OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 

A cegueira do filósofo

O filósofo freqüentemente se comporta na juventude como um cego. Ele não enxerga as marcações e limites do “firmamento”, ou seja, do conjunto de valores vistos e sabidos pela sua época. Para ele há uma extensão, um acréscimo de significação que ele pode ver tão bem e com tanta nitidez que ele acredita compartilhar com outras pessoas essa visão. Mas isso se deve ao fato de que as ações, opiniões, crenças e todo o arcabouço de pensamento das pessoas pareciam pressupor aquele acréscimo. Por isso, durante boa parte da sua vida, ele acredita estar na companhia de muitos, ele pensa ajuizar alicerçado num senso comum. Como se ele dissesse pra si e pra todos: todas as minhas conclusões foram tiradas na conversa com vocês, a partir das suas opiniões. Apesar de representar, na opinião geral, a ausência de bom senso e mesmo a loucura, ele ainda fala, como todo mundo, em loucura, em desvario, ou seja, ele não se vê como alguém que diz e pensa coisas extraordinárias!

Depois de uma série de experiências desagradáveis, em que fica evidente a invisibilidade do mundo em que ele vive ou acredita viver, um mundo que, a partir daí, ganha um status de apenas “quase”, ele percebe como o “seu mundo” se furta e se esconde do olhar de todos. Mas é justamente pelo fato de que a sua bússula lhe mandava trilhar determinado caminho e que esse caminho era visto como uma transgressão e, como se fossem daltônicas, as pessoas lhes diziam, “mas aí não há caminho possível!”, que ele se dá conta de que a sua bússula é só sua... Mas por que diziam aquelas coisas se não podiam ver o que eu vejo a partir delas, pensa o filósofo. Ou melhor, como dizer aquelas coisas impunimente? Surge então, aos seus olhos, o mundo em que realmente vive e sempre viveu. Um mundo em que a função da linguagem é a comunicação, mas a comunicação corriqueira, funcional, utilitária. As coisas mais extraordinárias que ele ouvia eram apenas imitações com intenção de causar alguma impressão, de alcançar alguma consideração e vantagem aos olhos de outros. A linguagem que lhe parecia a mais sedutora, na medida em que era portadora dos significados mais elevados e, portanto, profícuos, nada mais era do que mascaramento pelas palavras. Dessa forma, ele também as utilizou, as mascaras, sem saber e sem querer, aos olhos de todos...

O caráter aporético de um certo grupo de diálogos platônicos pode atestar esse fato. A negação devia levar as pessoas pelo caminho que, acreditava ele, levaria a uma outra ordem de valores, ou seja, não era necessário fazer todo o trajeto. Quando Sócrates e Teeteto discutem, no diálogo com o nome do último, o que é o conhecimento, existe a referida confiança. Não diz Sócrates que nenhuma das verdades expostas por ele é de sua lavra? Não há em todo o platonismo essa confiança de que o curso de uma investigação dialética precisa apenas de que se confie na possibilidade de separar a verdade da falsidade? Nos diálogos aporéticos a investigação se detém na separação e distinção clara de um caminho sem saída para o conhecimento, mas ela é fruto de uma confiança de que apenas esse afastamento já é suficiente para colocar na trilha correta. Em tudo isso, em especial nessa negatividade, há a confiança de que se pode enxergar com o intelecto aquela extensão e que, portanto, não há extensão e sim apenas uma continuidade. Talvez a fase propriamente idealista represente a tentativa de preencher aquele “trajeto natural”, uma vez que aquela constelação de coisas permanecia pouco ou nada visível.

Mas parece que essa cegueira a respeito de si e do seu entorno é um eloqüente sintoma de juventude. Em Kant, por exemplo, com sua linguagem cifrada, com suas exposições cerimoniosas, onde vários erros de interpretação já são previstos e mesmo incentivados, onde muitos conceitos permanecem “artificialmente”, onde o caráter sintético da sua filosofia, que precisa, então, de deduções para fundar a legitimidade do novo, já se vê o traquejo de um filósofo com experiência suficiente para querer ser antes mal entendido do que compreendido em profundidade.

O caminho do filósofo se apresenta assim como um “fundo se saco”, ou seja, como um trajeto que terá “em breve” de ser trilhado! Nietzsche, de outra forma, experimentou um pouco dos dois modos, pois acreditou na juventude que a cultura alemã ia, par e passo, com os seus anseios de juventude de renovação para uma cultura européia já cansada. Acreditou mesmo ter encontrado em Schopenhauer e em Wagner companheiros para os seus ideais. Acreditou que as obras desses monstros da cultura alemã significavam que essa cultura era portadora de algo novo e jovem, mas nisso havia entusiasmo juvenil... O sentido que ele antevia era um sentido difuso, mas inexorável, que precisava, foi e será muitas vezes inventado e reinventado e que só o seria pelo abandono das coisas mais essenciais da sua estrutura “antropológica” e subjetiva, ou seja, que dependia de uma síntese e não do desdobramento de um “em si” da cultura.

Aquela visão, por fim, nada mais era do que miragem, mas uma miragem verdadeira... que terá de vir e, portanto, que não pode ser vista ainda a não ser pelo olhar dedutivo de um filósofo que vê primeiro com o coração e depois com a mente um espaço de significação portador de outros sentidos, de outros valores que ainda não existem, mas que existirão.

Em toda essa descrição há muito de sedução para “heróis” temerários que não precisariam se arriscar tanto, uma vez que tinham tanto talento, mas que sempre farão e se arriscarão! Mas aviso: Demócrito morreu na miséria sem nenhuma consideração, enterrado pela benevolência de seus irmãos; Pitágoras e os pitagóricos foram literalmente cassados na rua; Zenão morreu sob tortura; Sócrates...

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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Rio Branco-AC, 6 de agosto de 2006
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