OPINIÃO
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Taumaturgo Lima *

 

Quanta negociata!

Esta é uma das histórias da política nacional que o povo esclarecido nem gosta de lembrar. Quanto aos demais, os descamisados, aqueles de quem os espertalhões têm roubado até a consciência, tudo interessa tão pouco porque mesmo o pão que cai da mesa dos ricos é abocanhado pelos seus cães de raça.

Ninguém mais lembra aquele episódio escabroso ocorrido em 2000, na Bahia. Enfim, este é um País sem memória, principalmente, quando a questão é recordar as histórias dos nossos pequenos gatunos dos sertões nacionais.

Certa manhã, o vereador Edmilson Mania Brandão foi à casa do empresário Jadiel Mascarenhas. Mania era presidente da Câmara de Itaberaba, Bahia. Jadiel queria ser prefeito. Então, na presença de duas testemunhas, foi assinado termo de compromisso com firma reconhecida em cartório.

Histórico pelo conteúdo que escancara alguns dos piores hábitos e práticas da política, o acordo tinha cinco itens. Em troca do apoio do presidente da Câmara, e em caso de vitória nas urnas, Jadiel se comprometia apoiar a reeleição de Mania, empregar na prefeitura sua mulher, com um salário de R$ 600, e entregar ao vereador o contrato de lixo da cidade.

Depois da eleição do empresário, Mania fechou com a prefeitura um contrato de R$ 105 mil por 180 dias, o que parece pouco para os padrões da bandalheira verde-amarela, mas não para uma cidade de 58 mil habitantes.

Mania, por seu lado, se comprometeu empenhar seu prestígio político e doar 3 mil litros de gasolina e uma cota de medicamentos a ser definida pelo candidato. Teria também de empregar o Ruzinho, correligionário de Mascarenhas, no cargo de chefe de gabinete da Câmara, e liberá-lo imediatamente para a campanha do empresário.

Apesar de firmado em cartório, nenhuma das partes cumpriu inteiramente o termo de compromisso, o que só seria de se esperar por parte de quem se compromete com algo do gênero.

Mania disse não ter cumprido os itens a respeito da doação de gasolina e de medicamentos, por dificuldades financeiras. O prefeito eleito também burlou o acordo. Marlucia, a mulher de Mania, ganhou uma vaga na Secretaria de Finanças, mas seu salário de R$ 300 era a metade do acertado no documento. Foi demitida seis meses depois.

Quanto ao contrato de lixo, a Ijitec, empresa do vereador, chegou a receber um contrato de seis meses no valor de R$ 105,3 mil. Para burlar a licitação, Mascarenhas decretou estado de calamidade em Itaberaba (acúmulo de lixo), apesar de a prefeitura ter garis no quadro de funcionários públicos. Passados quatro meses, o prefeito dispensou a Ijitec. Mania embolsou “apenas” R$ 66 mil. O ex-vereador e Mascarenhas se tornaram inimigos.

Esta é apenas mais uma história do nosso relicário nacional que relata porque ladrão rico não vai preso no Brasil. No Acre, inclusive, isto era normal. A burla, o roubo, os assassinatos por encomenda, as empresas de faixada, as licitações viciadas, tudo isto faz parte de um passado que não está tão longe. Era aquela a época do “rouba-mas-faz”. Pior: havia o roubo e a obra não aparecia. Felizmente, tais práticas foram banidas e, hoje, o erário público acreano é tratado com muito mais respeito.

É preciso que a imprensa comece uma pregação pedagógica e faça ver aos desinformados que o voto que será dado ao futuro prefeito dependerá, exclusivamente, da história de vida do candidato. Em quantas jogadas ilícitas ele já se meteu? O que de concreto ele já fez pela comunidade? Ele paga os impostos corretamente? Ele paga o imposto de renda direitinho? Talvez não! Então, ele não quer fazer nada pela comunidade. Ele quer apenas embolsar o dinheiro do povo.

* Deputado Estadual do PT

 

 
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Rio Branco-AC, 06 de fevereiro de 2004
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