OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

Florentina Esteves

 

O Rio Acre

Atravessando a ponte, observei uma ilha de areia bem no meio do rio, mostrando o quanto ele está seco. Aliás, os serviços de água vêm alertando a população para o problema, recomendando economia de água. Quem dera! Canso de ver água escorrendo livre no meio da rua, sem que algo seja feito. A rua Marechal Deodoro é um exemplo. E a quanto iria este desperdício que nos levaria à secura? Pois o SAERB já anuncia que o nível do rio Acre está a menos de 1,99m., o menor dos últimos dez anos, situação que tende a piorar, caso não chova nas cabeceiras, o que é improvável em pleno agosto.

Tenho um certo encantamento por nosso rio. O simples ato de dar uma pequena parada, na ponte, e me pôr a contemplá-lo, faz um bem danado ao meu coração. Que se derrama em ternura se vejo um boto fazendo malabarismos, ou um pequeno rebojo indicando alguma tímida piracema. Até já fiz uma “barcarola” dedicada ao rio Acre. E olhe que não sou poetisa, não é meu forte. Mas bem que saiu direitinho. Lá em digo, no final: “Rio que hoje assim faz corredeira / Em direção veloz à ribanceira / Navego em teus balseiros, passageira”. É que me ficaram de tal forma impregnadas as impressões de, quando criança, andar viajando pelo rio, que até hoje associo seu curso à minha própria vida. Era encantador viajar rio abaixo, quando problemas de saúde levavam minha mãe até Manaus ou Belém, e, com ela, eu. Se a viagem se dava na época da seca, baixava-se de barco de pouco calado: motor-de-rabo, ou baleeira, ou lancha. E mesmo assim acontecia de a tripulação ter de cair n’água, para desencalhar a embarcação, quando topava com algum banco de areia. E com isso a viagem se estendia por mais tempo, por mais dias. Levava-se cerca de um mês para chegar a Manaus ou Belém. Se a época era de cheia - fartura d’água - era o conforto dos gaiolas, ou chatões, ou chatinhas. Então não se dormia em rede no próprio barco, ou em algum pouso na beira do rio. Havia camarote, com beliche. E era uma noite bem dormida, antecedida de uma espécie de sarau, no salão de bordo. Lá se reuniam os passageiros, e um piano animava o encontro. Quem tocava? Algum tripulante? Ou passageiro? Sei só que tocava bem, levando os passageiros a dançar langorosas valsas, ou marchinhas, músicas da época. Criança, eu não participava das danças, mas lá ficava a olhar a animação dos pares, a rodopiar no salão.

E que me divertia no navio? Pescar. Isto é, fingir que pescava. Com uma lata de leite condensado amarrada a um barbante, eu ficava a colher água do rio, na esperança de fisgar algum peixe. Que nada! Quando cansava da “pescaria”, ficava a olhar o banzeiro que a chatinha fazia e que resultava num espetáculo que os ambientalistas, hoje, me invejarão de ter presenciado: uma debandada de tracajás, deslocados pelo banzeiro, de sua preguiçosa sesta na praia da beira do rio. Eram tantos que a visão se coalhava, tentando acompanhar sua corrida para se esconder na água.

E assim se passava o tempo, naquelas viagens de encantamentos.

Outro momento de prazer que se gozava nas viagens era chegar a algum porto, no caminho até Manaus ou Belém. Pena que a memória não me ajude a lembrá-los todos. Só me ocorreram Boca-do-Acre, Canutama, Óbidos, Santarém. Em Santarém (consigo lembrar) havia o artesanato de palha, que me encantava: eram bolsas, sacolas, tapetes, etc. E eu sempre ganhava uma bolsa, que durava até a próxima viagem.

Hoje, hoje já não se viaja mais por água, nesta nossa Amazônia que detém a maior bacia hidrográfica do planeta. Hoje já se fala de falência de rios, devido ao desmatamento e à poluição. Que fazer? Lamentar, somente? Claro que não. Aí está nossa ministra Marina, nossa seringueira PhD, vigilante. E a nós mesmos cabe a responsabilidade de fazer nossa parte: não poluir, alertar os menos informados. E também nosso governo e a prefeitura estão trabalhando para que não venhamos a sofrer a falência de nossas águas: há um trabalho sendo feito de limpar e desobstruir igarapés - que alimentam o rio. Aquele rio que, no tempo em que não tínhamos avião nem estradas, era a vida de nossa cidade. E que hoje - acredito - seja o encanto de tantos que, como eu, o amam.

* Professora e Escritora

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 6 de agosto de 2005
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
P E S Q U I S A

s
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL