| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Turismo e arqueologia – possibilidades e perigos Esta semana vamos continuar conhecendo alguns antecedentes da pesquisa da pré-história acreana. Hoje vamos ver uma fase que, se ainda não foi de pesquisas científicas por arqueólogos, deixou importantes contribuições para o desenvolvimento da arqueologia no Acre. Além disso, a ocorrência, nesta semana, de um importante debate sobre a exploração turística dos sítios arqueológicos acreanos exige algumas considerações para aqueles que não tiveram oportunidade de presenciá-lo. Memória da arqueologia acreana (II) Semana passada vimos que foram exploradores caboclos da Amazônia e viajantes estrangeiros, da segunda metade do século XIX e início do século seguinte, os primeiros a registrar a presença indígena nestas florestas e assim nos fornecer as informações iniciais sobre os vestígios arqueológicos presentes em terras acreanas. Entre os diversos cronistas estrangeiros que continuaram vindo para o Acre nas primeiras décadas do século XX para estudar os povos indígenas da região - como o já citado Paul Rivet, que desenvolveu importantes estudos de etnografia e lingüística entre os Kaxinauá e outros povos, nos anos 20 – entrou em atividade também outro importante tipo de “cronistas”: os pesquisadores acreanos (nascidos aqui ou não). É o caso, por exemplo, do jurista José Moreira Brandão Castelo Branco Sobrinho. Este senhor, de nome tão grande, desenvolveu suas atividades profissionais a partir de Cruzeiro do Sul, mas além de se dedicar às coisas do direito, se tornou um dos maiores pesquisadores da história, da geografia e da natureza do Acre, apesar de ainda ser um ilustre desconhecido para a grande maioria dos acreanos. É realmente admirável o imenso trabalho desenvolvido por Castelo Branco entre os anos 20 e 50. Pesquisador incansável e dono de uma curiosidade e perspicácia imensas, Castelo Branco nos legou inúmeros trabalhos, sempre publicados na revista do IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro). Estes artigos versavam sobre os mais diversos assuntos revelados por seus próprios títulos: “Povoamento da Acreânia” (termo que ele criou e utilizou amplamente, mas que não “pegou”), “Rios e caminhos do Acre” e “Gentio acreano”, entre muitos outros. Este último artigo, em especial, versava exclusivamente sobre os povos indígenas locais, utilizando o termo “gentio”, muito em voga na época, para designar esses povos, tornando-o referencia obrigatória para a compreensão do povoamento indígena do Acre e suas conexões com a pré-história da região. Com isso Castelo Branco nos legou uma enorme quantidade de informações que ainda não foram devidamente avaliadas e aproveitadas pelos pesquisadores contemporâneos de diferentes áreas do conhecimento. Aspectos da religiosidade, dos mitos, dos hábitos alimentares, das relações interétnicas e da cultura material dos povos indígenas acreanos podem ser conhecidas através desses artigos. Além disso, Castelo Branco foi pioneiro no estudo da “toponímia indígena”, ou seja, da nomenclatura de rios e acidentes geográficos acreanos, que em sua imensa maioria são de origem indígena. Basta olhar em volta. De todos os rios que cortam as terras acreanas, apenas alguns poucos como o riozinho do Rola, rio Chandless, Paraná dos Mouras, Liberdade e Jordão não possuem nomes indígenas. Todos os outros permaneceram até hoje sendo designados por seus nomes indígenas originais: Purus, Juruá, Tarauacá, Envira, Muru, Iaco, Iquiri, Abunã e assim por diante. E é importante ressaltar que o estudo dessa “geografia” indígena é extremamente importante para o conhecimento da territorialidade e das fronteiras que esses povos possuíam antes da chegada dos homens brancos à região estando, portanto, diretamente relacionada à pré-história acreana. Com isso, fica ainda mais fácil compreender a importância de conhecermos melhor a pré-história acreana. Apenas um século e meio nos separam dessa pré-história e muitas de suas características ainda estão por demais presentes em nosso cotidiano para serem ignoradas. Neste campo é importante ressaltar ainda o trabalho de outro tipo de cronista acreano. Estou me referindo ao estudo desenvolvido por João Alberto Masô que já em 1917 publicava um mapa extremamente detalhado do Acre. E apesar de não ter deixado extensos artigos, como Castelo Branco, só pela quantidade de informações contidas em seu mapa, o trabalho de Masô já vale por vários livros. Nele podemos encontrar, além dos traçados e nomes dos rios e igarapés da região, a localização dos grupos indígenas que ainda existiam (resistiam) na época, bem como a posição dos seringais ao longo dos vales acreanos. Um manancial extraordinário de informações, que junto com os dados que estão sendo levantados pelo estudo dos sítios arqueológicos do Acre, nos ajudam a compreender aquilo que os antropólogos gostam de denominar de “tempos imemoriais” da formação do povo acreano. Turismo arqueológico e ética - o desafio acreano A possibilidade de exploração turística dos sítios arqueológicos é efetivamente mais um dos aspectos que confere enorme importância a esse patrimônio do povo acreano. Neste sentido, são extremamente importantes iniciativas como a ocorrida nesta semana, quando a Secretaria de Turismo, capitaneada por Cassiano Marques, promoveu um amplo debate acerca desse tema. Foi uma oportunidade impar de analisarmos diferentes aspectos e pontos de vista sobre essa questão. Entretanto, penso que algumas questões são primordiais para o desenvolvimento deste trabalho que ainda está em seus primórdios, tornando assim possível evitarmos muitos dos erros que são rotineiramente cometidos em outras partes do Brasil e do mundo e que resultam invariavelmente em prejuízos a curto ou longo prazo. Já de saída é importante esclarecer que não sou contra o turismo em sítios arqueológicos. Muito pelo contrário, entendo os vestígios arqueológicos como um rico patrimônio do povo acreano e como tal devem e podem ser explorados para o desenvolvimento econômico e para o fortalecimento da identidade cultural da sociedade local. Desde que feito com os devidos cuidados para salvaguardar a integridade desses vestígios e para situá-los de forma ética junto aos empreendedores e consumidores do ramo turístico. Os exemplos estão por todos os lados. Uma informação falsa repetida muitas vezes acaba tomando a aparência de verdade e passa a ser difundida indiscriminadamente causando enormes prejuízos. Como no cabal exemplo da “Casa Branca” de Xapuri. Um prédio que em 1910 foi erguido para servir como hotel e restaurante e que nos anos 80 foi classificado como tendo sido a Intendência Boliviana na qual, no dia 6 de agosto de 1902, foi deflagrada a Revolução comandada por Plácido de Castro. Não bastaram, para desfazer a “invencionice” de quem queria a todo custo produzir atrativos turísticos, os protestos de antigos xapurienses que sabiam que ali nunca tinha sido a Intendência Boliviana de Mariscal Sucre. Assim como não foi suficiente o desenvolvimento de trabalhos de historiadores dando conta de que aquele prédio era mais recente que os acontecimentos da Revolução Acreana e que havia abrigado apenas atividades comerciais. Até hoje a fraude da “Casa Branca” de Xapuri continua sendo ensinada às novas gerações de acreanos e prejudica enormemente a compreensão da formação de uma das cidades mais importantes da história do Acre. Afinal, na verdade, a Intendência boliviana ficava abaixo da boca do rio Xapuri (e não acima como está a “Casa Branca”) para viabilizar a cobrança de impostos sobre a borracha produzida nos seringais desse rio além dos seringais do rio Acre. Assim turistas acreanos, brasileiros e estrangeiros seguem sendo enganados por um verdadeiro estelionato histórico. E infelizmente existem muitos outros exemplos de ações semelhantes por todo o Acre. O mesmo está acontecendo com os sítios arqueológicos que vem sendo erroneamente chamados de “geoglífos”. As pesquisas arqueológicas até aqui realizadas neste tipo de sítios não autorizam a utilização desta nomenclatura para designá-los. Isso se deve ao fato de que, como ainda não temos provas definitivas da função das estruturas de terras geométricas que caracterizam estes sitos, não podemos atribuir a eles uma função primordialmente simbólica que é o sentido de chamá-los de geoglífos. Da mesma forma que não podermos de nenhuma forma relacioná-los às famosas “Linhas de Nazca” que são tratadas por alguns autores como tendo sido confeccionadas para desempenhar apenas funções simbólicas. É obvio que chamar esses sítios de geoglífos é muito mais palatável para a imprensa e para o publico em geral do que chamá-los de sítios com estruturas de terras, ou mesmo de sítios geométricos. Da mesma forma que relacionar nossos sítios arqueológicos com as Linhas de Nazca possui enorme apelo promocional devido à fama que esses últimos possuem em todo o mundo desde a publicação do livro “Eram os Deuses Astronautas” de Erich Von Deniken no final dos anos 60. Entretanto é preciso refletir que essa possibilidade de marketing fácil não pode se sobrepor a necessidade de compreender corretamente esses vestígios arqueológicos, não só para explorá-los turisticamente com ética, como para podermos preservá-los efetivamente. É extremamente importante alertar aos turismólogos que começam a ser formados pelas universidades, bem como à mídia acreana que esses círculos, quadrados e outras formas geométricas de terra, que sem duvida são extremamente instigantes pelos mistérios que sugerem, não são obra de extraterrestres, não foram feitas por seus construtores para serem observadas por sobrevôo e não se referem a “civilizações” perdidas na floresta amazônica (afirmação que ouvi durante o debate e assunto ao qual voltaremos em outros artigos). É preciso estar atento para não trocarmos a ética pelo sensacionalismo barato, os prejuízos assim causados podem ser irreversíveis. E antes de encerrar esse assunto cabe esclarecer (até para depois não me tornar alvo de acusações infundadas) que não estou me posicionando contra a divulgação da existência desses ou de outros sítios arqueológicos. Apenas estou alertando para o fato de que é preciso ter cuidado para não vender gato por lebre, ou para não ficar achando que a exploração turística dos sítios arqueológicos vai render rios de dinheiro. O exemplo de Niéde Guidon e do Parque da Serra da Capivara, no Piauí, é bem eloqüente acerca das dificuldades desse tipo de exploração. Assim como é importante ressaltar que esse artigo não pretende esgotar o tema, pelo contrário, teremos que voltar muitas vezes a problemas que envolvem outros aspectos ainda não mencionados. De qualquer forma, parabéns à Secretaria de Turismo e toda a sua equipe que, com a promoção desse debate, revela a preocupação de fazer as coisas da forma certa. Um correto passo inicial para o desenvolvimento sustentável do turismo no Acre, que só agora começa a se consolidar, e que por isso necessita de todos os cuidados e considerações éticas essenciais para que resulte em benefícios e não em prejuízos para a sociedade acreana como um todo. Até porque essas mesmas considerações éticas serão necessárias para a abordagem, não só dos sitos arqueológicos, mas de muitas outras modalidades de turismo, como o turismo religioso, o turismo ecológico ou o turismo em aldeias indígenas. |
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