OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Ele, Sísifo!

Nascia e morria todos os dias na primeira hora do alvorecer. Do litoral rochoso do Mar Egeu, no lado grego, lhe tocava a pele, ainda cedo, leve brisa que prenunciava sol forte de verão causticante até muito e muito mais tarde da vida.

Viram-no em cueiros e, já, o oráculo de Delfos e a Pitonisa, dentre muitos, o diziam um predestinado. Seria mais um entre tantos Sísifos da modernidade futura a pagar pena perpétua por pecado mínimo.

Certo é que, ainda em adolescente, já se acostumara ao fardo pesado de mil culpas diárias por fatos inimagináveis, imponderáveis. Logo depois, alguém houvera por bem ou por mal espalhar boato infame segundo o qual, de uma ponta à outra da rua, o menino que chorasse não era de ninguém... Era dele. Ah, coitado! Não tinha sequer direito às verdes, posto que as maduras já haviam sido colhidas e muito bem pagas, em aconchegantes bordéis exclusivos, de alto requinte e luxo, àquela época clássica já denominados motéis. Tudo a peso de um ouro que o nosso herói jamais conseguiria amealhar, mesmo levando em conta toda uma vida bandida prenhe de poucas economias e muitas privações e prevaricações. Oh!

Foi mais ou menos por aí que Zeus, o Deus dos nossos deuses tão pequenos, resolveu proibir que o sol iluminasse toda a grande região da Trácia. Sísifo - alguém chegou a dizer - era um cidadão trácio. Pagava impostos em dracmas draconianas.

E os dias foram amanhecendo, um a um, um por vez, a cada movimento de rotação do planeta já estudado pelos gregos. Mas tudo continuava escuro feito o breu... E a escuridão permanecia, já, por mais de um ano, até que o nosso herói resolveu ir ter com o supremo Deus dos Deuses. Sequer conseguiu audiência com a secretária do chefe de gabinete, mesmo tendo se apadrinhado de um tal Pisístrato, ou Delfim, ou Neto, e por aí vai...

Voltou, então, decepcionadíssimo, pensativo: todo o amor que eu te dei você nem ligou. Ele houvera tido um caso quase platônico a partir do leito e do coração partido de uma ninfeta de nome Lilinéia, da corte do poderoso Eólo, o deus dos ventos. Todo bem que eu te fiz você se esqueceu. Nas artes da cama eram ambos versados e proseados segundo a mais genuína tradição literária de Homero, que foi também passada a Ovídio e a Camões e a Baudelaire e a José Augusto Fontes e a Cláudio Xapuri, aí já viajando pelas mais altas temperaturas abaixo da linha do Equador... Uma loucura!

Certo é que o legendário herói grego, feito um porra-louca, resolveu, clandestinamente, como sempre gostou, numa das noites intermináveis, subir o monte Olimpo onde estava o Palácio de Zeus, aquele que negara fogo. Já com um mapa minucioso em mãos e tendo-se tornado bastante hábil nas artes de pular cercas e muros, lá chegando, foi direto à pira onde o Deus dos Deuses guardava o fogo sagrado. Não titubeou um segundo sequer. Apanhou uma tocha. Acendeu-a e saiu correndo feito um louco com medo de ser visto por algum guardião embriagado que poderia, àquela hora, estar serpenteando alcovas e sentindo o mais puro cheiro da maçã, numa alusão a um dos bregas mais clássicos do nosso cancioneiro nacional do Brasil varonil.

Sísifo, então, correu por alguns quilômetros e já foi vendo o sol que brilhava por sobre a sua querida Trácia dos sonhos juvenis. Uma beleza!

Ninguém vira o roubo. Apenas Zeus e Afrodite, mãe de Lilinéia. O todo poderoso Deus dos Deuses, muito puto com a vida eterna, houve por bem, então, acusar, julgar, condenar e sentenciar, na marra, o pequeno ladrão humano aplicando-lhe pena drástica demais, severíssima... Sísifo, por mil anos, foi obrigado a subir uma montanha íngreme e, lá em cima, deitado por sobre o cume de um penhasco, todos os dias da vida milenar, teve vísceras e fígado dilacerados e comidos por abutres criados nos terreiros de macumba do Olimpo. A cada noite, os órgãos eram reconstituídos por obra e graça do Poderoso Zeus para, no outro dia, mais uma vez, a rotina repetir-se... Uma merda!...

Por mais argumentos que fossem usados, a pena nunca sofreu relaxamento algum, até porque ali não vigorava o Código Penal Brasileiro. Por mais fatos, testemunhos ou provas contundentes que apresentasse à comissão julgadora da sua justificada estripulia inocente e imbecil, jamais o castigo foi revisto e, ainda hoje e por todo o sempre, o pobre Sísifo não usará teleférico para subir a montanha, nem botinas sete léguas que lhe protegeriam os pés... O condenado mais antigo de todas as eras continuará a rotina diária que é restaurar os bofes sem ter a necessidade de enfrentar a fila do sistema único de saúde...

Em verdade, hei de vos dizer... Por mais absurda que seja uma condenação, sempre haverá uma via através da qual a defesa buscará recursos. Por mais real que seja um crime, a pena máxima nunca poderá chegar a mil anos de execução...

Não é preciso sofrer tanto... Afinal, Sísifo é apenas um humano ridículo e limitado que só pensa dez por cento da sua cabeça animal, como diria o bom Raulzito... Então, ide e pregai o perdão por esses desertos de meu Deus afora... Aleluia!...

* Cronista

 

 
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Rio Branco-AC, 6 de maio de 2007
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