ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins


Escultora Christina Motta

Vem mais escultura pela aí

A escultora paulista Christina Motta, que mora em Búzios, no Rio de Janeiro, está fincando raízes no Acre. Suas esculturas de boa qualidade se multiplicam por aqui. Em 2003 ela fez a de Chico Mendes, erguida na Praça dos Povos da Floresta. A peça fundida em bronze mostra Chico em tamanho natural, em pé, segurando uma criança pela mão.

Três anos depois, Christina esculpiu o poeta Juvenal Antunes, postado no calçadão da Gameleira, e três figuras populares e gigantes colocadas na cabeça da ponte para pedestres, junto ao Novo Mercado Velho.

Conheci e entrevistei a artista em Xapuri, em 2003. Ela disse que viveu momentos de aflição para fazer a estátua de Chico no prazo curtíssimo - cerca de 30 dias, - que o governo do Estado lhe concedera. Normalmente, leva três meses para concluir um trabalho desse.

No corre-corre, a escultora esteve em Rio Branco por um dia apenas, em novembro (2003), para ver um vídeo, um CD-Room e escolher algumas fotos. Conversou com Gomercindo Rodrigues, um dos companheiros de Chico Mendes, esteve no Museu da Borracha. Depois voltou para Búzios e passou a ler artigos em jornais e revistas sobre as lutas acreanas em defesa da floresta.

Achou o que viu nos vídeos tudo muito bonito e percebeu que Chico aparecia sempre com as crianças, por isso teve a idéia de colocá-lo segurando a mão de uma delas. “Também era uma forma de mostrar como ele gostava de pensar no futuro”, explicou.

Christina esculpiu Brigite Bardot, sensação do cinema francês e símbolo sexual dos anos sessenta que é uma atração turística em Buzios, e o ex-presidente Juscelino Kubitschek em Belo Horizonte, entre outros personsagens. Mas foi a figura de Chico Mendes que a conquistou e emocionou mais.

O professor Alceu Ranzi, autor do livro “Paleo-Ecologia da Amazônia”, que organiza o Museu de Paleontologia da Prefeitura com cópias de fósseis que estarão expostas a visitação pública, na semana passada, conversou com Christina Motta ao telefone. Ele foi autorizado pelo prefeito Raimundo Angelim e pelo governador Binho Marques a consultar a escultora sobre o preço que cobraria pela escultura do Purussaurus, um jacaré gigante encontrado no rio Purus e que, logo logo enfeitará uma praça ou parque de Rio Branco.

O processo de construção da estátua é especialíssimo. Começa com uma fôrma feita em argila, da qual ela tira o molde com gesso e silicone, que vai para a fundição. O molde é preenchido com cera derretida para obter-se a estátua nesse material e depois cobri-lo por um “luto” (pó de gesso com cerâmica). Depois vem o banho de bronze.

O conjunto vai ao forno, quando então o molde de cera derrete e fica a capa de bronze.

A artista acompanha todas as fases de fundição e precisa corrigir aspectos da concepção para alcançar a alma do personagem: é o cabelo, o olhar, a vestimenta. “Eu só paro quando a pessoa [personagem] está me olhando”, explica Christina Motta, uma jovem senhora de olhar suave e fala mansa que possui completo domínio de sua arte.

Iliana Pinheiro

Na edição passada, por falta de espaço (mas também de bom senso do diagramador), a matéria principal de Almanacre saiu sem a fotografia da pessoa protagonista da história narrada. Ou seja: da Iliana Pinheiro, filha do sindicalista Wilson Pinheiro que, aos 38 anos, morando no Rio de Janeiro, participou como figurante da cena da minissérie Amazônia, da TV Globo, em que o pai, na dramaturgia da TV, é velado na sede do sindicato que presidia em Brasiléia.


Iliana: choro real na ficção da TV Globo

Wilson Pinheiro foi assassinado a mando de fazendeiros, no dia 21 de julho de 1980, por comandar os empates contra o desmatamento da floresta na região do alto Acre. Iliana, tinha 11 anos à época. Hoje ela trabalha como quituteira em Niterói, onde foi encontrada pela produção da minissérie aceitando convite para fazer uma figuração. Na hora da gravação, entretanto, não segurou a emoção e chorou.

O diretor Marcos Schechtman parou a gravação da cena e pediu aos técnicos, atores e demais figurantes que aplaudissem Iliana, filha real de Wilson Pinheiro, “uma mulher valente que nos honra com sua presença”.

Em seguida, eu conversei com ela, que se disse saudosa da mãe, dos irmãos e de uma filha de 20 anos que vive com o pai no Acre. Casada novamente, Iliana tem um filho de três meses, Marcos Paulo, que a acompanhou até a central de produções da TV Globo - o Projac -, longe de imaginar que seu avô era personagem da minissérie.

Faltam cultura e filosofia

Herbert Emanuel - poeta e professor de filosofia amapaense cuja inteligência honra sua terra - escreveu há algum tempo um artigo publicado na Folha do Amapá que permanece atual e necessário. No artigo, ao qual deu o título de “Mais filosofia e poesia para o século 21”, ele observa que as chamadas tecnologias da inteligência (computador, internet, cyberspace, celular etc.) “mudaram e estão mudando, radicalmente, a maneira de perceber o mundo”; e por conta dessa mudança, “parecemos estar em menos condições do que nunca de dominar o curs o dos acontecimentos”.

Embora considere que as descobertas a que chegaram as ciências naturais (astronomia, física, química, biologia) e as ciências humanas (sociologia, psicologia, antropologia, economia política) atingiram grau de sofisticação notável, nosso filósofo amazônico chama atenção para os flagelos que se abatem sobre a humanidade, em escala planetária, provocando o descontrole das cidades. E enfatiza ser esse “o grande paradoxo” do mundo contemporâneo: avanço tecnológico de um lado; desigualdades e injustiças sociais de outro.

A saída apontada pelo Herbert, que acho correta, é a poesia e a filosofia. Estas duas digníssimas “senhoras” – diz ele – “são legítimas filhas da cidade”. Sócrates praticava filosofia em praça pública, estabelecendo um diálogo crítico com os cidadãos, independente de sexo, idade, raça cor, etc. Depois de citar Nietzshe, para quem “pensar é mudar”, Herbert enfatiza que “não é possível falar em mudança – de qualquer natureza –sem uma prática filosófica e poética que encarne profundamente este mundo em mutação”.

Durante o governo Capiberibe no Amapá (1995/2002) nosso filósofo revelou muita competência na direção do Teatro das Bacabeiras Abriu as portas do teatro e ocupou todos os seus espaços com atividades culturais envolvendo grande parte da juventude. Ele trombou apenas, não por sua culpa, na política. Cometeu (?) o erro de dificultar os espaços da poesia e da filosofia para as solenidades oficiais e as colações de grau, por issos foi demitido da função

Mas estou lembrando do artigo do Herbert porque, há alguns anos ganhei de presente de uma grande amiga de Curitiba, um livrinho que contém preciosa entrevista com o filósofo francês Edgar Morin, para mim, um dos mais jovens, modernos e lúcidos apesar de seus 85 anos. O livrinho foi impresso em 2002, pela Unesp, editora da Universidade Estadual do Pará (UEPA) com o título: “Edgar Morin- ninguém sabe o dia que nascerá”.

A novidade filosófica é que Morin diz crer no improvável, porque “se acreditamos nas probabilidades, vamos rumo ao caos demográfico, ao caos econômico, ao caos ecológico, ao caos nuclear... Mas o improvável pode acontecer”. Por que pode acontecer?, indaga, respondendo em seguida com o princípio de Holderlin (poeta alemão que ficou louco aos 37 anos deixando, porém, obras com grande pureza lírica e de estilo): “Lá onde cresce o perigo, cresce também o que salva”.

E o melhor, o principio da esperança que o filósofo Hegel chamava de velha toupeira, também citado por Morin completa a saída provável (na improbabilidade) para os males de hoje: “Nas profundezas da humanidade, no inconsciente, as forças da regeneração trabalham as forças que querem salvar. Não se vêm essas forças, mas um dia elas germinam”.

O livrinho, como toda obra do Edgar Morin, é precioso e devia ser lido em praça pública, ensinado nas escolas de ensino médio, nas associações de bairro e nos sindicatos, e por que não nos gabinetes políticos e da administração do governo? Morin adverte que a democracia está de novo em crise e que temos um futuro incerto. Uma frase de Tarkovski, pai do grande cineasta russo Andrei Tarkovski e que foi um grande poeta, parece adequada para essa dramática situação: “O destino nos segue como um demente armado com uma navalha”.

Para nos safarmos desse destino, sugere Morin, parece conveniente acreditar no improvável. Foi na improbabilidade, argumenta, que a potência de Hitler foi derrotada em 1945, que o governo soviético stalinista desmoronou no Afganistão e, há dois milênios, a pequena cidade de Atenas rechaçou o enorme exército persa.

(artigo publicado originalmente na Folha do Amapá)

 
 
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Rio Branco-AC, 6 de maio de 2007