| ESPECIAL | |
| ALMANACRE | |
| Elson Martins | |
A Biblioteca da Floresta iniciou em 1º. de abril (não é mentira não) a publicação online da coleção do Varadouro, jornal que há três décadas fez reboliço e virou lenda no Acre e fora do Estado. Está na internet (site www.bibliotecadafloresta.ac.gov.br) a edição número um, acompanhada de uma longa entrevista feita 20 anos depois, em 1997, no efêmero jornal O Acre com seus editores, repórteres e colaboradores. A entrevista ajuda as gerações mais novas a entenderem o que se passou naqueles tempos difíceis, porém instigantes para o jornalismo regional e nacional. A idéia dos editores do site é disponibilizar uma edição por mês, até completar a coleção de 24 números feitos no período de 1977 a 1981. Disponibilizado em PDF, o jornal pode ser baixado e copiado à vontade, como instrumento de luta das forças populares do Acre, principalmente, dos povos da floresta contra aqueles que chegavam aos montões do centro-sul do país desmatando, queimando e expulsando famílias dos seringais. A justificativa dos invasores que apesar da resistência local se tornaram donos de latifúndios e continuam ameaçando a floresta, além de introduzir modismos, ganância e outros maus procedimentos na vida social, cultural, econômica e política do Estado – é sempre o “progresso” que prevê a derrubada da floresta para plantar capim, soja, cana ou outra desgraça semelhante, trocando a rica biodiversidade amazônica e os povos que com ela se identificam pela solidão e perversidade da monocultura. Na redação do Varadouro nasceram a Comissão Pró-Índio do Acre, o Sindicato das Lavadeiras, a proposta de criação do Partido dos Trabalhadores e tantos outros movimentos que não aceitaram a ditadura militar nem o que esta queria fazer da Amazônia, sobretudo do Acre, enterrando e cobrindo a cultura tradicional com bosta de boi e mijo de vaca. Os líderes seringueiros Wilson Pinheiro e Chico Mendes morreram nessa luta, assassinados, mas deixaram um legado que não pode escapar das mãos de seus herdeiros – extrativistas, ribeirinhos, pequenos agricultores, posseiros e índios que vivem nas reservas extrativistas e nos assentamentos do Incra, ou mesmo em outras unidades de conservação protegidas por leis ambientais, muitas vezes sem se dar conta da riqueza natural que possuem. Convém a esses herdeiros não desperdiçar o ano 2008, decretado Ano Chico Mendes pelo governo que eles ajudaram a criar. Existe muita conversa perniciosa em circulação por falta de reflexão, leituras, tolerância entre companheiros e, sobretudo, por falta de valorização do conhecimento tradicional construído com sangue e suor por quem aprendeu a viver na floresta e tem em mãos a tarefa desafiadora de construir uma sociedade nova, sustentável, ética e ambientalista. As lutas socioambientais do Acre, das quais Varadouro pode simbolizar a gênese e ainda hoje sugerir realinhamento de conduta, estão aí para serem postas sobre a mesa, como diria o poeta amazônida Thiago de Melo. E a sociedade acreana, creio, está à míngua de um discurso novo, verdadeiro, do qual possa se valer para expressar seu talento, sua vontade de participar e partilhar conquistas coletivas. O governo atual – podemos indagar - se não é da floresta como propala respaldado na história recente do Estado, é de quem ou de quê? E os herdeiros do legado do movimento que Wilson Pinheiro e Chico Mendes lideraram nos anos setenta e oitenta temem o quê, quando percebem desvios e nada falam ou fazem? A história do Acre é secular, original e exemplar. Esses valores estão reforçados por uma ancestralidade que desconhecemos, mas que tem nos ajudado superar seguidas ameaças. Ela fala pelo coração, independe de sofisticadas consultorias e tem sempre um pé atrás quando o discurso imposto inclui falsidade, personalismo, pobreza de espírito e mesquinhez. Leiam, colecionem e façam difusão do Varadouro. É possível descobrir em suas páginas que, não faz muito tempo, pessoas comuns e subletradas enfrentaram ditadura militar, meia dúzia de governos reacionários e corruptos, além de jagunços, políticos, empresários, policiais e membros do judiciário que se tornaram cúmplices da enorme maldade praticada contra os povos da floresta. Sem a resistência daquelas pessoas comuns e especiais, provavelmente, o Acre teria perdido sua melhor identidade. CORREIO Boi da cara preta Vale a pena ler e refletir, sobretudo quem convive com crianças. Até seriam engraçadas se não construíssem padrão negativo em mentes e corações. A historinha foi enviada por Dande, de Rio Branco, que esqueceu de citar o nome do autor: - Eu, um brasileiro morando nos Estados Unidos faço ‘bico’ de babá para melhorar de renda. Ao cuidar de uma das meninas, uma vez cantei ‘Boi da cara preta’ antes dela dormir. Ela adorou e esta passou a ser a música que pede sempre para eu cantar. Antes de adotar o “boi, boi, boi” como canção de ninar, a canção que eu cantava (em inglês) dizia algo como: Boa noite, linda menina, durma bem. Sonhos doces venham para você, Sonhos doces por toda a noite (Que lindo! né mesmo?) Eis que um dia a mãe me pergunta o que as palavras da música “Boi da cara preta” queriam dizer em inglês: Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de Careta (?) Como eu ia explicar para ela e dizer que, na verdade, a música “boi da cara preta” era uma ameaça, era algo como “dorme logo, caralho, senão o boi vem te comer”? Como explicar que eu estava tentando fazer com que ela dormisse com a música que incita um bovino de cor negra a pegar uma cândida menina? Claro que menti para ela, mas comecei a pensar em outras canções infantis, pois não me sentiria bem ameaçando aquela menina com um temível boi toda noite...Que tal!: “Nana neném que a cuca vai pegar...?” Caramba!... Outra ameaça! Agora com um ser ainda mais maligno que um boi preto! Depois de uma frustrante busca por uma canção infantil do folclore brasileiro que fosse positiva me deparei com a seguinte situação: O brasileiro tem é trauma de infância! Trauma causado por canções infantis! Exemplificarei minha tese: Atirei o pau no gato-to-to Mas o gato-to-to não morreu-reu-reu Dona Chica-Ca-Ca admirou-se-se, Do berrô, do berrô que o gato deu: Miaaau! Para começar esse clássico do cancioneiro infantil é uma demonstração de falta de respeito aos animais (pobre gato) e incitação à violência e a crueldade. Por que atirar o pau no gato, essa criatura tão indefesa? E para acentuar a gravidade, ainda relata o sadismo dessa mulher sob a alcunha de ”D.Chica”!. Uma vergonha! Eu sou pobre, pobre, pobre, De marré, marré, marré. Eu sou pobre, pobre, pobre, De marré de si. Eu sou rica, rica, rica, De marré, marré, marré. Eu sou rica, rica, rica, De marré de si. Colocar a realidade tão vergonhosa da desigualdade social em versos tão doces! É impossível não lembrar do amiguinho rico da infância com um carrinho fabuloso, de controle remoto, e você brincando com seu carrinho de plástico... Fala sério! Vem cá, Bitu! Vem cá, Bitu! Vem cá, meu bem, vem cá! Não vou lá! Não vou lá, Não vou lá! Tenho medo de apanhar. Quem foi o adulto sádico que criou essa rima? No mínimo ele espancava o pobre Bitú..... Marcha soldado, cabeça de papel! Quem não marchar direito, Vai preso pro quartel. De novo, ameaça! Ou obedece ou você vai se fu... Não é à toa que o brasileiro admite tudo de cabeça baixa... A canoa virou, quem deixou ela virar, Foi por causa da...(nome de pessoa) que não soube remar. Ao invés de incentivar o trabalho de equipe e o apoio mútuo, as crianças brasileiras são ensinadas a dedurar e condenar o semelhante:”Bate nele, mãe”! Samba-lelê tá doente, Tá com a cabeça quebrada. Samba-lelê precisava É de umas boas palmadas. A pessoa, conhecida como Samba-lelê, encontra-se com a saúde debilitada e necessita de cuidados médicos. Mas, ao invés de compaixão e apoio, a música diz que ela precisa de palmadas! Acho que o Samba-lelê deve ser irmão do Bitú!!!... O anel que tu me deste Era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas Era pouco e se acabou... Como crescer e acreditar no amor e no casamento depois de ouvir essa passagem anos a fio? O cravo brigou com a rosa Debaixo de uma sacada; O cravo saiu ferido E a rosa despedaçada. O cravo ficou doente, A rosa foi visitar; O cravo teve um desmaio, A rosa pôs-se a chorar. Desgraça, desgraça, desgraça! E ainda incita a violência conjugal (releia a primeira estrofe). Precisamos lutar contra essas lembranças, meus amigos! Nossos filhos merecem futuro melhor! Ah! Esqueci esta: Passa, passa três vezes... A última que ficar tem mulher e filhos que não pode sustentar... (Aí começa o desemprego). |
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