OPINIÃO
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Florentina Esteves *

 

Do ocultismo

Desde a mais remota antigüidade, busca o ser humano conhecer o futuro. Tivemos o Oráculo de Delfos, na antigüidade clássica, as pitonisas, as bruxas que a Inquisição queimou, a crença na influência dos astros e das estrelas, e tantas inúmeras superstições não sonha nossa vã filosofia. O certo é que essa procura perdura até hoje. Abrimos o jornal do dia e lá está o horóscopo, a nos vaticinar alegrias ou tristezas, vida longa ou luto, talvez ganhos na loteria. Na rua somos abordados por mocinhas a nos oferecerem “santinhos” que nos falam dos prodígios de certa vidente esotérica, capacitada a desvendar-nos a vida “como se fosse um livro aberto” (sic) através das cartas, tarô, búzios africanos, leitura da mão etc.

Há também as pessoas que receberiam espírito dos mortos e poderiam ajudar-nos a resolver negócios, casos amorosos, diagnosticar doenças e seus remédios. Mas o que mais me intriga é pôr-se o dedo no copo e ele girar, tocando as letras que lhe pusemos ao redor, formando palavras. Há ainda aquele dos festejos juninos: acredita-se que se a moçoila enfiar uma faca na bananeira, invocando Santo Antônio, ao retirá-la, lá estará escrito o nome de seu futuro noivo. E há quem acredite piamente em signos de nascimento. Nasceu em junho/julho, signo de câncer, como eu? Os astros terão imprimido em sua personalidade traços inconfundíveis de sensibilidade, busca de solidão, reverência ao passado, apego ao lar, ao dinheiro e influência da lua, conforme sua fase. Incrível. Devo confessar que tenho esses traços todos em minha personalidade. E agora? Observando casualmente pessoas de outros signos, vamos encontrar também traços marcantes, a nos intrigarem quanto a características de cada signo. No mínimo, curioso, não acha, leitor?

E superstição? Sei de pessoas que jamais começaram um negócio no dia 13 ou sempre põem primeiro o pé direito, ao entrarem num recinto, não passam sal à mesa, exorcizam o demônio com rezas próprias, cismam se encontram um gato preto, se benzem ao entrar em cemitério, tantas são as superstições que ficaríamos aqui a enumerá-las ad infinitum.

E me encanta com a variedade de suas manifestações, reconhecendo-lhes traços de infinita imaginação.

Mas venho observando que o linguajar dos prognósticos vem-se modificando, contagiando, certamente, pelos livros de auto-ajuda. Agora é uma linguagem com pretensões psicológicas, senão vejamos: Signo de Libra – “Não ligue para as coisas que as pessoas falam sem pensar. Você bem sabe o quanto isso é comum acontecer. É mais fácil você tirar alguém do sério do que os outros conseguirem desmanchar seu prazer”. Viram? Quanto a mim, acho que essa nova maneira de prever o futuro perdeu muito em pitoresco, criatividade, até em poesia. E trago-lhes um exemplo. Minha mãe ouviu de um astrólogo que por aqui aportou faz muitos anos, e se hospedou no Hotel Madrid, chamado Bassu, uma leitura de cartas ou o que o valha. Com sua memória prodigiosa, guardou ela o linguajar e a respectiva relação de determinadas cartas com seu significado, e passou a brincar de botar cartas. Pois não é que encontrou quem lhe desse crédito? Mas não é isso que importa. O que quero ressalvar é a poesia da linguagem. E aí vai para o deleite de nossos sensíveis leitores: aporte de dinheiro, dizia ela, era “dinheiro grande na porta da rua, com boas palavras”. E essas boas palavras estavam representadas pelo 3 de ouros, que também significava alegria. Tristezas, dissabores, insucessos, lá vem o 7 de paus. Desentendimentos, brigas, contendas, continha-os o 3 de paus. E vejam que poético: dificuldades em negócios ou amores contrariados eram “caminhos vagarosos”. “Ventos benfazejos” era sucesso. “Noites soturnas” seria desamor. E outras hipálages como “culposas lágrimas”, “demanda sofrida”, “orgulhoso amor”, “intrigas caladas”. Não é poético?

E, aproveitando esse linguajar, para terminar esta crônica, desejo a meus leitores ditosos dias, aureolados com as bênçãos divinas de seu santo padroeiro.

* Professora e escritora

 

 
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Rio Branco-AC, 6 de agosto de 2004
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