OPINIÃO
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Lígia Maria T. da Costa

 

Uma proposta de novos olhares sobre a antropologia e a prática antropofágica

Adone Agnolin. O Apetite da antropologia, o sabor antropofágico do saber antropológico: alteridade e identidade no caso Tupinambá. São Paulo, Associação Editorial Humanitas, 2005, 402pp.

Imagine-se sentado em frente a um farto banquete, de sabores (-eres) e ingredientes diversos. Imagine-se saboreando a entrada, o cozido. Ao chegar ao prato principal você parece estar satisfeito, mas insiste em experimentá-lo sobretudo por sua aparência. O estômago começa a se retorcer, a respiração falha: indigestão.

É assim que o livro de Adone Agnolin, O Apetite da antropologia, o sabor antropofágico do saber antropológico: alteridade e identidade no caso Tupinambá se apresenta.

Graduado em filosofia pela Universitá degli Studi di Padova na Itália, Agnolin publicou diversos artigos sobre canibalismo, viajantes do Novo Mundo, jesuítas e tupinambás. É pesquisador voltado aos temas de experiências missionárias, jesuítas e população indígena brasileira. Seu livro, lançado em 2005, é fruto da tese de doutorado em Sociologia defendida em 1998 na Universidade de São Paulo (USP).. Atualmente Adone Agnolin é professor de História Moderna na FFLCH/USP.

No livro, o autor analisa a antropofagia tupinambá no chamado Novo Mundo entre os séculos XVI e XVII, em relação a uma abordagem antropológica, problematizada através da História das Religiões. A perspectiva de análise antropológica é importante já que destaca a relevância da cultura nos hábitos alimentares. Além disso, o autor irá demonstrar como a Antropologia compreende/digere a alteridade cultural..

Lança mão de uma metodologia de estudo histórico-religiosa já que trata de um canibalismo ritual e, portanto, sagrado. Dentro desta metodologia utiliza-se principalmente de autores da escola italiana destacados por seus estudos neste ramo. Trabalha com a comparação dentro da elaboração da Escola Histórico-Religiosa que se dá de maneira não horizontal, comparando processos históricos que propõe diferenciar.

Inspirado em Paul Veyne e seu ensaio sobre Michel Foucault, Adone Agnolin destaca que o seu interesse volta-se para uma análise das práticas, passando da filosofia do objeto para uma filosofia da relação.

Contrapõe-se a um estudo fenomenológico em prol de uma reconstrução de gênese. Para o autor, a fenomenologia busca uma descrição da religião, a interpretação e compreensão dos fatos religiosos. Dessa maneira, a des-historificação torna-se útil à análise fenomenologia que se afasta da história, buscando recuperar uma significação universal, uma essência.

A análise da antropofagia nos séculos XVI e XVII está diretamente ligada ao que comumente se chama descoberta do Novo Mundo ou, melhor ainda, à invenção da América. A América é uma realidade construída pelos europeus e, é a partir dessa construção da alteridade que eles repensam a si mesmos. Ou seja, o Novo Mundo não é um fato concreto mas uma realidade inventada. Assim também funciona com a antropofagia: como o Novo Mundo, o canibal só o é mediante uma prática que o valoriza culturalmente.

Agnolin propõe-se desvendar a função dialética do canibalismo dentro das culturas e, em especial da cultura ocidental. Parte do objetivo de transformar esta realidade não existente empiricamente em fatos culturais, mostrando como o Novo Mundo, a alteridade e a antropofagia não são realidades dadas, mas fatos inventados e interpretados, que se transformam em valores culturais ocidentais.

O discurso sobre a antropofagia pertence ao Ocidente desde os cronistas, missionários, colonizadores, até os antropólogos e historiadores. Por outro lado, a prática antropofágica encontra-se no contexto indígena, onde se dá a ausência do discurso que a evidencia.

Para o autor, o discurso europeu (a escrita) é a categorização do silêncio selvagem constituído como ameaça à cultura européia. Através do discurso, os europeus disciplinarizam este silêncio que é a impossibilidade de qualquer linguagem. O silêncio selvagem configura-se como prática antropofágica, manifestando-se como outra forma de significar, diferente do dizer. O discurso europeu coloca-se em oposição ao que esta prática expressa de forma explícita.

O canibalismo deve ser pensado como colocação histórica de uma prática concreta, e não como um universal cultural. É a partir disso que o autor critica a Antropologia e a forma com que esta comumente lida com a prática antropofágica: ingerindo-a e destruindo-a.

A Antropologia, fundada principalmente no estudo do mito, não reconhece qualquer abertura histórica nas sociedades não-ocidentais. Além disso, des-historifica seus objetos de estudo (inventando-os), atuando através da fenomenologia e da mesma maneira com que o Ocidente tratou do Novo Mundo. A Antropologia é a expressão máxima da cultura Ocidental, e por esta razão, muitas vezes abre mão da objetividade histórica. Para Agnolin, as diferentes culturas podem e devem ser tratadas como dado histórico compreensível em sua formação e desenvolvimento e não apenas como valor meta-histórico.

Esta é a proposta do presente livro: analisar a relação entre sociedade e alteridade. O pensar-se em relação ao outro buscando a interdependência entre História e mito, sendo a Antropologia a melhor forma de mostrar a vitalidade dessa relação.

É ainda dentro desta crítica à Antropologia, que Adone Agnolin aponta a inconsistência da análise do ritual das práticas antropofágicas, encontrada na maioria das produções bibliográficas que tratam de canibalismo e antropofagia. Segundo o autor, estas produções falham ao não levar em conta o estudo do sagrado enquanto relação histórica.

Pensando nisso, o autor critica os estudos do antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. Aponta como este autor faz uma comparação superficial da antropofagia tupinambá com o mundo grego no livro Araweté: os deuses canibais.

Para Agnolin, as conclusões de Viveiros de Castro mantêm-se no plano filosófico quando, na verdade, o plano tupi é propriamente histórico; e ainda, não problematiza devidamente a ritualidade das práticas antropofágicas tupi.

Por fim, Adone Agnolin propõe uma Antropologia Histórica, que parta do historicismo, reconhecendo o seu campo de estudo como uma hermenêutica, fazendo de seu objeto a diversidade de discursos que abrigam os fatos (e não o contrário, como comumente é feito). A Antropologia, enquanto ciência, deve valer-se da temporalidade e não pensar a alteridade cultural como categoria não temporalizada.

O debate entre disciplinas e as reivindicações de uma visão exclusivamente histórica podem ser um pouco cansativos. Ademais, o livro de Agnolin faz pensar em novos caminhos de se fazer Antropologia e pensar a antropofagia não como fato universal, mas como prática viva e pulsante, que permeia os diversos discursos da cultura ocidental.

* Bacharel em Ciências Sociais e mestranda em Antropologia pela PUC-SP.

 
 
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Rio Branco-AC, 6 de maio de 2007
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