| OPINIÃO | ||
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Delfim Netto * |
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| A desmontagem do outro A campanha de 1989, da “caça aos marajás”, foi suja e empolgante. Agora, com a falta de idéias novas, um candidato tentará detonar o outro. A campanha eleitoral de 2006 ameaça ser a mais desalentadora desde a de 1989. Naquela ocasião, a grande novidade foi a descoberta da “caça aos marajás”, uma idéia de grande apelo para uma sociedade pobre e sofrida. Todos tinham um “marajá” que os incomodava. Indagado, um cidadão de parcas posses revelou que conhecia, sim, um marajá! Pediram-lhe que o nominasse. Ele, sem titubear, apontou o “Zé do Empório”. Por que ele é um marajá, perguntou o entrevistador? A resposta foi imediata: Ele não me vende mais na caderneta! A campanha foi suja e empolgante. O caçador de marajás denegriu tudo e todos ao vender a sua “santidade” com um verbo fácil. Se aos pobres ele capturou com a mensagem primitiva, aos ricos ele ofereceu o “lago azul”: Vamos liquidar com todos os controles econômicos, vamos liberar os mercados, vamos acabar com o protecionismo, vamos privatizar tudo, vamos desburocratizar e reduzir à metade o funcionalismo público. E, sublime enganação: Vamos liquidar a inflação com uma bala de prata! O resultado é muito conhecido para ser relembrado. A “abertura” econômica atabalhoada produziu alguns resultados, mas no conjunto tratou-se de uma administração desastrosa. No final, os verdadeiros “marajás” se deram tão bem que continuam em circulação. A primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso foi tranqüila e apoiada no sofisticado Plano Real. A autodenominada “esquerda”, que lhe fazia oposição, demonstrou uma incompetência e uma miopia para o que estava acontecendo no País que até hoje nos surpreende. A sua reeleição, entretanto, foi produto da grande tragédia que deixará na história política do Brasil: a possibilidade de reeleição sem desincompatibilização, obtida pela introdução do mecanismo de “mercado” no Congresso Nacional. Ela deu ao poder incumbente condições excepcionais. Como afirma a segunda lei de Tancredo, na eleição não interessa o que diz a Bíblia, nem o que diz Das Kapital, mas sim o que diz o Diário Oficial! Também aqui o resultado é sobejamente conhecido: provamos que o problema da inflação era solúvel e deixamos quatro problemas quase insolúveis: 1. Uma fantástica dependência externa. 2. Um aumento absurdo da carga tributária (de 26% para 36% do PIB). 3. Um imenso aumento do endividamento do Estado (de 30% para 57% do PIB). 4. Um crescimento econômico medíocre. Foram esses problemas, mais a virada histórica da “Carta aos Brasileiros” que elegeram Luiz Inácio Lula da Silva, que resolveu o primeiro com grande ajuda da conjuntura internacional, que elevou o nível de comércio e aumentou os preços dos nossos produtos. Praticamente o governo não tem mais dívida externa e o País registra superávit em conta corrente, além de um bom nível de reservas. Os outros problemas continuam conosco: um agravado (a carga tributária está crescendo) e outro minorado (a relação Dívida/PIB está em 51%). Eles são algumas das causas que continuam a manter, desde 1999, uma taxa de juro real da ordem de 10% ao ano (campeã olímpica) e explicam a razão da continuação do nosso medíocre crescimento (“lanterninha” olímpico). Chegamos, agora, à oportunidade de reeleição de Lula, utilizando o mesmo dispositivo trágico inventado por FHC. Lula cumpriu (para surpresa de alguns) o programa estabelecido na “Carta aos Brasileiros”. Manteve a política econômica sustentada pelos neoliberais e até a radicalizou para reconquistar o controle perdido sobre a taxa de inflação. Corrigiu as dificuldades iniciais do “Fome Zero”, aperfeiçoou os programas do Bolsa Família, da Agricultura Familiar, e aumentou o salário mínimo, amenizando os efeitos produzidos na população mais pobre pelo baixíssimo crescimento econômico. Pela primeira vez houve uma diminuição mensurável da desigualdade. Nesses quatro anos, entretanto, avançamos muito pouco no aperfeiçoamento da máquina estatal e na qualidade da política econômica. Não se fez nenhuma das reformas necessárias. A da previdência do setor público, aprovada no Congresso, nem sequer foi regulamentada. Infelizmente estamos indo para o processo eleitoral sem que nenhum dos candidatos apresente nem sequer uma idéia nova: os dois que lideram as pesquisas repetem banalidades; os outros, ou obviedades ou recuperam velhas propostas para problemas já resolvidos. Aparentemente, portanto, a campanha nada terá de confortante para o eleitor preocupado com o Brasil. Vai se restringir à miserável tentativa de desmontagem recíproca da “imagem” do outro, na vã esperança de que o eleitor não há de lhes notar a falta de conteúdo. * Deputado federal (PMDB/SP) (www.cartacapital.com.br) |
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