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Interoceânica Esperança latina Maior obra de infra-estrutura em construção na América do Sul cria oportunidade de desenvolvimento com justiça social |
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Dispensando medidas de segurança, o presidente do Peru, Alan García, misturou-se à população e deu à inauguração dos primeiros 60 quilômetros da rodovia Interoceânica um tom de emoção, saudades e agradecimento à acolhida dada pelo povo de Ibéria a seus pais, que no início da década de 50 foram exilados de Lima por motivos políticos. Por isso, foi ali que ele nasceu. O asfaltamento desses 60 quilômetros entre Ibéria e Iñapari, na fronteira com o Brasil, vence o trecho mais crítico da estrada, que era tomada pela lama durante o inverno amazônico. O restante dos 710 quilômetros da Interoceânica que vão da fronteira brasileira a Cusco são trafegáveis o ano inteiro. Na última segunda-feira, Alan García enfrentou o rigor do inverno andino para inaugurar 40 quilômetros de asfalto na localidade de Quinsquichipil, no departamento de Urcos, sob um frio de 20 graus abaixo de zero, motivo que o levou a agradecer o céu azul e os 34 graus que fazia em Ibéria, sua terra natal, na quarta-feira.
União das nações O corredor viário da Interoceânica Sul une o Peru ao Brasil numa extensão de 2.603 quilômetros de asfalto que permitirão o acesso desde a cidade brasileira de Assis Brasil até os portos de San Juan de Marcona na província de Ica, Mattarani na província de Arequipa e Ilo no departamento de Moquegua. Desse trecho, 1.514 quilômetros já estão prontos. Foram licitados 710 quilômetros que estão sendo asfaltados agora, mas restam 804 entre Puente Inambari e os portos de Ilo e Matarani que ainda não foram licitados.
Tudo isso, na verdade, faz parte do megaprojeto de integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA Sur), cujo objetivo é utilizar a estrada para levar carga e passageiro desde o Oceano Pacífico ao Atlântico (Interoceânico) em sistema transmodal (por terra e água), ou seja, passando pelo Acre para descer pelos rios Purus ou Madeira até Manaus e Belém e dali para a Europa. O mesmo no sentido Porto Velho, Cuiabá e São Paulo para chegar os portos de exportação, em Santos, e importação, no Rio de Janeiro. Ainda na Amazônia, a partir de Manaus, as cargas seguirão pela BR-174 para passar por Roraima e entrar na Venezuela chegando aos portos do Caribe. Tudo isso faz desse megaprojeto do corredor Inteorceânico a maior obra de infra-estrutura em construção na América Latina para acessar o mercado da Bacia do Pacífico. Bacia do Pacífico Impacto econômico Por conta das obras da estrada estão sendo gerados 2.600 empregos diretos e pelo menos cinco mil indiretos na região de selva e montanha. Somente nos municípios do Departamento de Madre de Díos, 317 novas empresas foram criadas do ano passado para cá, gerando 1.200 novos empregos. No início do ano passado havia duas empresas de transporte de passageiro atendendo essa região - agora existem onze. Interligando nove departamentos, a Interoceância estará transformando a vida de 5,7 milhões de peruanos, 18% da população do país. A previsão é de que, com o estímulo aos negócios produtivos, o Produto Interno do País (PIB) deverá crescer pelo menos 1,5% já no primeiro momento. As redes de hotéis e restaurantes tiveram de ser ampliadas e somente Puerto Maldonado recebeu em 2006 um total de 135 mil turistas, gerando a maior movimentação financeira da cidade nos últimos 20 anos. O número de passageiros transportados pelas empresas de ônibus aumentou 70%. Bom para todo mundo As exportações brasileiras que hoje partem do porto de Santos, em São Paulo, levam pelo menos 27 dias para chegar à China, mas quando a estrada estiver pronto essas cargas chegarão em 17 dias. Além de integrar os dois países criando um fluxo comercial que impulsionará o desenvolvimento regional, no plano econômico mundial que hoje se volta para a Bacia do Pacífico, garante rapidez e eficiência no transporte com menor custo e maior competitividade para as exportações brasileiras. Parceria para o desenvolvimento Baseado na premissa da colaboração entre os dois países, o presidente Alan García foi enfático: “Esta é mais que a obra de uma estrada, é uma ferramenta de desenvolvimento que marcará a história do Peru em antes e depois da Inteorceânica”. Embora não tenha cedido a palavra nem citado nenhuma das autoridades brasileiras presentes, ele enfatizou: “Convoco todos os peruanos a colocar fé nessa integração, nesse nosso contrato com a potência extraordinária que é o Brasil. Porque assim, o Peru caminha com passos firmes para o desenvolvimento com oportunidades e justiça social para nossos filhos”. Ele anunciou a liberação de mais de recursos para o setor agropecuário, destacando nisso investimentos na assistência técnica para desenvolver a produtividade e promover a industrialização da produção a fim de conseguir maiores espaços no mercado brasileiro. Reforçou seu apoio à construção da usina hidrelétrica de San Gaban, uma das cinco que serão construídas na bacia cortada pela rodovia, com o objetivo de fornecer energia limpa, farta e barata, inclusive com possibilidade de venda para o Brasil, a partir do Acre. Lembrou sua dívida de gratidão com a população de Ibéria, que agasalhou seu pai Carlos de Luci e a esposa quando, por defenderem a filosofia de esquerda, Aliança do Partido Revolucionário Americano (Apra), foram deportados da capital e condenados ao exílio na comunidade que então era totalmente isolada pela floresta, e ali nasceu Alan García que agora cumpre seu segundo mandato como presidente do país. Quanto à importância da Interoceânica ele lembrou que a glória dos impérios Inca e Romano se deu por meio das estradas porque a nação que abre caminhos toma nas mãos seu destino, cresce e domina”. Esclareceu que essa estrada é fundamental para impulsionar ainda mais a descentralização da administração peruana de forma a levar o desenvolvimento a todas as províncias. “Há dois anos, o governo central tinha em mãos mais que o dobro dos estados e municípios, agora são eles que administram o dobro de dinheiro e assim podem desenvolver projetos que atendem suas necessidades mais urgentes de desenvolvimento”. Petróleo na fronteira Enquanto falava Alan Garca, a uns 500 metros dali, helicópteros passam levando cargas dependuradas em cabos. Eram alimentos e outros produtos para abastecer o acampamento de técnicos e engenheiros da PQP, a empresa petrolífera do Peru que está realizando sondagens de linha sísmica para descobrir a que profundidade e qual o tamanho da bacia petrolífera ali existente. Sem poder dar declarações oficiais, um alto funcionário do governo peruano, que assistia à inauguração da estrada, confidenciou que ainda neste ano a PQP vai instalar ali um acampamento de mais de mil operários para dar início às perfurações. Mais um passo à frente Já o governador Binho Marques lembrou que a integração regional interna e externa é um dos pontos fundamentais do programa de desenvolvimento da Frente Popular do Acre. “A conclusão da estrada até Assis Brasil e a construção da ponte ligando os dois países são uma demonstração do prestígio político do Acre no cenário nacional, já que muitos Estados tentaram e não conseguiram isso até hoje. Mais que isso, estamos trabalhando para que a conclusão da Estrada do Pacífico e da BR-364, que integrará definitivamente todo o Estado, aconteça até 2010, fazendo do Acre o melhor lugar para se viver na Amazônia. Binho apontou os mais de R$ 90 milhões investidos pelo governo do Estado no trecho de Rio Branco para Assis Brasil com o objetivo de estimular o desenvolvimento produtivo e econômico das comunidades localizadas no eixo da estrada. Ele citou como exemplo a fábrica de preservativos masculinos, a de produção de tacos e decks, mais a fábrica de castanha as três em Xapuri. Também a Ponte da Amizade, a fábrica de castanha e o abatedouro de aves em Brasiléia. Ainda o asfaltamento da BR-317 até Assis Brasil e a autorização internacional para construir a ponte sobre o rio Acre ligando o Brasil e o Peru. As obras de infra-estrutura realizadas nesses oito anos do governo da Frente Popular prepararam o Estado para aproveitar as oportunidades que estarão surgindo com essa rodovia da integração. “Essa estrada não pode ser apenas um corredor de mercadorias do Brasil. Nós, acreanos, vamos participar desse desenvolvimento estimulando negócios que gerem emprego e renda. Nosso governo popular fez isso instalando indústrias e estimulando a iniciativa privada com a criação de um novo Distrito Industrial na capital, além de parcerias com o setor provado como no caso da reativação da usina da Álcool Verde, que deverá gerar pelo menos dois mil empregos”, declarou. A comitiva do governador foi compoposta pelo deputato estadual e presidente da Assembléia Legislativa, Edvaldo Magalhães, secretários estadual de Planejamento, Gilberto Siqueira, de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia, César Dotto, e do Turismo, Cassiano Marques. Além de representantes do setor privado como o presidente da Federação da Indústria do Acre, João Salomão, e da Federação da Agricultura do Estado do Acre (Faeac), Assuero Veronez, do Comércio, Leandro Domingos, e da Associação Comercial. Representou a área diplomática o cônsul do Peru, Fortunato Quesada. Oportunidades a aproveitar Os participantes fizeram um agradecimento pelos esforços do ex-governador Jorge Viana e sua equipe para consolidar a conclusão da Estrada do Pacífico pelo lado brasileiro e o apoio dado pelo governo Lula ao oferecer empréstimo de mais de R$ 600 milhões para apoiar a construção da Interoceância pelo Programa Brasileiro de Incentivo às Exportações (Proex), por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES). “As obras da estrada ainda nem foram concluídas e novas oportunidades de negócios surgem a cada dia, por isso a inauguração desses 60 quilômetros, que sempre foi o mais crítico durante o inverno, é tão importante para que possamos iniciar nossas operações já que o restante é trafegável durante o ano inteiro. Estamos trabalhando para transformar o Acre num pólo produtivo e um grande entreposto comercial do Brasil com o exterior. Nossos governos estão criando as condições favoráveis e cabe a nós, empresários, acreditar e investir na idéia. Já tem gente fazendo isso e quem sai frente leva vantagem”, explicou o presidente da Associação Comercial do Acre (Acisa), Adem Araújo. Viajar é preciso - Já o secretário Executivo do Turismo, Cassiano Marques, lembrou que, como desportista e presidente da Federação de Motociclismo do Acre, liderou ainda no ano 2000 a realização do primeiro Rally Bolpebra, cujo traçado se estendia pelo Acre, Peru e Bolívia, realizando através do esporte a integração regional. “A inauguração desses 60 quilômetros quebra a barreira do sonho para tornar realidade nossa integração. Daqui para frente há trafegabilidade o ano inteiro, por isso não precisamos esperar a conclusão da estrada para formarmos nossos pacotes turísticos levando viajantes para conhecer as belezas naturais que vão se transformando até atingir os pontos nevados e vales da cordilheira até chegar a Cuzco, a capital do Império Inca e hoje a segunda cidade mais visitada do mundo.” Esperança do povo - Carregando flâmulas vermelha e branco, a população de Ibéria transformou a inauguração numa grande festa popular onde cada um expressava suas esperanças, expectativas criadas e até preocupação com as mudanças que ela está causando. Regina Perez Bardale, 28, mãe de cinco filhos festejava o evento: “As obras da estrada e agora seu asfaltamento estão sendo muito bom para todos nós porque deram emprego para muitas pessoas. Os produtos brasileiros como óleo de cozinha, frango e macarrão estão chegando com mais facilidade. O bom mesmo é que, antes, nós só tínhamos energia elétrica das 6 às 23 horas e agora temos o dia inteiro”, afirmou. Já Ana Cáceres, 24 anos, mãe de um filho, nascida e criada em Ibéria, declarou-se feliz com a conquista da estrada, mas preocupada com o impacto da instalação de um acampamento com mais de mil trabalhadores junto a uma cidade com 1.800 habitantes. “A estrada está criando condições de desenvolvimento, agora todos os moradores estão comercializando com os operários ou prestando algum tipo de serviço à obra. Mas nós não estávamos preparados para esta situação, tanto que muita gente deixou o campo para vir trabalhar na estrada ou na cidade, não fizeram lavouras, por isso já temos dificuldade com o abastecimento de mandioca, bananas, arroz e outros produtos”. |
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