ESPECIAL
   ENTREVISTA

Tião Maia

Josué Fernandes de Souza

Historiador defende aliança do PMDB com a FP com base em raízes históricas

Divulgação“Seria hipocrisia dizer que não há feridas. Elas existem, mas em política nós temos que ser maiores que todas as paixões”, disse ontem o jornalista e professor Josué Fernandes de Souza, do Departamento de História da Universidade Federal do Acre (Ufac), militante histórico do PMDB, ao defender a aliança de seu partido com a Frente Popular, principalmente com o PT. De acordo com o historiador, o PMDB e o PT têm uma longa história na defesa de princípios democráticos e a separação das duas siglas, inclusive em nível estadual, pode ter sido um longo erro. “Eu às vezes me pergunto: se nós estivemos juntos em situações mais difíceis, por que caminhamos separados agora?”, diz.

Em entrevista ao Página 20, Josué Fernandes, ex-secretário municipal e estadual de Educação, além de ex-presidente da Fundação Cultural e ex-superintendente regional do Incra, afirma que os peemedebistas que se levantam contra uma possibilidade de aliança com a Frente Popular, como é o caso do deputado federal João Correia, podem estar incorrendo nos mesmos erros que levaram o partido ao flagelo político. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Professor, nos últimos dias tem-se falado muito em todo o Acre de uma aliança também regional entre o PMDB e o PT. No seu partido há quem seja contra, como é o caso do deputado João Correia. O senhor é a favor?

Eu não posso falar em nome do PMDB e, aliás, não gostaria de comentar um fato que, ao que me parece, ainda não passa de especulação. Politicamente, decidi me recolher, me dedicar mais à academia. Mas, por outro lado, creio que, desde os gregos, somos políticos em tempo integral. Mesmo quando dizemos que não queremos mais, que não vamos mais votar, isso também é um posicionamento político. Sobre uma possibilidade de aliança do PT ou da Frente Popular com o PMDB, o que posso dizer é que em política nada me surpreende. Sempre gosto de mostrar aos meus alunos o caso da Olga Benário, a judia alemã que foi mulher do Luis Carlos Prestes e que, no auge do Estado Novo, na Segunda Guerra Mundial, o Getúlio Vargas a entregou à Gestapo de Hitler. Não obstante isso, em 1950, para não permitir que o Brasil caísse nas mãos da ditadura já naquele tempo, lá estava o Prestes, que perdera a mulher e ficara preso durante quase todo o Estado Novo, no palanque do Getúlio. Aos seus opositores, Prestes dizia que aquela era uma aliança a favor do Brasil e que não poderia permitir que suas mágoas pessoais superassem o interesse do país. Para mim, aquela foi uma grande lição de política.

Então está aí um grande argumento para justificar a adesão do PMDB ao governo Lula e à Frente Popular, em nível regional? Mas, ao que tudo indica, nem Lula nem a Frente Popular podem ser comparados à truculência do governo Getúlio, não é?

Entendo que o grande argumento para justificar essa aliança é o fato de que o PMDB não pode se furtar da obrigação de ajudar o Brasil. Não vejo estranheza do apoio do PMDB ao governo Lula porque, se a gente olhar bem vai perceber que as lideranças nacionais do nosso partido, todas elas não são figuras desconhecidas, nem mesmo para o PT. São pessoas que estiveram juntas com o Lula e outras lideranças petistas na luta pela anistia ampla, geral e irrestrita, nas primeiras eleições dos governadores após a ditadura e no enfrentamento ao governo de exceção. São lideranças que, aliás, sempre trabalharam pela legalidade de todos os partidos de esquerda que estão aí. Portanto, não vejo nenhuma contradição nisso.

Em nível local, como é que vocês vão justificar essa possível aliança?

De forma muito simples. Aqui não foi diferente também. Nossa maior liderança de oposição naquele tempo, o deputado estadual Alberto Zaire, era uma referência de todas as cabeças pensantes da esquerda local. O Chico Mendes, ícone do movimento ambiental e do próprio PT, filiou-se ao MDB junto comigo. Ele lá em Xapuri, pelas mãos do senador Adalberto Sena, chegando a ser inclusive vereador pelo nosso partido, e eu aqui, em Rio Branco, pelas mãos do Zaire. Filiei-me à noite, debaixo da Assembléia, porque naquele tempo o PMDB só podia se reunir à noite, para escapar da perseguição. São essas coisas que nos unem. Em nível nacional, mesmo o PT não tendo participado do colégio eleitoral para eleger o Tanacredo Neves, se recusando a participar também da Aliança Democrática, deu uma grande contribuição para a derrubada do regime militar. Temos, portanto, raízes históricas.

E como estão, concretamente, as discussões para a formação dessa aliança também em nível regional?

O PMDB nacional está se reunindo hoje [ontem], em Brasília, para avaliar essa carta de intenção. O Acre está com seus representantes, entre os quais o deputado João Correia, o dirigente Armando Dantas, o ex-senador Nabor Júnior e o ex-governador Flaviano Melo. Avalio que eles vão votar a favor.

Inclusive o deputado João Correia ?

O deputado João Correia é um homem de partido. Se o PMDB optar pela aliança, não acho que ele marche contra. O que precisa ficar claro é que essa aliança com o PT vem sendo ensaiada desde as eleições presidenciais. Basta lembrarmos que o Quércia [o ex-governador paulista Orestes Quércia] não apoiou o Serra, como seria quase natural, uma vez que o PMDB fazia parte da base de apoio do governo do presidente Fernando Henrique. Votou direto no Lula, nos dois turnos.

Mas, no Acre, para essa aliança se consolidar, há um fato muito lamentável que foi aquela tentativa de o PMDB, mesmo com toda sua tradição democrática, ter tentado vencer as eleições para governador de 2002 através do “tapetão”, tentando impedir o governador Jorge Viana de se candidatar à reeleição. Esse fato não seria um impeditivo?

Nós temos uma avaliação clara sobre política e poder. Uma coisa é a política macro. Outra são suas especificidades. O PCB (extinto Partido Comunista Brasileiro) falava em poder local naquilo que alguns chamam de interesses paroquiais. Para nós, política não se faz com lágrimas nos olhos ou com raiva – só se for a raiva combinada. Mas, respondendo à sua pergunta, eu posso dizer que o PMDB foi contra aquilo do tapetão. A avaliação do PMDB é que qualquer tentativa de ganhar a eleição no “tapetão”, além de um risco, seria um fato antipático, que se refletiria, como se refletiu, contra nós. Nós entendíamos que o povo ia entender - como entendeu - aquele ato como um gesto truculento. Quando as lideranças souberam daquilo, o recurso, a denúncia no TRE já era um fato consumado.

O senhor está dizendo que o PMDB ou o então candidato Flaviano Melo não sabiam da tentativa de impedimento da candidatura de Jorge Viana através da Justiça Eleitoral?

Sabíamos que aquilo seria proposto, mas fomos visceralmente contra. O Flaviano Melo, que estava no Rio de Janeiro, quando soube da ação, num telefonema a mim, disse: “Perdemos a eleição”. Ele era contra.

Então vocês, o PMDB, foram traídos pelo MDA?

O que eu posso dizer é que o MDA foi um belo projeto político. Aliás, uma bela casa - só que mobiliada com móveis velhos. Por isso não deu certo. Havia muita ferrugem na mobília.

Mas numa aliança com o PT e a Frente Popular vocês do PMDB não temem serem apontados pela população como fisiológicos?

Não acho isso impossível. Pode ser que a população pense isso, mas é um risco que temos que correr. O que eu compreendo é que os políticos e os partidos têm que absorver o que as urnas dizem. Quando você perde uma eleição é porque o povo o está elegendo para ser oposição. Ocorre que, no Brasil e no Acre não seria diferente, a crise é tamanha que não vejo condições de o país e o Estado bancarem uma oposição só pela oposição. A oposição tem que ser propositiva. Aliás, antes de viajar, o ex-deputado Ariosto Pires Miguéis, deixou essa impressão comigo. Ele acha que é fundamental uma aliança coma Frente Popular porque o atual Governo tem um projeto para o Acre. A história do desenvolvimento do Acre é cheia de hiatos. Você pega, por exemplo, o governo do professor Geraldo Mesquita, que teve esse viéis de desenvolvimento e de rompimento com grileiros e com a bandidagem que tentava se instalar no Acre. Os outros governos, no entanto, não bancaram isso, não tiveram o mesmo projeto.

Nem os do PMDB, que sucederam o governador Joaquim Macedo, sucessor de Geraldo Mesquita?

Os governos do PMDB vieram no viés da esperança e da mudança - coisas muito subjetivas. O atual governo tem um projeto. Se esse projeto vai dar certo ou errado, é outra coisa. O fato é que há esse projeto e não há outro, nem mesmo do meu partido, para se contrapor a isso. Então não vejo ser oposição apenas pela oposição. O PMDB é o poço de onde surgiu o PT e todas essas lideranças que estão aí. Portanto, não vejo dificuldades numa aliança, desde que fundamentada num programa, partindo-se do pressuposto de que se trata de uma aliança e não de uma rendição.

Isso significa dizer que o PMDB não vai mesmo lançar candidato próprio à Prefeitura?

Repito que não posso falar pelo PMDB, mas, particularmente, acho que lançar candidato próprio à Prefeitura, seria uma tolice. Uma candidatura própria nesse clima de aliança em nível nacional seria um erro – a não ser que fosse extremamente necessário. Em 1996, em Xapuri, tive que bancar uma candidatura própria à prefeitura numa situação de desgastes porque era absolutamente necessário. Nosso entendimento era de que minha candidatura contribuía para enfraquecer o conservadorismo e afastava o que havia de pior por lá, o que não é o caso agora de Rio Branco. Mas compreendo que essa aliança, se vier, tem que vir a seu tempo. É como um casamento, que só ocorre quando as duas partes têm algum tipo de atração. Por enquanto, eu acho que o PMDB e a Frente Popular do Acre está apenas no flerte. Eu me pergunto às vezes: estivemos juntos tantas vezes, nos momentos mais difíceis, e por que agora lutamos separados, muitas vezes até nos agredindo? Eu não sou ingênuo nem hipócrita. Sei que há feridas, coisas a serem superadas, mas entendo que o Acre tem problemas a serem resolvidos cuja solução não podem se restringir às magoas de A ou de B.

E como justificar aquela guinada à direita do PMDB em relação ao MDA?

Olha, nós aprendemos muito com as nossas derrotas. Quando fomos derrotados em 94, quando fomos esfacelados pelo Orleir Cameli e pelo Narciso Mendes, decidimos que alguns tabus teriam que ser quebrados. O MDA começou a ser gestado ali.

E esse negócio de que o PMDB é um partido de donos, que pertenceria aos ex-senadores Nabor Júnior e Flaviano Melo ou aos dois ao mesmo tempo?

Creio que isso é uma falácia. No PMDB, qualquer um foi dono. O Brizola é dono do PDT? Alguém fala no PDT que não seja o Brizola? Pois no PMDB todo mundo tem voz e vez. A alegação de que não construímos lideranças. A verdade é que construímos, só que elas saíram, deixaram o PMDB. Voou citar só alguns exemplos: o ex-deputado Said Filho, o Márcio Bittar, o Aluísio Bezerra. O Mauro Bittar, irmão do Márcio, foi uma bela tentativa de se forjar, através dele, novas lideranças no PMDB do Acre. O Márcio teve uma militância fugaz no PMDB, mas investimos muito nele. O PMDB local não tem dono, mas verdadeiramente não foi capaz de criar lideranças e ainda se autodestruiu quando da expulsão de três prefeitos lá no Juruá - o Paulo Dene, de Mâncio Lima; Ruy Assem, de Rodrigues Alves, e o próprio Aluísio Bezerra, em Cruzeiro do Sul. O fato é que hoje não temos candidatos no Juruá.

 

 
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Rio Branco-AC, 06 de fevereiro de 2004
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