ESPECIAL
   PAPO DE ÍNDIO
Txai Terri Valle de Aquino e Marcelo Piedrafita Iglesias

Entrevista com o sertanista Meirelles (parte VII)


Nessa sétima parte de sua entrevista-depoimento, Meirelles fala do seu ofício de sertanista, dizendo que é uma profissão quase em extinção. Trata-se também de uma palavra de difícil tradução.

Recentemente, numa versão em espanhol de uma matéria que tratava dessa profissão, o sertanista foi chamado de “especialista em ruralismo”. Em outros contextos, sertanista é sinônimo de “bandeirantes”, aqueles desbravadores e aventureiros que alargaram as fronteiras do país, e ainda de “batedores” do velho oeste norte-americano. Diferentemente, tratá-se de um saber prático associado a um compromisso com a proteção dos grupos isolados, os chamados “brabos”, que habitam as últimas áreas de refúgio da grande floresta amazônica. Esses grupos, como a própria profissão de sertanista, parecem estar em vias de extinção enquanto “isolados”.

Os mais notórios sertanistas no Brasil foram o Marechal Rondom, criador do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais, em 1910, e mais recentemente os irmãos Vilas-Boas, no Parque Indígena do Xingu.

Muitos moradores dos altos rios de nossa fronteira consideram os “brabos” como “selvagens, perigosos, traiçoeiros, feras, bichos”. Meirelles costuma chamá-los carinhosamente de “parentes”. Com base em sua experiência de vinte anos nas cabeceiras do rio Envira, o sertanista afirma que os “parentes brabos” só atacam em auto defesa, quando são ameaçados e perseguidos. E que esses conflitos não ocorrem por acaso, mas devido a causas concretas. Com essa compreensão, justificou a flechada que levou, em 2004, nas proximidades da base da Frente de Proteção Envira. Moradores brancos no alto rio Tarauacá mataram um “parente brabo” e o “choque de retorno” – como dizia Felizardo Cerqueira, o principal “catequista de índios” e “amansador de brabos” no antigo Território Federal do Acre – foi essa flechada na cara, que por pouco não lhe tirou a vida.

Para o experiente sertanista, bicho perigoso mesmo é como hoje se manifesta o “capitalismo selvagem” nos altos rios de nossas fronteiras. Essa fera, “que come quem fica e pega quem corre”, é quem ameaça de extinção os últimos povos isolados do planeta. É uma besta fera de boca grande e garras compridas. Com a primeira derruba as grandes árvores para matar sua fome insaciável de madeiras nobres da floresta. E com suas garras metálicas, feito um tatu canastra gigante, cava profundo para sugar petróleo e gás para matar sua sede imensurável do sangue negro da terra.

Meirelles se sente sem condições para enfrentar sozinho esse bicho de sete cabeças. Foi, então, pedir o apoio ao grande chefe dos acreanos, um povo da floresta muito parecido com os antigos gauleses – que briga muito entre si, eventualmente se une contra os romanos e ainda tem a sua porção mágica, o daime ou vegetal –, para estabelecer uma aliança com a “enfraquecida Funai” com objetivo de proteger os pequenos e diversos grupos isolados que vivem nas fronteiras de seu reino.

No início de junho passado, o sertanista propôs ao governador Binho Marques a realização de um convênio entre o Governo do Acre e a Funai, com duração de dois anos, fundamentado em três linhas de ações. A primeira é estabelecer um posto de vigilância no rio Santa Rosa, linha de fronteira natural entre o Brasil e o Peru, de forma a proteger os fundos da Terra Indígena Riozinho do Alto Envira, destinada aos isolados e Ashaninka, atualmente em processo de demarcação física.

O estabelecimento desse posto de vigilância poderá evitar e impedir que madeireiros ilegais, caçadores e pescadores profissionais, vindos dos centros urbanos de Santa Rosa e, no lado peruano, de Esperanza e de comunidades indígenas do entorno, invadam os territórios dos isolados e destruam os recursos naturais necessários à sua sobrevivência. Junto com dois postos já instalados nos altos rios Envira e Tarauacá, pretende-se consolidar um sistema de vigilância e proteção que abrange sete terras indígenas situadas entre os municípios de Santa Rosa do Purus e Jordão. ao longo da fronteira internacional e suas imediações.

Priorizar o monitoramento dos territórios ocupados pelos isolados a partir de análises de imagens de satélites e expedições terrestres, realizando poucos sobrevôos para que os brabos não se sintam acuados e amedrontados em suas malocas e roçados..

A segunda linha de ação é realizar reuniões e “oficinas de sensibilização” com lideranças tradicionais, professores, agentes agroflorestais, agente indígena de saúde e comunitários que compartilham suas terras com diversos grupos isolados, bem como com moradores brancos do entorno, buscando estimular uma nova mentalidade de respeito e de não violência em relação a esses povos voluntariamente isolados. E, quando possível, construir consensos, acordos e pactos para preservar áreas de suas terras, situadas mais às cabeceiras dos rios, para uso exclusivo desses povos resistentes.

Por fim, produzir informações qualificadas sobre os processos de desenvolvimento econômico atualmente em curso nas florestas de ambos os lados da fronteira, especialmente aqueles que afetam a sobrevivência dos povos isolados. E realizar estudos sobre os impactos socioambientais decorrentes dessa política de desenvolvimento nos territórios ocupados por esses povos.

Esperamos que o governador Binho Marques apóie efetivamente essas propostas do sertanista acreano. E que elas possam ser efetivamente implementadas para se enfrentar uma conjuntura atual adversa, marcada pela intensificação da exploração predatória de madeiras e pelo início da prospecção de petróleo e gás na selva peruana, em águas binacionais, com sérias repercussões nas florestas e nos grupos isolados acreanos.

Na derradeira parte de seu longo depoimento – não a última –, Meirelles abre seu coração e fala de seus filhos, que está ajudando a preparar para seguirem a sua profissão de sertanista. Fala também do período de tranqüilidade que passou lá na Frente Envira, da flechada que recebeu na cara em 2004 e de um grande grupo de Mashco-Piro brabo que cercou a base da Frente Envira nesse mesmo ano. Fala ainda da nova conjuntura marcada pela exploração madeireira e pela prospecção de petróleo e gás na fronteira peruana e, por fim, do convênio que propôs ao governador Binho Marques em início de junho. Outra vez com a palavra o velho do rio. Fala Meirelles! (Txai Terri Aquino e Marcelo Piedrafita)

Bicho perigoso mesmo é o capitalismo
selvagem na floresta amazônica

Elson: Você tem quantos filhos, Meirelles? E quantos trabalham contigo na Frente de Proteção Etnoambiental Rio Envira?

Meirelles:
Tenho cinco filhos. Três deles estão me ajudando nesse trabalho com grupos isolados nas cabeceiras dos altos rios Envira e Tarauacá, que são a Paula, o Artur e o Pedro. A Paula e o Artur já participaram de um dos poucos cursos de treinamento para sertanista, realizado no âmbito de um convênio entre a Coordenação Geral de Índios Isolados (CGII), da Funai, o Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e a Fundação Moore. A Paula está trabalhando atualmente na chefia do Posto de Vigilância da Foz do Douro, na Terra Indígena Alto Tarauacá, aliás, quase como uma voluntária não remunerada, porque esse convênio, por onde ela recebia seu salário de auxiliar de sertanista, encerrou-se. Recentemente, ela esteve, junto com a Deputada Perpétua Almeida, com o presidente da Funai, o antropólogo Márcio Meira, reivindicando a sua contratação pela CGII, porque não é justo que ela trabalhe com tanta dedicação na coordenação de um posto de vigilância, inclusive arriscando sua vida, e não receba um salário por isso. Não é por ser minha filha, não. Mas a Paula Meirelles é uma jovem mulher de valor e de muita coragem. Já o Artur, que me ajuda lá na base da Frente Envira, trabalhou vários anos na Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, junto aos Korubo, índios isolados conhecidos como “caceteiros”, porque não usam arco e flecha, mas bordunas e são mestres no seu manejo, tanto para caçar quanto pra enfrentar seus inimigos e desafetos. Já o Pedro sempre me ajuda como um dos trabalhadores lá na base. Como a Funai não tem escola para sertanistas, estou passando minha experiência para eles seguirem esta profissão. Diga-se de passagem, uma profissão quase em extinção. Tem gente que me critica, me chamando de nepotista, porque estou colocando meus filhos para trabalharem comigo e tal. Como não conheço filhos dos outros que queiram trabalhar com índios isolados nos altos rios de nossa fronteira com o Peru, estou ajudando a preparar meus filhos para isso.

Txai: Você já passou um período de tranqüilidade lá na base da Frente Envira em relação a possíveis ataques dos índios isolados?
Meirelles:
Quando os Kampa começaram a descer mais o rio Envira e a estabelecer suas novas aldeias mais pra baixo, deixando de subir lá pra cima da base, houve um tempo de calmaria. A gente até viu alguns brabos tirando melancia nas praias que todos os anos plantamos lá perto da base da Frente Envira, mas eles não tiveram nenhuma atitude agressiva quando nos viam. Chegamos até ver rastros de mulheres e crianças no nosso roçado. Os parentes brabos quando andam acompanhados de mulheres e crianças não vão pra guerra, não é mesmo? Uma vez meu neto viu um brabo lá perto de casa e até hoje ele fala nisso: “Ele tava com o pinto amarrado pra cima, vovô!”. Outra vez eles cortaram a corda da nossa canoa que estava na boca do igarapé Xinane e saíram correndo. Aquela época até que foi um tempo de calmaria, mas quando um morador branco no alto rio Tarauacá matou um índio isolado por lá, eu levei uma flechada na cara bem em frente à foz do igarapé Xinane, onde está localizada a base da Frente Envira.

Elson: Quando foi mesmo que você levou uma flechada na cara?
Meirelles:
Faz uns quatro anos, Elson. Foi em 2004. Esse episódio demonstrou mais uma vez que quando os brabos não são agredidos nem mortos, eles não atacam a gente. Quando se sentem ameaçados e perseguidos, eles revidam. Nesses 20 anos que trabalho lá nas cabeceiras do Envira, aprendi que os ataques dos brabos não ocorrem sem uma causa. Aconteceu até um caso interessante por lá. A gente vivia um período de calmaria lá na base da Frente, quando dois dos nossos trabalhadores foram pescar, assim por volta do meio dia, nas proximidades da foz do igarapé Xinane. Eram o Pipoca e o Bastião. Eles me disseram: “Seu Meirelles, nós vamos até a boca do igarapé Xinane pegar bode tronqueira naquela pausada”. Acabaram de almoçar e saíram varejando numa canoinha, um na proa e outro na popa. Antes de chegar à boca do Xinane, a canoa encalhou num banco de areia. Um parente brabo, por brincadeira, deu uma flechada bem no meio da canoa, onde não tinha ninguém. Não flechou pra pegar, não. Numa distância pequena de uns três metros, certamente não erraria aquela flechada. Teria flechado um deles, se quisesse. Pois bem, o brabo atirou a flecha bem no meio da canoa, entre um e outro. Eles vieram de lá pra cá aos gritos, largaram a canoa e o brabo ficou só olhando pra eles, se divertindo. Se um dos parentes tivesse sido anteriormente atacado, certamente revidaria pra valer. Foi o que aconteceu comigo. Apesar de ter perdido muito sangue, por conta da hemorragia, fui prontamente atendido por um helicóptero enviado pelo então governador Jorge Viana. Tive sorte porque a flecha com ponta de taboca não ofendeu nenhuma artéria e nenhum osso. Entrou na cara e saiu no pescoço.

Txai: Em 2004, um bando grande de Mashco-Piro, grupo isolado que transita pelos rios e florestas de ambos os lados da fronteira do Acre com o Peru, cercaram a base da Frente Envira. Conte aí como foi esse episódio.
Meirelles:
Isso aí é até uma história interessante de contar. Eu estava em Brasília, quando aconteceu isso. O Zé Áureo, naquela época, trabalhava comigo lá na base. Quando um bando grande de Mashco vinha descendo o rio Envira. Eu calculo que aconteceu isso. Esse povo é o seguinte, eles vinham descendo o rio, certamente fugindo de exploração ilegal de madeira do outro lado da fronteira peruana. Pois bem, eles vinham descendo rio abaixo e não viram nada. Fizeram a volta do rio e deram com a base da nossa Frente. Isso foi por volta de meio dia. O pessoal da base estava terminando de almoçar. Aí um trabalhador saiu para dar uma olhada numa canoa. Quando chegou na beira do rio, viu um bando grande de Mashco. Só homens eram bem uns oitenta no meio do rio. Alguns deles já tinham atravessado e estavam num bananal perto das casas da base. Só deu tempo para avisar o pessoal e todo mundo saiu correndo no rumo das canoas. Pularam dentro das canoas e até logo. Os cachorros acompanharam a turma. Não deram um latido de tanto medo que ficaram. Botaram os rabos entre as pernas e acompanharam os trabalhadores da Frente. Tá vendo como até os bichos sabem do perigo que estavam correndo. O Zé Áureo depois me disse: “Meirelles, foi incrível! Eram tantos brabos que nem os cachorros latiram. Saíram tudo correndo junto com a gente. E o medo era tão grande, que eles corriam com os rabos entre as pernas” (risos). Pois bem, no tapirizal desses brabos, que depois a gente foi ver, juntamos 11 cabeças de anta, 30 cabeças de queixadas e um tanto de cabeças de veados e de macacos. Só de jabuti, tinha 62 cascos. Já dá pra calcular a quantidade grande de brabos que tinha, não é mesmo?

Elson: Nossa! Quantos eles eram mesmo?
Meirelles:
Eu calculo que esse bando era formado por cerca de 300 Mashco-Piro. Tinha bem uns 60 tapiris deles numa praia do Envira, assim perto da nossa base. Você bota cinco pessoas por cada tapiri, já dá 300. As palhas de jarina dos tapiris eles quebraram com as mãos. Não usaram facas nem terçados, objeto nenhum de corte. Enfiaram as palhas na areia da praia e fizeram os tapiris deles, parecidos com aquelas arapucas de esperar nambu. E dormiram na areia macia da praia. Tinha tapiri que a palha encostava uma na outra, e dormem ao lado de um foguinho para se aquecerem nas madrugadas frias de verão. Rapaz, aonde eles iam subindo o rio, assim no meio da praia, era uma trilha dessa largura. Era muita gente, Elson. Eles andavam lá na base, mas não levaram nada. Só mataram as galinhas pra tirar as penas. Em 2007, por causa da intensificação das atividades madeireiras nas cabeceiras do Envira e nos afluentes da margem direita do alto Juruá peruano, os Mashco-Piro que agora começaram a andar pelas cabeceiras do Envira, passaram o verão todinho por lá. E olha que já encontrei outro bando grande de Mashco-Piro nas cabeceiras do rio Iaco. Pois bem, Elson, no início do inverno deste ano, quando nós fomos de barco até o paralelo 10, na fronteira seca com o Peru, os Mashko continuavam nas cabeceiras do Envira, jogaram até pau na nossa canoa. Mais em cima, quando entramos na mata, ela estava todinha revirada pelos Mashco. Achamos o tapirizal deles. Isso quer dizer que os madeireiros peruanos estão desalojando os Mashko do território tradicional deles. Então, muito provavelmente a área que antigamente era só de perambulação durante o verão, pode se transformar numa área de moradia permanente. Justamente por conta dessa pressão dos madeireiros peruanos ilegais. Então, que ninguém se assuste, mas vai começar a aparecer índios isolados do lado acreano da fronteira que ninguém nunca previa que poderia acontecer. Os brabos já apareceram no seringal Liberdade, meu irmão! Alguém está espirrando, Élson. Por conta dessa pressão de madeireiros peruanos ilegais, grupos mais fortes de brabos tão desalojando grupos mais fracos. Hoje, além do grupo Mashco-Piro migrante, já localizamos outros três diferentes grupos isolados nas cabeceiras do rio Humaitá, afluente do rio Muru, de ocupação antiga naquela região, nas cabeceiras do Riozinho e do Xinane, tributários do alto rio Envira. Estes que vivem no Xinane se estabeleceram há pouco tempo, porque suas malocas e roçados são novos. Sem dúvida, estavam fugindo da exploração madeireira nas cabeceiras do Envira e nos afluentes da margem direita do alto Juruá, no lado peruano da fronteira. Lá no Peru, as nascentes do Envira e do Juruá são muito próximas.

Txai: Diante da nova conjuntura marcada pela intensificação da exploração madeireira no lado peruano da fronteira, você tem uma estratégia de proteção para o pessoal da base da Frente Envira?
Meirelles:
Temos uns cachorros lá que são nossos vigias noturnos. Como já temos uma área desmatada próxima às casas, um terreiro limpo e grande, um pomar, um pedacinho desmatado que a gente zela bem, dá pra se ter um relativo controle visual. Mas segurança mesmo é um negócio meio maluco. Se os brabos tiverem a fim de te flechar, eles te flecham. Você não vai ficar o dia todinho dentro de casa, não é? Uma hora você vai sair de casa pra pegar um piau no rio, ou mariscar num igarapé. E passa na beira de um barranco. Aí não tem como evitar uma flechada, ou mesmo um tiro, porque alguns deles já usam espingardas. Depois que os brabos queimaram a base da Frente Envira, em 1998, durante os trabalhos de demarcação da Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira, deixamos de cobrir nossas casas com palhas. Passamos a usar folhas de alumínio que evitam que flechas incendiárias ateiem fogo nelas, como já fizeram em 1998. Se tivéssemos mais recursos financeiros, certamente teríamos mais gente trabalhando conosco e isso nos daria mais tranqüilidade e segurança. Mas a Funai, você sabe bem disso, é muita precária de recursos orçamentários. Temos uma dificuldade burocrática danada para contratar trabalhadores. Entra governo e sai governo, mas a Funai continua na mesma situação de precariedade de sempre. Tenho grande dificuldade para pagar o pouco pessoal que trabalha comigo.

Elson: Hoje em dia, quantas pessoas trabalham na base da Frente Envira, onde você mora, e no Posto de Vigilância do Douro, onde vive sua corajosa filha Paula Meirelles?
Meirelles:
Atualmente trabalhamos com seis trabalhadores na base e seis no posto de vigilância do Douro. Cinco homens e uma mulher em cada um deles. E ainda temos eu e meus três filhos. A Paula, atualmente, está na coordenação do Posto de Vigilância do Douro, na TI Alto Tarauacá, a única terra indígena destinada aos índios isolados no Acre. Para garantir a nossa segurança, a gente evita andar só. Saímos sempre acompanhados de um ou mais companheiros.

Txai: Recentemente você fez 60 anos, ainda vai ter muito fôlego para continuar esse trabalho como sertanista nas cabeceiras do Envira?
Meirelles
: Se continuar essa exploração predatória de madeira do outro lado da fronteira, agravada pelo início da prospecção de petróleo e gás na selva peruana, praticamente forçando a migração de grupos isolados do lado de lá da fronteira para as florestas acreanas, temo inclusive pela minha vida e dos trabalhadores da base da Frente Envira e do Posto de Vigilância do Douro. Isso tudo não está me cheirando muito bem, não. Se tudo correr bem, ainda tenho uns bons anos de trabalho pela frente. Mas eu sei que o trabalho de sertanista impõe um bom preparo físico. Vai chegar um tempo, depois dos 65 anos em diante, que não vou agüentar mais andar no mato. Fazer essas viagens fluviais em canoinhas para as cabeceiras do Envira. Varar a pé do Xinane pro Douro. Subir esses cambirotos de terras com mochila nas costas. Chega uma idade que não dá mais pra fazer isso. Agüento ainda um pouco mais. Mas quando não der pra viver no mato, vou pendurar as chuteiras. Não dá pra ser aquele jogador de futebol velho, capengando no meio do campo.

Elson: Você já pensou em pedir ajuda ao governo do estado para proteger melhor os índios isolados e seus territórios no Acre?
Meirelles:
Sem dúvida, Elson! Junto com o Francisco Piyãko, assessor indígena do governo do estado, e o Txai Terri, já fomos pedir apoio ao governador Binho Marques para ver se a gente estrutura melhor esse trabalho com os povos isolados aqui no Acre. Do jeito que as coisas já estão acontecendo do outro lado da fronteira peruana, vai ficar cada dia mais difícil esse nosso trabalho. Por conta disso, propomos ao governador Binho Marques um convênio entre o Governo do Estado do Acre e a Coordenação Geral de Índios Isolados, da Funai, para que possamos garantir a proteção, não digo nossa, mas dos brabos acreanos e de seus territórios. Inclusive, pedi ao governador Binho para o Txai Terri, antropólogo do órgão indigenista federal cedido ao governo do estado, vir nos ajudar a implementar as ações desse convênio. Pessoalmente, também convidei o antropólogo Marcelo Piedrafita, que recentemente concluiu sua tese de doutorado sobre os Kaxinawá de Felizardo Cerqueira, um grande protetor de índios isolados aqui no Acre, na primeira metade do século passado, para que ele também possa ajudar a programar as ações que serão realizadas no âmbito desse convênio. Precisamos não apenas de recursos financeiros, mas, sobretudo, de recursos humanos para que tais ações sejam efetivas e tenham êxitos. Estou muito esperançoso de que esse convênio com o Governo do Acre venha nos ajudar concretamente. E o governador Binho Marques demonstrou muito interesse, inclusive, já conversou com o embaixador peruano, que recentemente visitou o estado, sobre essa questão dos grupos isolados que estão sendo forçados a migrar do Peru para o Acre em decorrência da intensificação da exploração madeireira do lado de lá da fronteira.

Elson: Acho que você fala e escreve muito bem. Tem um bom estilo de narração, que prende os ouvintes de suas conversas e os leitores de seus textos. Para encerrar, pelo menos da minha parte, quero lhe agradecer e dizer que todas as suas conversas foram instrutivas. Podem ser as sementes de um belo livro de memória.
Meirelles
: Valeu pelo incentivo, Elson. Vou me lembrar de suas palavras quando o tempo da memória chegar, que já não está assim tão distante. Acho que falei mais do que a preta do leite. Mas quando encontro interlocutores assim tão interessados e atentos, gosto de conversar à vontade e contar meus casos. Quando se chega a certa altura da vida, a gente abre o coração e fala com verdade, sem medo de ser feliz. Trabalho a vinte anos tentando proteger os índios isolados e suas terras nos altos rios Envira e Tarauacá. E sempre achei que o meu trabalho com os isolados não pode ser um trabalho isolado. De minha parte, tenho ajudado a fazer o dever de casa, que é garantir e consolidar um corredor contínuo de pouco mais de 636 mil hectares de florestas protegidas, que se estende ao longo do paralelo 10º S, na fronteira com o Peru. Atualmente, surgem novas ameaças oriundas do outro lado da fronteira peruana, com a intensificação das atividades madeireiras e o início da prospecção de petróleo e gás sobrepostos aos territórios tradicionais de habitação permanente e de ocupação temporária de povos isolados. Estamos vivendo uma situação parecida com a daquele ditado popular: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. E o bicho é o capitalismo selvagem na Amazônia. É preciso haver acordos binacionais entre os governos do Brasil e do Peru para que se possam preservar as florestas e proteger os povos isolados de ambos os lados da fronteira internacional.



 
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