OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Poucas palavras

O muro do horizonte pintado embaixo do sol poente. Ou pichado, com um amarelo incandescente, que dava cor ao vento, por trás do vôo de um pássaro grande, de asas duras e retas, de onde deveria estar saindo aquele barulho que partia a tarde e fazia acontecer a noite, esparramando-se absoluta, por tudo que ali havia. Ainda há pouco, ali em frente, o sol estava embaixo do vôo de outros pássaros.

Era mais um pôr-do-sol, outra noite. Quem está em devaneio não tem pressa. Êxtase muda. Havia aquele barulho, havia o sol descendo atrás do muro abstrato, se acabando numa irresistível e intensa fêmea negra que todo dia vem tragá-lo. Essas coisas pegam a gente, dão na fraqueza. O sol caiu no rio. Da cartola do mágico com a capa preta saiu a noite. Deu breu no mato. Agora, as águas refletiam outro brilho. Outras luzes são acesas.

Isto assim, dito pelas palavras, não revela tudo que os olhos sentiram e guardaram. Depositaram lá longe, onde não servem descrições, onde não vale só o momento, onde as palavras calam, desistem. O destino da ilusão era mesmo não ficar em mim. Como o rio que finge passar mas continua ali.

Escapei do querer. Segui com a luzinha, piscando no pássaro de asas duras. Ali iam pessoas e um barulho, que ele levava para outras cenas, para outras possibilidades. Tive a certeza de ficar. Vou permanecendo. A noite se renovando, os olhos se entregando à escuridão, vou ficando. Algo como o dia e a noite se acabando, fugindo, para poder nascer de novo, era a certeza de não ir. Tudo isso faz a gente viajar na noite, nos sons, nas cenas em que a vida passa. Tudo isso fez com que as palavras fossem apenas estas.

 

 
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Rio Branco-AC, 6 de maio de 2007
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