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Marcos Afonso |
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“É PRECISO MUITO TEMPO PARA SE TORNAR JOVEM”
Esta semana eu completei minhas 46 voltas ao redor do Sol. E recebi uma quarta-feira ideal: lindas e nerudas chuvas chilenas, que murmuraram nas árvores do jardim. Ganhei uma carta maravilhosa (dessas de se guardar nas agendas de todos os anos), um porta-caneta, uma bateria em miniatura e – lógico - um bom livro (A Sombra do Vento, do espanhol Carlos Ruiz Zafón). Sem contar o almoço íntimo e uma festinha quase surpresa na Biblioteca da Floresta, tudo com a chuva descendo. A proximidade dos cinqüenta deixou-me mais à vontade para apreciar a frase genial de Pablo Picasso, que dá título ao blog desta semana. Mas nas memórias – tão comuns – do aniversário, ia e voltava como a chuva, um dia especial no início do ano de 1978. Era uma manhã. Lembro como hoje. Rio Branco flutuava num calor crepitante quando tomei coragem de subir a Avenida Getúlio Vargas, invadir uma de suas ruelas e entrar na casa de madeira, tipo armazém, com o coração aos pulos. Era a sede do jornal Varadouro. Lá dentro, numa atmosfera misteriosa, igual a uma bela tomada preto e branco de cinema noir, sentado num tamborete ou banco, lendo na mesa, encontrava-se o jornalista Elson Martins. Circunspecto, cuidadoso, o Diretor Responsável do “jornal das selvas”, me olhou desconfiado quando meio de supetão eu disse: “quero ajudar esse jornal”.
Depois de uma curta conversa que não lembro mais, o Elson provocou: “Tu quer mesmo ajudar?” Disse sim com a cabeça. Aí, ele coçou o cavanhaque, me escaneou de cabo a rabo, olhou uma pilha de jornal que se encontrava rente à parede e disse como se fosse a coisa mais simples do mundo: “Tá vendo? É tudo para entregar. Pode começar!”. Foi assim que fiz o meu primeiro trabalho “profissional” no jornalismo. E que honra, no Varadouro. Aos 15 anos já me encontrava suficientemente desasnado para compreender que estávamos numa Ditadura Militar e que ela deveria ser combatida. Rio Branco fervilhava com o movimento cultural. Teatro, poesia, festivais de música, cineclube, contracenavam com o movimento estudantil, comunidades eclesiais de base (da igreja católica), sindicatos rurais e associações urbanas.
E o Varadouro ia registrando tudo isso, mas com um viés de extrema lucidez e bravura: dando voz aos seringueiros, índios, e a toda e qualquer iniciativa que tivesse algum sabor democrático. Por isso eu tinha que ajudar aquele jornal. Tipo uma missão revolucionária. No início de 1978, eu ainda não participava de nenhuma organização clandestina na luta contra a ditadura, mas nunca me sentia só. Havia entre nós aquele indisfarçável olhar dos surdos. E sabia que estava participando dos preparativos da mágica tempestade que um dia haveria de varrer a tirania do nosso país e prepararia o solo para as sementes das liberdades que sabíamos necessárias.
Foi aí que conheci o Sílvio Martinello, o Editor barbudo, de poucas palavras, mas de sorrisos francos (embora raros), freqüentador do Palácio do Bispo - que ao lado do Colégio Meta, era um dos nossos “bunkers”.
Dos que participaram do primeiro número do Varadouro, me avistei, de perto ou de longe, com a Célia Pedrina, Luiz Carneiro, Rosa Maria, a Jalva e o talentoso fotógrafo Adalberto Dantas (o Adalberto do “Sesc”), além do Terry Vale de Aquino (que ainda não era Txai). E dei início à minha grande admiração e amizade pelo Abrahim Farhat Neto, patrimônio de todas as lutas do nosso povo, eterno Embaixador da Palestina, o nosso Lhé.
E nesta semana de aniversário, ganhei outro presente especial: a Biblioteca da Floresta Marina Silva começou a publicar em seu site o jornal Varadouro, digitalizado, número a numero. Acesse na internet (www.bibliotecadafloresta.ac.gov.br). De uma forma ou de outra, toda a nossa geração estará novamente nessas páginas. E, talvez emocionado, algum de nós entoará baixinho a canção de Milton Nascimento: “se muito vale o já feito, mais vale o que será...”. E o Varadouro foi uma idéia certa. Afinal, é preciso muito tempo para ser jovem. |
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