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Anjos Itinerantes

Médicos e enfermeiros enfrentam chuva, frio e dois dias de canoa para levar atendimento de saúde a comunidades do rio Muru

Cedida
Crianças são prioridade
no atendimento médico


Val Sales

Quando o grupo aponta ao longe em um pequeno barco que corta o rio no meio da floresta, já é aguardado por homens, mulheres e crianças, que da terra firme o recebem com um sorriso acolhedor no rosto. Os visitantes são médicos, enfermeiros e agentes de saúde que se aventuram em viagens cheias de obstáculos para levar atendimento às comunidades mais distantes e isoladas do Acre.

Esses profissionais são considerados pelas comunidades os “anjos guardiões da saúde” e aonde chegam é sinal de que as dores vão embora e que a rotina, naqueles dias de permanência, não será a mesma. Eles formam uma equipe que sobe e desce os rios levando, cada um em suas mochilas, um pouco do sonho do senador Tião Viana, criador do “Programa Saúde Itinerante”.

Na última semana, os “guardiões da saúde” percorreram as curvas do rio Muru, em Tarauacá, até chegar às comunidades dos seringais Paraíso, Estirão e Semeada. Mais uma vez, se houvesse um diário de bordo, ele teria registrado em suas páginas os perigos e o desconforto da tripulação durante a viagem. Porém, todos são unânimes em afirmar que o espírito de servir ultrapassa as barreiras do frio e do medo, dando lugar ao contentamento e à gratidão pelo carinho com que são recebidos.

A viagem ao rio Muru começou no dia 23, com a saída de Rio Branco para Tarauacá. Na manhã seguinte, a surpresa da chuva e do frio era o prenúncio de que o percurso não seria nada fácil. Depois de dois dias de canoa, o grupo desembarcou na primeira parada e pôde se aquecer no calor e na simplicidade dos moradores do lugar. Daí em diante, foram mais de mil atendimentos clínico, pediátrico e ginecológico, além de exames e vacinas.

Ao todo, em oito anos de existência, o Saúde Itinerante já percorreu milhares de quilômetros levando atendimento médico às populações do interior do Acre. Foram mais de cem mil consultas e mais de 200 outros serviços prestados inclusive na área social, envolvendo encaminhamentos de aposentados e doentes.

A equipe “itinerante” é composta de aproximadamente 30 profissionais - enfermeiros, agentes de saúde e especialistas nas áreas de ginecologia, neurologia, cardiologia, oftalmologia, psiquiatria, ultra-sonografia, ortopedia e outras especialidades. Sem esquecer os medicamentos, os itens mais importantes da bagagem.

A coordenadora do Programa, Celene Maia, lembra que essa foi a segunda vez que a equipe percorreu o rio Muru. Segundo ela, o contato com as pessoas simples daquela comunidade leva todos a refletirem sobre uma reformulação dos próprios valores.

“Você vai no meio da mata encontrar essa população que o acolhe tão bem, que o respeita, que diz muito obrigado por você estar ali. Na verdade, todos somos beneficiados - ela pelo atendimento médico, e a gente pela lição de vida que aprendemos de forma tão simples e espontânea”, diz.

Celene: “Vamos aonde for, quantas vezes for preciso”

“O carinho como a equipe é tratada e a simplicidade das pessoas são algo indescritível”, ressalta a coordenadora Celene Maia.

Para ela e os demais membros do “Saúde Itinerante”, a forma como são recebidos nas comunidades faz desaparecer o cansaço pelas horas frio, chuva e fome.

“Em nenhum momento ninguém reclamou. Todos somente agradeciam por estar participando e ninguém se arrependeu. Tanto que reafirmaram o desejo de voltar. É uma experiência que a gente nunca mais vai esquecer. Vamos aonde for, quantas vezes for preciso, porque um dos objetivos principais do programa é que cheguemos aos locais de mais difícil acesso.”

Ela lembrou ainda que muitas pessoas dessas comunidades não sabem que o acesso à saúde é um direito delas, sendo que o que é oferecido ainda é pouco diante de suas necessidades. “Levamos para elas o nosso carinho, a nossa atenção e o que é possível no atendimento à saúde”, completou. Para os moradores da área do rio Muru, o programa levou médicos, medicamento e exames para diagnosticar a malária e o preventivo do câncer do colo do útero.

A difícil hora do banho

Apesar de todos os percalços da viagem, os membros da equipe ainda ficam inibidos mesmo é na hora do banho. Acostumados com os aparatos e o conforto da cidade, eles se deparam com lugares onde não existem banheiros, restando apenas pular nas águas barrentas dos rios e se banhar.

A afirmação é feita pela própria coordenadora do grupo. “Não só para mim, mas para os demais profissionais, uma das maiores dificuldades que a gente encontra é na hora de fazer as necessidades básicas, como o banho, por exemplo. No seringal Paraíso não havia outro lugar para tomar banho além do rio, e nessa hora a gente realmente deixar tudo de lado e pensa: ‘Eu estou aqui e vou enfrentar todos os desafios’”, declara.

Esses também são momentos em que os médicos e enfermeiros mergulham “literalmente” nos hábitos do dia-a-dia das pessoas que vivem no interior da floresta. “Eu li um livro do Leonardo Boff no qual ele diz: ‘Sua cabeça está onde seus pés pisam’. Então, como eu posso sentir o problema das pessoas se eu nunca for aonde elas estão?”, observou.

De acordo com Celene, é preciso sentir o que as pessoas das comunidades sentem para ter condições de pensar e planejar um atendimento de saúde nesses locais. Quando retornavam para Rio Branco os profissionais refletiam sobre as muitas vezes que reclamam de coisas pequenas enquanto outras pessoas têm o mínimo e estão satisfeitas.

“Tais fatos nos levam a fazer uma análise de nossa vida e agradecer a Deus por nos ter dado tanto. Encontrei mulheres de 30 anos mães de oito ou dez filhos e são agradecidas e resignadas. Isso fez com que todos nós repensássemos nossos conceitos e valores e passemos a ter essas pessoas como exemplo de vida.”

Somos levados pelo espírito de ajudar, diz médico

O clínico-geral Theobaldo Rebouças Dantas, um dos membros da equipe da Secretaria de Saúde que se embrenha na floresta levando atendimento às comunidades, ressaltou que, dos programas já implantados no país, o “Saúde Itinerante” é o único de vai aonde o povo está sem medir as dificuldades e a distância.

“O trabalho é gratificante. Embora não se consiga resolver todos os problemas, prestamos informações sobre as intervenções que são fundamentais para salvar vidas”, assegurou.

Ele também lembra as dificuldades enfrentadas para chegar até as comunidades e da determinação de cumprir o dever de levar conforto médico às pessoas, ainda que precise ir longe para encontrá-las. “Quando estávamos saindo de Tarauacá, deparamo-nos com a chuva e o frio. Passamos dois dias viajando no rio em uma canoa levados pelo espírito de ajudar”, disse.

Muitas vezes o atendimento nas comunidades é feito de forma precária e os médicos improvisam o máximo que podem, como acontece no caso dos exames ginecológicos, feitos nas camas das próprias pacientes.

Uma criança quase morta

Durante o atendimento no rio Muru, o medido Theobaldo Rebouças atendeu ao pedido de ajuda de uma mãe que trazia no colo um bebê de sete meses. O corpo da criança quase não se movia. Ela parecia morta. “A criança de sete meses apresentava sinais cadavéricos”, observou o médico. Ele disse que o bebê estava praticamente morto pela carência de líquido, resultado da falta de informação das mães em relação ao uso do soro caseiro.

“É preciso que as informações básicas em relação a cuidados simples sejam difundidas pela mídia na capital e nos municípios, de forma que os conselhos dados cheguem a essas comunidades onde pessoas vivem isoladas, mas que ouvem notícias pelo rádio de pilha”, sugeriu.

A criança é Kauã Feitosa da Silva, que apresentava um quadro de desidratação grave e precisou ser trazido da região do Igarapé Iguaçu (seringal Paraíso) para o hospital de Tarauacá. O menino ardia em febre e apresentava vômito e diarréia. Durante toda a viagem, ele foi monitorado pelos médicos e enfermeiros da equipe, tendo se recuperado dias depois e levado de volta para casa.

Números do atendimento no rio Muru

Consultas médicas
Clínico-Geral – 285
Pediatria – 327
Ginecologia – 92
Equipe
Médicos – 4
Enfermeiros – 2
Agente de saúde – 1
Total de atendimentos – 1.520

 
 
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Rio Branco-AC, 6 de junho de 2007
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