OPINIÃO
   VARAL DE IDÉIAS

Marcos Afonso

 

A floresta que abraça...

 
A Sociedade Philosophia caminha nos varadouros da floresta e da tradição...
 

Fabrícia completou sua 18ª. volta ao redor do Sol debaixo da grande castanheira e de um céu maravilhosamente estrelado, enquanto a música da sanfona entrava em ondas pela floresta e as lamparinas estendidas no terreiro lançavam luzes alegres na densa folhagem.

Ao redor dela estavam os amigos ashaninka, yawanawá e kaxinawá, além de seringueiros e parentes de Chico Mendes. Antes, ela já tinha visto, no telescópio, a Lua e o planeta Júpiter.   

Fabrícia, que é estudante de Ciências Sociais e atriz, ganhou de presente um livro (“Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez). Seus olhos brilhavam e seu sorriso ia de janeiro a janeiro, embora fosse 27 de junho e também a primeira noite que a Sociedade Philosophia passava no Seringal Cachoeira, Xapuri, em sua “imersão” no nosso tempo e espaço originais.
A Sociedade Philosophia iniciava seu diálogo com a Tradição e a Modernidade, com um respeito emocionado, uma alegria de reencontro, onde cultura, ciência e sabedoria se entrelaçavam numa dança mágica.
Esse foi apenas um dos momentos de intensa emoção que sentimos no Seringal Cachoeira, impossíveis de descrever nesse espaço.



Caminhando na floresta, o enfermeiro João bebeu água na fonte de sua identidadeForam três dias preciosos, com sínteses profundas.
Não haveria lugar melhor para que funcionários públicos, professores, universitários e estudantes vivenciassem parte do nosso universo étnico e florestânico, da nossa história milenar e contemporânea, de mover sentimento e razão num diálogo de intensa magnitude.


O primeiro Diálogo da Florestania: “Ashaninka, Seu Tempo, Seu Espaço”
Os 40 membros da Sociedade Philosophia fizeram trilhas por mais de doze horas nos varadouros da floresta, conhecendo suas riquezas, seus aromas e mistérios. Vivenciaram o espírito dos seus povos, comeram à mesa de seus trabalhadores, andaram sob as estrelas e observaram galáxias e captaram o vento nas noites escuras fazendo coro com a vida que a floresta guarda e cuida.


Jaime Tyryetê (primeiro presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros), Duda e Tião Mendes (primos de Chico Mendes) e Monteiro (presidente da Associação dos Seringueiros do Seringal Cachoeira), durante o “Diálogo Tradição e Modernidade”.
Realizamos três “Diálogos da Florestania”. Neles, sentimos (na acepção mais vigorosa do termo) os valores profundos de nossa ancestralidade, onde o choque do “ter” antropocêntrico desmoronava-se com o “ser” totalizante dos Ashaninka, conhecemos a simplicidade generosa dos seringueiros que fizeram história e que ainda hoje precisam travar o bom combate, pudemos apalpar a vida transpirando em cada átomo, muitas vezes entorpecido pela nossa veloz e pragmática modernidade.

Essa foi a maior experiência filosófica que já vivi: junção de práxis com sentimento, de interação com a enormidade do universo, de encantamento com a delicadeza do detalhe, de compreender o silêncio e o momento certo das palavras, de saber escutar (em vez de ouvir), de lutar (em vez de brigar), de reencontrar nossa identidade e valorizar a necessidade do correto posicionamento histórico, de assegurar o princípio ético e sustentabilista de preservar e promover a vida, já que viemos do mesmo instante e que somos feitos da mesma substância dos sonhos e das estrelas.

Sabemos que, quando um elétron vibra, o Universo todo se agita.
Posso dizer que naqueles três dias, contribuímos para que o Universo dançasse a linda valsa de nossas vidas. 

 

Dedico este Varal de Idéias ao nosso querido amigo Zé Alexandre, que partiu nesta quinta-feira (3 de julho). Ele era o nosso guerrilheiro das sensíveis liberdades... Continuará sendo em nossos corações...

 

AGRADECIMENTOS: A Imersão ao Seringal Cachoeira (de 27 a 29 de junho) não seria possível sem o apoio direto das seguintes pessoas e instituições: Binho Marques, governador do Acre; Edegard de Deus, Elzira, Iara, Elson Martins, Fátima Silva e Albuquerque (Biblioteca da Floresta Marina Silva); Cassiano Marques (Sec. Turismo); Thor Maia e João (Sec. Saúde); Irailton Oliveira (Inst. Dom Moacyr); Jorge Henrique (TV Aldeia); Itaan Arruda e Jussara (Assessoria de Comunicação); Alberto (motorista do ônibus); Célis Fabrícia (jornalista), Beto Oliveira (cinegrafista) e Ângela Peres (fotógrafa); Francisco Carlos (Clube de Astronomia Gama Hidra do Acre); Francisco Piãko (Sec. Assuntos Indígenas) e sua família (Eliane e Tanaka); Dona Cecília, Jaime Tyryetê Kaxinawá, Duda e Tião Mendes, Monteiro (Associação dos Seringueiros do Seringal Cachoeira); “Música da Floresta” (grupo de forró); Leno, Mônica, funcionários e cozinheiras da Pousada do Cachoeira; ao Wesley, Leandro, Fabrícia, Maíra, Bárbara e Maria do Socorro (Moderadores de Apoio), à querida Patrycia e ao dedicado Mateus, e à toda Sociedade Philosophia.

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Rio Branco-AC, 04 de julho de 2008
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