. Mexer com a vida, pensando besteira, nem dá tempo, a vida passa logo... João atravanca as idéias. Outro domingo corre. O tempo faz que corre. João faz que acredita, até segunda-feira. Para essas esquinas da vida, vai quem quer, para a esquina da Dolores, vai quem pode. João sacode a vida, o tempo, com ele ninguém pode, ele sabe, ele nem desconfia, finge, nos dedos, menos um, no mundo, apenas um, mais um número. |
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