| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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No penúltimo dia do ano de 2007 um livro saltou da estante direto em minhas mãos, ultimamente eles estão com essa mania. Era o livro “Artigos em Geral” de Antonio Alves e não houve jeito de escapar, tive que encarar. Mas antes do raiar do novo ano a missão já estava cumprida, com muito prazer devo acrescentar. E graças às artes de Toinho, o fim do ano acabou se tornando tempo de refletir sobre o Acre dos últimos 20 anos e mais ainda sobre a natureza do tempo e da historia que escrevemos a cada dia, enquanto a vida segue seu curso inexorável. 7 – Já de saída (ou afinal, como preferir) devo esclarecer ao leitor desse artigo que ele foi escrito ao contrário do que está publicado aqui. Ou seja, aqui no jornal ele aparece com a numeração invertida porque é assim que os arqueólogos trabalham nos sítios arqueológicos. Do presente em direção ao passado. E nisso reside minha maior (e quase única) critica ao livro “Artigos em Geral” do Toinho. Se a série se chama Arqueologia do Recente, os textos não deveriam estar organizados pela ordem cronológica, mas exatamente ao contrário. Mas pro Toinho isso vai soar como preciosismo de arqueólogo, tenho certeza. De qualquer modo quem quiser ler esse artigo na seqüência natural em que foi escrito basta ler de traz pra frente, seguindo a numeração de suas partes. Alertando que na verdade tanto faz, porque como meus meninos Yago e Vinicius, ou como a História e a Arqueologia, Toinho me é como um irmão (mais velho é claro!) e por isso tudo o que escrevo aqui é altamente suspeito! 6 – Não sou um crítico literário e nem quero ser. Portanto, este artigo não pode ser classificado como uma resenha acerca do livro do Toinho. Na verdade só estou escrevendo esse artigo porque também quero ser justo com ele na medida em que se trata de um grande livro, daqueles que depois que pegamos o ritmo não conseguimos mais parar de ler (e haja de fugir pro banheiro ou pra rede pra poder ler mais um pouco) e só sossegamos na ultima página. Não sem um suspiro de imediata saudade de tudo o que acabamos de ler. Assim fiquei devendo - não ao Toinho (ou como ele diria à “coisa em si”), mas ao próprio livro “Artigos em geral” (ou ao “espírito da coisa”) - trazer aos leitores dessa coluna a recomendação: LEIAM TOINHO que faz bem a alma e à mente. Afinal de contas “O Acre não é um estado, é um problema ontológico. Uma questão filosófica.” E compreender o estado de espírito acreano é coisa (parodiando Herman Hesse) “só para raros, só para loucos, só para poucos”. Enquanto que o livro “Artigos em geral” deve ser (como é) para todos. 5 – Não deixa de ser surpreendente ver um escritor anarco-acreanista (uma quase classificação) como o Toinho - a ponto de iniciar a série de cinco livros denominada “Arqueologia do recente” pelo volume três só pelo prazer de contrariar a lógica imperante - ser tão metódico e organizado como ele se revela ao longo de seu livro. Me confesso abismado diante dos textos numerados, com uma lógica seqüencial muito precisa e paradigmática (e que motivaram a numeração o texto que estou escrevendo agora - uma quase paródia). E mais assustado ainda ao ver a recorrência com que Toinho utiliza um preciso e bem definido método de análise, magistralmente bem explicado no artigo “Defesa Siciliana” como uma estratégia dos enxadristas, e que pode ser encontrado em diversos outros artigos, explicitando assim o rigor metodológico do seu “verniz materialista dialético” auto-revelado. Uma verdadeira surpresa, mas nunca um espanto, pelo pouco que conheço o Toinho. 4 – Toinho acerta na mosca quando, na apresentação do livro, anuncia a dificuldade que os leitores podem sentir para atravessar o difícil emaranhado inicial dos textos de natureza política (um quase tabocal) até alcançar os espaços amplos (uma quase floresta de várzea) dos textos sobre cultura. Neste sentido devo dizer ao meu amigo Toinho que apesar da importância destes textos iniciais para a conexão com idéias fundamentais que são desenvolvidas depois, a seqüência ficou um tanto quanto repetitiva, fazendo com que o texto que conclui essa parte do livro “A arte de distribuir apostilas” seja quase desnecessário. Salvando-se apenas pelo poder da ironia que esse texto contém para a necessária desconstrução e desempoderamento de tudo o que tinha vindo antes. Da mesma forma que a presença do texto “Um espelho, uma cartilha, um navio”, acaba destoando do conjunto dos textos da segunda parte do livro, quase como uma volta aquela parte inicial (política) que causa um certo enfado. Mas uma boa notícia. Apenas um artigo (“Reservas da vida”) depois daquele ultimo chegamos ao melhor texto de todo o livro: “Breves histórias no tempo” . Mesmo já sendo um fã confesso do artigo “Cultura de Subsistência” e sendo tentado, por motivos totalmente pessoais, a enfatizar a importância do artigo “O futuro do passado” (que serviu de prefácio a um livro meu e da Célia), tenho que reconhecer a dor, a esperança e a conseqüente beleza do artigo “Breves histórias no tempo”. Com essa homenagem ao grande Zé Leite, Toinho não só foi justo ao construir um inspirado texto (como o Zé bem merecia), como mexeu com minha imaginação ao me fazer sonhar com um monte de trabalhos possíveis, bacanas e necessários. Porque li neste texto o essencial da alma acreana. Mas não descarto a possibilidade de ter me encantado tanto com este texto porque me vejo em relação ao Toinho como me parece que ele se vê em relação ao Zé Leite, apenas um aprendiz de escriba. 3 – Talvez a questão mais difícil de compreender no livro do Toinho seja mesmo sua premissa fundadora. Afinal quem é esse Toinho, autor do livro “Artigos em geral”? Jornalista, historiador, filósofo, sujeito político, artista das palavras ditas ou escritas, marqueteiro das campanhas eleitorais, livre pensador, profeta, recente gestor público ou antigo seringueiro que chegou atrasado e nunca cortou uma seringueira? Vai saber... Se mesmo ele tem dificuldade de se definir nesse mundo de especialistas, doutores e outros tipos de egoístas. Entretanto, algumas respostas parciais talvez sejam possíveis de serem alcançadas através de seu livro e nisso reside a mais evidente importância de ler essa coletânea: compreender (já que decifrar é impossível) o Toinho. Um sujeito genial e contraditório que circula com a mesma desenvoltura no mundo das idéias, do pragmatismo político e da terra simples (floresta) dos homens de bem. E só pra contrariá-lo (um quase-esporte) depois da leitura de seu livro tenho que recusar sua auto-definição como cronista. Neste “Artigos em geral” ao menos, ele conta a história do Acre e da Amazônia com a desenvoltura dos historiadores, revela a trajetória política das duas ultimas décadas acreanas com a acuidade dos cientistas políticos e narra com riqueza de detalhes os acontecimentos (enquanto) “quentes” do nosso tempo como autentico jornalista. E com isso Toinho acaba nos impondo a verdadeira e fundamental questão de seu livro: quem somos nós diante de nosso tempo? Que história de si mesmo cada um de nós tem escrito? Com a palavra quem tiver as respostas... 2 - O A arqueologia é uma ciência curiosa. É irmã da História, pois ambas são filhas do tempo dos homens e de sua trajetória. Composições originais e singulares de Cronos e Menemosyne, o Deus do Tempo e a Musa da Memória, que inspiravam aos gregos muitas de suas artes, enquanto os ensinava a viver. Entretanto, como são distintas essas ciências irmãs. Enquanto a história tem a arrogância de pretender alcançar o detalhe, a precisão, dos atos e acontecimentos do passado, a arqueologia é uma incansável servidora dos vestígios, do impreciso, do que pode ter sido um dia a vida dos homens e das sociedades que eles criaram sobre a terra. A história trata dos relatos escritos legados pelos mais antigos aos que vêm depois e por isso se organiza e se descortina sempre do passado, da origem, em direção ao presente, o conhecido, e ruma, segundo cremos, ao futuro. Já a arqueologia em sua busca incerta terra adentro se orienta do que é hoje, a superfície da terra, em direção ao passado mais longínquo, reunindo cacos de cerâmica, lascas de pedra, ossos e lixos muito, muito mais, antigos do que pode ser a vida de qualquer ser vivente, até se perder na imprecisão do pó dos tempos. 1 – Curioso como irmãos podem ser tão diferentes. Não deixa de ser impressionante que seres nascidos de um mesmo casal possam ser assim. Olho meus meninos brincando em casa e me surpreendo sempre com tamanha diferença de temperamento, personalidade, características físicas, jeitos e trejeitos. Eu e Duy nos divertimos buscando as diferenças-semelhanças entre o Yago e o Vinicius. Os dedos dos pés do Yago são meus, os do Vinicius são da Duy. Os olhos e a cor do Yago são da Duy, os do Vinicius são iguais aos meus. O lundu do Yago ao acordar é igual ao meu, o sono leve e o bom humor matinal do Vinicius são iguais aos da Duy. Como é bela e misteriosa a natureza. Como podem dois seres feitos com a mesma matéria prima serem tão distintos assim? Bendita mistura, verdadeira arte da singularidade, que torna cada ser sobre a terra único e faz com que a vida seja tão preciosa porque inimitável, irrepetível, insondável em seus motivos e destinos. Obs: Ei, Toinho, cadê os outros livros da série? Bora, cabra... Cuida...!!! |
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