OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

A Pré-história Acreana XII

No artigo da semana passada vimos o caráter fragmentário e vestigial das informações obtidas pela arqueologia, que tenta reconstituir a história de sociedades antigas com características culturais sempre muito complexas a partir de meros cacos de cerâmica. Ainda assim, as pesquisas realizadas no Acre desde 1977 permitiram definir para o vale do Purus/Acre uma grande tradição ceramista (Quinari) constituída por 5 diferentes fases que englobam os sítios com estruturas geométricas de terra e que foram sintetizadas em artigo publicado em 2006, do qual transcrevemos abaixo uma parte.

Arqueologia da Amazônia Ocidental

Descrição Sumária das Características da Tradição Quinari (alto curso do rio Purus).

“Fase Quinari - Os sítios da fase Quinari se estendem das proximidades da cidade de Ro Branco no rio Acre (Aquiri) até as proximidades do Abunã, introduzindo-se na área da fase Iquiri, com quem compartilha os campos naturais.

Fase Iquiri - O sítio mais setentrional está paralelo a Rio Branco e o mais ao Sul, na altura de Xapuri. De uma maneira geral esta fase que ocupa a mesma área entre o Aquiri e o Abunã, se estende mais pelas proximidades deste último, entre seu curso e a área de domínio da fase Quinari.

Fase Yaco - Os sítios foram registrados em torno da cidade de Sena Madureira, no rio Yaco e seus tributários Caeté e Macauã.

Todos os sítios se encontram na margem direita do alto curso do rio Acre, pouco distante do seu leito, em região de pouca navegabilidade, exceto na época das cheias. Área colinar e florestada, nos limites com a Republica da Bolívia.

Fase Jacuru - Esta fase foi diagnosticada sobre material muito escasso, ainda que oriundo de três sítios da mesma área, dois no Estado do Acre e um no Estado do Amazonas. Destaque-se também o fato de que nas suas proximidades foram localizados sítios com material etnográfico relativamente recente.

Os sítios se estendem do município de Manuel Urbano, no Acre ao de Boca do Acre no Amazonas, em área de colinas suaves, coberta de mata. O primeiro sítio, AC-PU-1, assenta-se em terra firma, em barranca da margem esquerda do Purus, dele distando somente 15 metros. De medianas dimensões, seu material se encontrava disperso em uma área de 10.000m2. O AC-PU-2, tem o mesmo padrão, mais distante do curso do rio e as mesmas dimensões do anterior. O sítio AM-PA-2 também em terra firme e distante 300 metros daquela mesma margem do Purus, é bem menor, reduzindo-se a um espaço de 30 por 10 metros.

Comentários

A Tradição Quinarí, portanto, se caracteriza pela junção de cinco conjuntos de sítios, somente um dos quais não tem associação observada com estruturas de terra (fase Jacuru). Seu foco é constituído pelas fases Quinari, Iquiri e Yaco, onde o acervo cerâmico guarda maior similaridade entre si, predominando o tempero de cariapé, a associação com sítios de estruturas de terra e uma morfologia específica, onde as formas (quase) universais são minoria e onde somente a tigela de boca ampliada, 1A é comum. Estas três fases ocupam o trecho entre o Abunã e o Yaco (sentido genericamente L/O) e das proximidades das fronteiras com o Amazonas à foz do Xapuri no Acre (sentido N/S), ou entre as Latitudes 9o e 10o 45’ Sul e Longitudes 67o e 69o W.Gr.

Como um vasto espaço entre o rio Acre (na sua margem esquerda) e a margem direita do Yaco ainda carecem de pesquisas (ou da sua divulgação, caso existam), sobretudo entre as Longitudes 67o 50’ e 68o 30’ - embora reduzido o espaço no sentido Norte/Sul (aproximadamente entre 9o 05’ e 9o 50’) - a situação atual parece apontar para dois sub-centros distanciados, um em Sena Madureira (área 2) e outro a Leste de Rio Branco (área 1), cada centro com uma fase menos característica associada.

Duas fases apresentam desvios, tanto na técnica de confecção da pasta cerâmica, com um menor emprego do cariapé, quanto na morfologia das peças, ambas situadas na periferia da área “core” da Tradição. A Xapuri, a Sudoeste de Rio Branco (área 1) é a mais desviante, sobretudo no que diz respeito à morfologia, mas - por outro lado - nela ou à ela associadas, as estruturas de terra parecem insistir em sua vinculação. A Jacuru, por outro lado, embora apresente um maior equilíbrio nas preferências morfológicas, não possui vinculações às famosas estruturas (pelo menos em função dos dados conhecidos).

Conclusão

Embora ainda seja cedo para qualquer palavra final, ou mesmo mais sólida a respeito da problemática que envolve as estruturas e sítios associados aqui discutidos, pelo menos dispomos de algumas idéias capazes de suscitar novas discussões.

A Tradição Quinari se baseia, portanto, no estudo de uma série de sítios localizados e pesquisados, sobretudo pela nossa equipe, desde o já distante ano de 1977. Os dados aqui expostos se referem a tais sítios e a uma volumosa quantidade de material cerâmico analisado desde então. A associação de sítios abertos a sítios protegidos com tais obras de terra e que possuem material semelhante, permitiram delinear a Tradição, reforçada pelos peculiares padrões morfológicos adotados pelos povos que confeccionaram sua cerâmica e a preferência pelo uso do cariapé em sua pasta.

Três grupos de sítios que constituem três fases cerâmicas apresentam maior concordância nos padrões identificadores, aos quais juntamos dois outros grupos que possuem alguns fatores desviantes e que, sem dúvida, tanto podem indicar contatos com sociedades de outras Tradições (ainda não conhecidas pela pesquisa), quanto resultarem da deriva interna, novas soluções locais para problemas comuns e cuja existência, apesar de importante para a caracterização de variantes pontuais não assumem peso suficiente ainda, para a configuração de novas Tradições em separado. Contra este fator é de peso o fato de que as Tradições (que representam a maior unidade interpretativa da arqueologia) devem ser compostas por fases que possam identificar não somente as variáveis locais suficientemente evidentes para serem observadas como a extensão temporal, como também a sua difusão espacial em nível amplo. Na verdade, não se justificam Tradições reduzidas no tempo e no espaço e cujos valores mal podem ser comparados às fases, estas sim, necessariamente bem mais limitadas, seja cronológica, seja espacialmente.

É tendo esta advertência em mente que criticamos o uso indiscriminado de se associar sítios isolados às Tradições conhecidas, pois isto, se de um lado pode ajudar a esboçar melhor um quadro inicial, de outro pode mascarar muitas variáveis e redundar em esquemas falsos (mas que podem vir a se perpetuar, seja pela falta de crítica construtiva, seja pelo costume da repetição, ou pela necessidade de serem conhecidas sínteses regionais, sem maiores aprofundamentos).

No caso presente, esperamos que o avanço da pesquisa no forneça os necessários elementos para esclarecer, sobretudo, a questão referente à permanência da vinculação das fases Jacuru e Xapuri à Tradição Quinari, ou se esta compartilha com outras Tradições, padrões de assentamento tão complexos quanto aqueles expressos nas obras de terra do Estado do Acre. Aguardamos também que a conclusão das análises do material cerâmico do sítio Los Angeles defina suas relações, até agora somente insinuadas com a fase Xapuri, de forma que possamos integrá-lo num contexto melhor caracterizado dentro do complexo regional da Amazônia ocidental.”
Ondemar Dias e Eliana Carvalho; In: DIAS, CARVALHO & ZIMMERMANN (Orgs). Estudos Contemporâneos de Arqueologia. Palmas: UNITINS/IAB, 2006, pag. 168-205.

 
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Rio Branco-AC, 04 de julho de 2008
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