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Vitor Hugo Soares * |
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Guerra Fria Quando respondia pela sucursal da Veja, na Bahia, na fase histórica da primeira campanha presidencial direta pós-regime militar, lembro de um fantasma risível que rondava como personagem de tragicomédia sobre as cabeças dos profissionais do maior veículo semanal do País. Não era, por estranho que pareça, um espantalho político, mas científico. Isso apesar da ebulição nos programas eleitorais de TV, principalmente no segundo turno do pleito em que se enfrentaram Collor e Lula, vencido pelo alagoano em disputa dramática, povoada de personagens e lances cavernosos como raramente vistos em embates eleitorais. A figura de pavor na Veja, porém, não tinha cara de gente, mas a estranha conformação de uma árvore capaz de produzir filé ao molho de tomate. Gozadores como sempre, os tablóides e revistas britânicos costumam elaborar textos com as fantasias mais improváveis e as distribuem como brincadeiras de 1o de abril. Seguindo a tradição, a revista New Science bolou e distribuiu no dia da mentira um texto jornalístico sobre estapafúrdia descoberta científica, fruto da fusão em laboratório de células vegetais e animais. O feito, alcançado na universidade alemã de Hamburgo, era atribuído aos biólogos Barry MacDonald e William Wimpey. A matéria bateu na redação, em São Paulo, e entusiasmou o editor de Ciência. Resultado: na edição de 27 de abril 1983, Veja chegava ás bancas com a notícia em destaque. Ilustrada com caprichado infográfico - e o depoimento de um biólogo da USP que repercutia a descoberta - o texto louvava o êxito notável da experiência, sugestivamente denominada de boimate, que “permite sonhar com um tomate do qual já se colhe algo parecido com um filé‚ ao molho de tomate. E se abre uma nova fronteira científica”. A matéria foi considerada a maior “barriga” (notícia sem fundamento) da história da informação científica no Brasil. Tanto que quando ingressei na Veja, o boimate seguia como o pesadelo número um para novos e antigos profissionais da casa. Alguns poucos jornalistas, porém, já se permitiam fazer gozação com o acontecido, em horas mais relaxadas do trabalho e, evidentemente, longe do olhar e dos ouvidos dos autores da barrigada histórica. Mais de 22 anos depois do boimate seria hipocrisia não registrar esse fato ao confessar a sensação causada pela matéria de capa sobre “Os dólares de Cuba para a campanha de Lula”: o mesmo calafrio de desconforto de quando o assunto “da árvore que dá filé‚ ao molho de tomate” voltava à baila, trazido por algum erro grave de informação ou de apuração inconsistente da Redação. Conto as horas e os minutos para saber o que a revista trará como desdobramento do caso, pois‚ difícil entender e acreditar no emaranhado surreal e primário do enredo narrado na primeira reportagem. Isso, por mais reconhecidas e evidentes que sejam as estultices e ratadas do PT e do presidente Lula, em quase três anos de governo. Praticamente todos os envolvidos se assemelham a personagens de um daqueles filmes produzidos em Hollywood no tempo da Guerra Fria, em que os comunistas de Moscou, a começar pelo presidente soviético Nikita Kruchev, não passavam de rematados paspalhos. Comiam fogo nas unhas de sagazes e bem vestidos diplomatas, políticos e investigadores americanos com pinta de galã e suas belas parceiras nos embates com aquela gente desengonçada da KGB. A matéria fala até‚ em garrafas de run e uísque recheadas com os U$ 3 milhões – ou pouco mais de um milhão segundo outra versão - mandados de Cuba para turbinar a campanha de Lula em 2002. Alberto Dines fala em desatino ao produzir análise crítica modelar em seu Observatório da Imprensa sobre a matéria. Não vou remoer argumentos do jornalista, mas uma frase do seu artigo “O PT e o ouro de Havana” merece ser repetida, porque vai direto ao ponto. “Nenhum político minimamente responsável arriscaria o futuro do seu partido com uma operação tão perigosa e insensata. Nem mesmo Roberto Jefferson ou Waldemar da Costa Neto”. E desnecessária, acrescento aos dois adjetivos usados por Dines. Quando a vitória de Lula se desenhou, não só o suspeito ex-tesoureiro Delúbio Soares, expulso, mas muita gente mais que permanece no partido, lembra a corrida de endinheirados aqui mesmo de Pindorama. Gente que batia na porta do PT, até de madrugada, para fazer doações à campanha de Lula. No caso boimate, Veja levou mais de dois meses para reconhecer o engano e pedir desculpas aos seus leitores. A descoberta da barrigada veio a lume pelas páginas de “O Estado de S. Paulo”, que esperou 30 dias, antes de jogar o caso na rua. Cartas recheadas de gozações - algumas iradas - entupiram a redação do Estadão nos dias seguintes. A depender do que Veja tenha ainda a mostrar sobre o caso, o estrago talvez não seja tão grande. Raposas oposicionistas, velhas e novas, do PFL e do PSDB, no entanto, preferiram o retraimento diante desta história cabulosa do ouro de Fidel. Desconfiados, talvez, de que a revista teria caído em outro boimate, desta vez político. Suspense de matar, digno da Guerra Fria. * Jornalista, editor de Opinião de “A Tarde”, de Salvador (vitors.h@ig.com.br) |
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