OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

Francisco Gregório Filho *

 

Correspondência X – Hora

—— Original Message ——
From: “analuz”;
To: “gregório” <francisco.gregoriofilho@ac.gov.br>
Sent: Wednesday, November 02, 2005 9:21 PM
Subject: Noticia

     Gregório,
     Tentei em vão falar com você ontem. Todas as vezes que liguei deu engano.
     Queria avisá-lo que o pai do Rogério, aquele grande amigo meu, faleceu. Sei que é mais amigo meu do que seu, mas você o conhece muito também. Trabalhou comigo naquela escola do subúrbio, mas mesmo depois que a escola acabou continuamos a nos encontrar por aí.
     É...Seu Betinho, pai de Rogério, cansou de viver depois de 86 anos. Assim de repente, como quem está saindo de fininho de uma festa, ele se foi. Na verdade a festa dele era Dona Flor, mulher ativa, de muita garra, cantora, “senhora da casa” que, faz muito pouco tempo, tinha ido para outras bandas dessa vida. Dizem que quando ela se foi levou junto o melhor dele, a alegria.
Ontem inclusive era um dia especial para o Rogério que ia lançar um livro e estava tudo pronto, mas seu Betinho, figura sempre silenciosa, dessa vez fez barulho e roubou a cena. Na mesma hora da festa do filho, o enterro aconteceu. Lá se foi Seu Betinho encontrar Dona Flor. Devem estar agora colocando a conversa em dia e matando a saudade. Afinal, quem vai explicar a vida?
     Bom, está aí agora, já atrasada, a notícia que quis lhe dar ontem.
     Abraço,
     Ana.

 
—— Original Message ——
From: “gregório” <francisco.gregoriofilho@ac.gov.br>
To: “analuz”;
Sent: Friday, November 04, 2005 7:54 AM
Subject: Noticia

     Ana querida,
     Você me noticia a travessia do pai de um amigo nosso. O Seu Betinho não suportou a ausência de Dona Flor que recentemente fez sua passagem. Lembro-me do Seu Betinho cantando uma cantiga que ele aprendera com ela e que por sua vez, aprendera com os trabalhadores de Quichadeira, comunidade próxima à Lagoa da Camisa e o caminho de Santa Bárbara. Esta cantiga me veio ao coração logo que li sua carta.. “Amor de longe” é seu título.
     Obrigado Ana e um forte abraço, amiga. Envio a você um amor de longe.

Amor de longe, Benzinho
é favor não me querer, Benzinho.
Dinheiro eu não tenho, Benzinho
mas carinho sei fazer até demais, Benzinho.

Oh!... esquindô lê, lê... chora viola!
Oh!... esquindô lê, lê, lá, lá...chora viola!
Carro canta, a roda chia...chora viola!
Cinco horas vou voltar...chora viola!

Obs.: O Seu Betinho era um leitor-escritor. Escrevia sobre o desejo, portanto sobre a falta: todo real é uma fantasia que ganhou corpo, dizia ele.


hora
[Do gr. hóra, pelo lat. hora.]
Substantivo feminino

1.A 24a parte do dia natural, ou do tempo que a Terra leva para fazer uma rotação completa sobre si mesma [símb.: h].

4.Momento, ocasião:
“Em torno a mim, nesta hora, estriges voam” (Augusto dos Anjos, Eu, p. 63).

5.Tempo ou momento em que de ordinário se faz ou realiza uma determinada coisa, ou em que ela deve fazer-se ou realizar-se:
(Dicionário Aurélio)

* Contador de História

 

 
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Rio Branco-AC, 6 de novembro de 2005
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
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