OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

A Pré-história Acreana VII
(O caso dos sítios geométricos)

Já nas primeiras pesquisas arqueológicas realizadas no Acre, em 1977, o Dr. Ondemar Dias relacionou os sítios com estruturas de terra geométricas com a existência em terras acreanas de singulares campos naturais, grandes áreas sem floresta e com vegetação aberta que poderiam atestar a milenar atuação humana sobre a floresta ou mudanças climáticas ocorridas na região nos últimos dez mil anos. Esta hipótese levantada por Ondemar há trinta anos atrás tem provocado ultimamente muitas especulações e poucas argumentações coerentes. Mas sem duvida trata-se de uma questão muito importante para o conhecimento dos povos pré-históricos que aqui habitaram em um passado distante.


Outro trecho do Mapa de Masô onde está registrado o “Campo Tyrene”, que também possui relações com o rio Iquiri/Ituxi, e que coincide com a área de ocorrência do novo sítio arqueológico identificado por Teófilo Leite (ver fotografia do Google publicada semana passada) próximo à cidade de Boca do Acre (no mapa designada como “Foz do Acre”).

Os “Campos da Natureza” (I)

Como já divulgamos em artigos anteriores, a primeira pesquisa arqueológica realizada de forma sistemática no Estado do Acre aconteceu em 1977, como parte das pesquisas que estavam ocorrendo em toda a Amazônia graças ao PRONAPABA (Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas na Bacia Amazônica). Essas pesquisas, que naquele ano se concentraram no vale do Acre, foram feitas pelos arqueólogos Ondemar Dias Jr e Franklin Levi, ambos do IAB (Instituto de Arqueologia Brasileira).

Um dos resultados alcançados na pesquisa de 1977 foi a localização, a descrição e as primeiras interpretações de sítios muito diferentes de tudo o que se conhecia na Amazônia até então e que Ondemar chamou de “sítios com estruturas de terra”, de forma coerente com o cuidado conceitual que normalmente se pratica na arqueologia. Mas chamou-lhe muito a atenção o fato deste primeiro sítio localizado coincidir com uma área onde existem vários possíveis campos naturais e que foram muito importantes na importação do gado boliviano para o abastecimento dos seringais (o que já foi assunto desta série de artigos) nos séculos XIX e XX.

Este sítio descoberto por Ondemar era o sítio Palmares, localizado na área onde ocorrem as nascentes do rio Iquiri (hoje área da usina Álcool Verde) e onde estão situados os Campos Esperança, Campos do Capatará, do Gavião, Central, da Cobra e diversos outros, que são registrados pela historiografia regional e pela memória local como campos muito antigos, anteriores mesmo à existência dos primeiros seringais acreanos.

Pesquisador perspicaz e experiente, Ondemar logo percebeu a singular coincidência da localização dos sítios geométricos e dos campos naturais, que evidentemente não poderiam ter sido construídos com a perfeição das formas que apresentam, em uma área florestada. Assim Ondemar logo postulou que para construir os grandes círculos de terra teria sido necessário desmatar previamente a área ou então aventar a hipótese que a floresta, em razão das mudanças climáticas ocorridas nos últimos dez mil anos, não existia nesta determinada área.

Para confirmar uma ou outra das alternativas levantadas por Ondemar é estritamente necessário, portanto, estudar com mais profundidade as informações disponíveis tanto para a existência destes campos naturais no Acre, como também sobre a sua possível relação com a área de dispersão dos sítios arqueológicos com estruturas de terra. Afinal, só com base em informações bem fundamentadas e consistentes, poderemos começar a compreender mais este aspecto singular e intrigante da pré-história acreana.


Trecho do Mapa de João Alberto Masô, editado em 1917, onde aparece os “Campos Esperança” como nome geral para uma série de campos localizados na área das nascentes do rio Iquiri.

A Tradição Indígena

Antes mesmo de começarmos a reunir aqui as informações disponíveis acerca da relação dos povos indígenas com esta questão dos campos naturais é muito importante considerar que esta ocorrência não está restrita á área acima descrita, nas nascentes do rio Iquiri, mas aparece também em pelo menos mais duas áreas do sul do Amazonas e são igualmente caracterizadas como campos muito antigos, anteriores à chegada do homem branco à região.

O mapa de João Alberto Masô, de 1917, além dos “Campos Esperança” (nome genérico da série de campos que relacionamos acima), registra também a localização de outros dois grandes campos naturais denominados como “Campos do Puciary” e “Campos Tyrene” (ver ilustrações deste artigo) e sobre os quais ainda voltaremos a falar em outro ponto desta série de artigos. Mas já de saída chama atenção o fato de que ambos apresentam nomes indígenas e estão situados dentro do tradicional território dos índios Apurinã, originais habitantes de uma grande área que se estendia desde o médio Purus (ao norte) até as proximidades do município de Rio Branco (ao sul) em meados do século XIX, quando da chegada dos primeiros exploradores à região. O que reforça também a tese, que temos defendido nesta série de artigos, que para compreender a pré-história acreana não basta estudar o Acre, sendo antes necessário considerar uma ampla região que temos tratado aqui como o “Grande Aquiry”.

Graças às escavações realizadas pela equipe do Instituto de Arqueologia Brasileira (das quais participou o núcleo acreano do IAB constituído pela Célia, Malu, e eu) e coordenadas pelo Ondemar, nos sítios Los Angeles e Xipamanu, na região de Xapuri, e Alto Alegre, no município de Rio Branco, entre 1992 e 1994, eu conhecia plenamente as diversas hipóteses de trabalho do Ondemar acerca desta relação dos sítios geométricos com os campos naturais. Especialmente aquela que relacionava a ocorrência destes campos com a ocupação indígena mais antiga do Acre. Uma hipótese que Ondemar estabeleceu a partir da revisão dos excepcionais trabalhos de Castelo Branco Sobrinho e que diziam que estes campos não eram naturais, mas fruto de um trabalho de desflorestamento contínuo e milenar realizados por antigos povos indígenas que habitaram primitivamente as terras acreanas.

Qual não foi minha surpresa quando, entre 1995 e 1996, durante pesquisa do GEPON-UFAC (Grupo de Estudos dos Povos Nativos) na aldeia Apurinã de Boca do Acre, denominada por aquele povo como aldeia Kamicuã (nome de um histórico e importante cacique daquele povo) recebi a informação de que nos fundos desta Terra Indígena, situada no sul do Amazonas, ainda existe um grande campo que os Apurinã chamam de “Campo da Natureza”.

E é claro que imediatamente relacionei esta informação às hipóteses traçadas pioneiramente por Ondemar e quis saber mais detalhes de meus amigos Apurinã que ativamente colaboravam e reorientavam a todo momento as pesquisas que ali estávamos realizando sobre a história e a cultura desta importante nação indígena amazônica.

Mas para minha surpresa ainda maior fiquei sabendo que os Apurinã, não só não gostavam muito de falar sobre o “Campo da Natureza”, como também não gostam nada de ir até lá. Segundo as informações que obtive em Kamicuã, os Apurinã evitam tanto quanto possível até mesmo atravessar aquela área porque ali aparecem muitos “encantos”, configurando-se, em alguma medida, como um território misterioso que integra o universo mítico e mágico do conhecimento Apurinã. Por outro lado, ao contrário do que afirma Castelo Branco, as memórias Apurinã dizem que eles nunca trabalharam com agricultura ou com qualquer outro tipo de atividade produtiva nesta área. Ou seja, segundo a tradição Apurinã, aquele “Campo da Natureza”, como o próprio nome já indica, não é resultado de nenhuma ação humana, mas deve sua origem à natureza (ou em ultima instancia a motivos que estão relacionados ao seu mundo espiritual, que, aliás, também faz parte do reino das coisas naturais).

Ao perguntar sobre as características do “Campo da Natureza” os Apurinã de Kamicuã me explicaram que se trata de uma área onde a floresta não cresce porque o chão é “areusco” e que além do campo ali só existem poucas arvores pequenas e muito finas. Mas informam também que, além de ser “areusco”, o chão ali tem alguma coisa estranha porque quando se bate com o pé se ouve um barulho oco que ressoa até muito longe. O que dava motivos a muitas brincadeiras entre os índios (apesar do temor que sempre sentem quando estão naquele lugar).

Essas informações indicam, portanto, a idéia que o “Campo da Natureza” de Kamicuã existe em função de características geológicas do local e não graças às atividades humanas ali desenvolvidas por uma possível ocupação antiga como sugere Castelo Branco. Mas não nos informa sobre os outros campos naturais de que estamos tratando (Esperança, Puciary e Tyrene). Por isso, não é prudente ainda descartar nenhuma possibilidade, ainda que hipotética. Antes teremos que reunir mais informações originadas de outras áreas do conhecimento, o que continuaremos a fazer na semana que vem.

 

 

 
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Rio Branco-AC, 6 de abril de 2008
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