| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA | ||
José Cláudio Mota Porfiro * |
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Premonitório Ainda há os pregadores que dizem ser a história um círculo vicioso, onde os acontecimentos tendem a se repetir com o passar do tempo. Alguns dirão que esta é teoria em desuso. No entanto, razões muitas encontro para aqui abordá-la. Vivi a Xapuri da paz e do caos. Vi chegar de Belém do Pará o Envira - o navio - no início de fevereiro, para dar um colorido especial ao Carnaval da cidade. Vi depois ali aportarem arruaceiros, como Vilela, capataz do Iracema, como Mata-cachorro, pistoleiro de luguel, dentre outros. E começaram a derrubar a floresta para criar gado... E o povo pobre ficou cada vez mais pobre, porque foi expulso da terra e foi ou veio morar na periferia das cidades maiores, na maior pindaíba, no linguajar do meu povo. Padre José rezava missa na Igreja de São Sebastião. Às quartas, especialmente no período da estiagem, ia com o meu pai, Gibiri, para as memoráveis caçadas nos seringais adjacentes, de onde traziam pacas, caititus, antas, veados e até cobras, dentre outros menos cotados. Incomparável contador de anedotas, às vezes picantes, o frei era ainda torneiro mecânico e mecânico de automóvel, mestre de obras e até médico. Digo isto porque o vi apalpar velho, menino e mulher e, depois, receitar uma pílula ou um chá de qualquer rama do mato. Além de batizar, o velho padre dava certidão de nascimento. Além de casar no católico, o candidato saía da casa de Deus já amarrado pela lei dos homens, uma vez que o bom pastor lhe fazia levar, a tiracolo, certidão de casamento carimbado e assinado. O homem era “juiz de paz” reconhecido pelo Tribunal de Justiça... É aí que eu entro nessa história. Por alguns anos, datilografei registros civis e solicitações de casamento. Então! Em uma dessas ocasiões, no tabelionato onde trabalhávamos - eu e o velho Padre - começaram a aparecer famílias de sertanejos oriundos de Pernambuco e Bahia. Destes, eu não desconfiei porque conheço gente pobre por experiência lá de casa. Foi por esta época que também começaram a chegar os primeiros paranaenses. De certa feita, entrou uma família vinda de Umuarama sem documento algum. E foram sendo registrados. Sebastião, Darly, Dari, Darci, Olocy, e por aí vai... Fiquei com a pulga atrás da orelha porque desde menino, nesses sertões perdidos do Acre, já possuía certidão de nascimento. Papai era zeloso. E por que esse povo, vindo do adiantado Paraná, não tinha nenhuma documentação? Comecei a desconfiar da idoneidade deles. Disse-o ao Padre, mas ele deu calado por resposta... Findamos por dar asas às cobras. Darly, o líder familiar, se apossou ou comprou a preço de banana milhares de hectares de terra usando de métodos muito conhecidos como a extorsão, a gatunagem e o assassínio. Foi quando Chico Mendes começou a prestar atenção na sua dança de onça. O homem derrubava a floresta e expulsava de lá o seringueiro a troco de bala 38... Chico foi assassinado em dezembro de 1988. Darly e os filhos, responsabilizados pelo assassinato, ficaram uns dez anos presos e, depois, foram beneficiados pela frouxa lei dos brasileiros ricos. Hoje, na grande região de Lábrea e adjacências, no sul Estado do Amazonas, tudo o que ocorreu em Xapuri está se repetindo. A mesma violência do sul do Pará, especialmente em Rio Maria e Paraopebas, começa a infestar os seringais amazonenses. Premonitório, estou com medo de ler nos jornais, nos próximos dias, os nomes das próximas vítimas, Valdevino Cruz e Antônio Eurico, líderes dos trabalhadores rurais da região. Em 1988, Chico Mendes enviou carta a Mauro Spósito, delegado da PF. Tratava sobre tudo o que acontecia em Xapuri, inclusive, a respeito das ameaças de morte. Hoje, dizem ter o Ministério da Justiça tomado todas as providências para salvaguardar a integridade dos sindicalistas e sindicalizados de Lábrea... Do meu ponto de vista, essa salvaguarda é preguiçosa. Do meio do mato, pipocará um tiro e nenhum policial colocará as vistas no atirador porque não estava por perto... Estes são escritos produzidos há um tempo. Depois desta ocasião, assassinaram a Irmã Dorothy, no Pará. E anteontem, então, Darly se superou e voltou à cena do crime, ou do castigo, na Penitenciária, pagando penitência, sem visitas íntimas, posto que a tal garrafada já não mostra eficácia. * Pesquisador do Depto. de Filosofia e C. Sociais/Ufac |
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