ESPECIAL
   ENTREVISTA

“O presidente Lula não foi reeleito por acaso”

Deputado Nilson Mourão fala da expectativa em relação aos investimentos do governo federal no Acre. “Nossas estradas dessa vez vão sair”, afirma


Tião Maia

Liderança atuante dos movimentos sociais e do PT do Acre desde os anos 80, o deputado federal Nilson Mourão (PT-AC), no terceiro mandato, vive agora a experiência de ser parte ou apoiar governos tanto no plano federal como estadual. O militante não se aliançou com o poder. Pelo contrário, ambos se conquistaram. Na entrevista a seguir, Nilson Mourão fala de tudo um pouco: da expectativa de seu mandato, das políticas sociais do governo federal e de investimentos em busca do crescimento do país, além da política propriamente dita. Ele discute a eleição para a mesa da Câmara dos Deputados segundo a ótica do PT e revela que tanto no partido como no governo federal há uma autêntica torcida para que o ex-governador Jorge Viana seja ministro - mesmo com a ministra Marina Silva também estabelecida na Esplanada dos Ministérios. A seguir, a entrevista.

Da bancada do Acre, o senhor é o deputado federal mais experiente, com três mandatos. É também deputado por um Estado onde o PT tem a sua mais longa experiência de poder e de mandato. Qual é, então, sua expectativa para fazer um bom mandato e em relação aos governos de Lula e de Binho Marques?

Nilson Mourão – Eu tenho uma grande esperança nesse segundo mandato do presidente Lula e do Binho aqui porque esses governantes estão assumindo criando um momento de muita expectativa. É um momento novo na vida do Brasil e do Acre. Em nível federal, o mandato está sendo articulado em duas grandes frentes.

Que frentes são essas?

NM – Uma delas, vinculada às grandes obras estruturantes e ao crescimento da economia na busca de ultrapassagem dos três por cento de crescimento anual para cinco por cento e depois para sete até chegarmos, ao final do mandato do presidente Lula, entre oito e dez por cento de crescimento anual. Esse é patamar dos países que vêm crescendo no mundo, como é o caso da Venezuela e outros países emergentes.

O senhor falou em duas frentes. Qual é a segunda?

NM – As políticas sociais e de inclusão dos brasileiros que até este governo não eram assistidos nem incluídos. Não foi à toa que o Lula tenha sido eleito e agora reeleito. O Brasil começa a se voltar, em 500 anos, para os mais pobres, para as camadas mais pobres da população...

Com esses investimentos em grandes obras, os gastos serão de muitos bilhões, conforme mostram os números. O Acre terá acesso a esses recursos e em quais áreas?

NM – É verdade que serão investimentos de muitos bilhões de reais, direcionados para obras gigantescas como a pavimentação de rodovias, portos, hidrovias, ferrovias e hidrelétricas.

Sendo assim, o Acre não está incluído nesse pacote de obras. E agora?

NM – O Acre está contemplado nesse grande pacote de obras com a pavimentação de rodovias. Graças ao esforço da bancada e do governo do Estado, nós estamos chegando, neste segundo mandato do presidente Lula, com a BR-317 praticamente concluída - faltam apenas 70 quilômetros para chegarmos a Boca do Acre, no Amazonas. É uma obra que está dentro desse pacote do governo federal e deve ser concluída ainda este ano. Temos também a BR-364, ligando Rio Branco a Cruzeiro do Sul. Nessa obra o Acre entra no pacote do governo federal de modo bem concreto.

Isso significa que a BR-364 será concluída neste segundo mandato do presidente Lula?

NM – Esse é o objetivo de todos nós. Eu acho que até o fim do governo Lula e Binho Marques, nós concluiremos essa obra. Temos um grande desafio que é aquele trecho de Feijó a Manuel Urbano, mas creio que o problema será enfrentado. Mas, em relação ao governo do presidente Lula, não são só obras estruturantes que nos fazem crer em avanços...

O senhor falou disso no início da entrevista. Quais são, por exemplo, as prioridades dos avanços na área social e de que forma o mandato de um deputado federal pode contribuir para isso?

NM – Na bancada do PT, a gente divide as atividades e organiza os parlamentares em torno das questões. Aqueles companheiros que têm formação na área de engenharia ou de economia entram nas questões que dizem respeito ao crescimento econômico do país. Aqueles que têm formação que vem das igrejas, dos movimentos sociais e sindical abraçam, digamos assim, os programas sociais. Este é o nosso caso. Vamos dar suporte ao governo nessa área social procurando ampliar esses programas no nosso Estado, sugerindo aos ministros da área as modificações e levando ao governo novas sugestões e até novos programas.

Que programas são esses, deputado?

NM – São programas como o Bolsa Família, que hoje já beneficia um contingente de mais de dez milhões de famílias brasileiras e é modelo estudado pela ONU (Organização das Nações Unidas) e sua experiência vem sendo adotada em vários países da América do Sul, da África e da Ásia. Temos também o programa Luz para Todos, que inclui iluminação pública urbana e rural, com o qual já atingimos seis milhões de pessoas e devemos chegar a 30 milhões que viviam na mais completa escuridão neste país em pleno século XXI. Temos também o Pró-Uni, que atende a juventude que estuda em escolas particulares. Nós já chegamos a 400 mil estudantes beneficiados e o desejo do presidente Lula é dobrar essa quantidade e de levar esse número para um milhão de pessoas no fim de seu mandato. Temos ainda um programa destinado à formação e capacitação técnica da juventude, o pro-jovem. Nessa linha, estamos lutando, junto ao Ministério da Educação, para trazer para o Acre uma escola técnica federal. O presidente Lula quer implantar no Brasil inteiro o programa da formação técnica da juventude e eu já iniciei alguns contatos com o ministro da Educação para que possamos ter aqui uma dessas escolas técnicas a serem implantas no país.

Isso é para quando?

NM – Para breve, muito em breve. No primeiro momento serão atendidos cem jovens e a idéia é duplicar esse número a cada ano com cursos fundamentais como o de agroindústria. O Acre precisa crescer e desenvolver sua agroindústria. Pensamos também que é necessária a formação básica na área de informática, de saúde, florestal e, enfim, com uma escola voltada para a produção de técnicos para a nossa realidade regional.

Falando de política propriamente dita, qual sua expectativa em relação às lutas nas quais o seu partido está envolvido, como, por exemplo, a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados? A base governista vai mesmo se dividir?

NM – A disputa pela presidência da Câmara sempre foi uma grande disputa por espaço e de poder. Nós temos um exemplo bem recente de que isso tem que ser feito com muita maturidade. Quando a base do governo se dividiu e foi eleito o ex-deputado Severino Cavalcanti. Aquilo foi um problema extremamente ruim para o Brasil e para a Câmara. Hoje, o que está acontecendo na Câmara é que o debate democrático está fluindo e se afunilando em torno de três nomes...

Não são apenas os deputados Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Aldo Rebelo (PC do B-SP) que estão na disputa?

NM – Não, o PMDB está apresentando o nome do deputado Gedel Vieira (PMDB-BA). O que nós podemos garantir é que o erro do passado não será mais cometido.

Por quê?

NM – Porque nós vamos afunilar o debate em torno de um único nome como candidato da base governista.

Mesmo que esse nome seja o do PMDB?

NM - Nós estamos fazendo uma discussão para que a base do governo não se divida e ela não vai se dividir. O presidente Lula inclusive nos deu um prazo para que até o dia 20 a gente esteja com esse nome definido e é isso que vai acontecer.

Mas por que o PT colocou o nome do deputado Chináglia no debate se o Governo parecia contemplado com a candidatura à reeleição do deputado Aldo Rebelo?

NM – O que nós não pudemos admitir é que prevaleça no país uma certa tendência que se criou principalmente na imprensa brasileira de buscar reduzir o PT e obscurecer a vitória do PT nas últimas eleições. Depois das eleições, a grande imprensa nacional tratou de dizer que, mesmo com a reeleição do presidente Lula, o PT fora derrotado. Isso vem sendo dito de forma acintosa e não é verdade. Ao contrário do que se vem dizendo, o PT foi o partido que mais teve votação no país a ponto de ampliar sua bancada atual em dois deputados em relação àquela que está deixando o Congresso. Tínhamos três governos estaduais e passamos para cinco, inclusive dois muito simbólicos, que são o do Estados da Bahia e do Pará. Em função desse clima em busca da redução dos espaços do PT, a nossa bancada entendeu que seria necessário fazer política, sem sectarismo, para mostrar que o PT precisa estar bem representado, tanto no governo como na Câmara dos Deputados.

Em nível estadual, o PMDB do Acre também será aceito na coalização do presidente Lula? Ou seja, o senador Geraldo Mesquita Júnior e o deputado federal Flaviano Melo farão parte da Frente Popular do Acre?

NM – O PMDB já faz parte da coalizão. Todos os entendimentos mantidos até hoje indicam que o PMDB nacional, tanto no Senado como na Câmara, faz parte da base do governo do presidente Lula. Mas como isso vai se desdobrar nos Estados, nas chamadas políticas regionais? Esse é o problema. Qual a posição do PMDB do Acre em relação à Frente Popular, cabe a eles definirem. Se eles vão ou não apoiar o governo do companheiro Binho ou se vão abrir o debate para se integrarem à Frente Popular...

E se eles concluírem que devem fazer parte da Frente Popular serão aceitos?

NM – Pelo que conheço da política do Acre, acho que o PMDB daqui vai se situar no campo da oposição.

Eles seriam oposição no Estado e governistas no plano federal? Isso seria possível?

NM – É perfeitamente possível. Isso sempre existiu na política brasileira. Você compõe no plano nacional e faz oposição no regional, ou ao contrário. É normal.

Ao PT do Acre, o que interessa: eles como aliados ou na oposição?

NM – Esse debate é complexo, mas eu entendo que, pela história que construímos, acho que dificilmente teríamos clima de caminhar juntos com o PMDB integrado à Frente Popular. Mas é claro que se alguns membros do PMDB quiserem colaborar com o governo Binho Marques, acho que estarão fazendo uma boa ação.

O senhor é um deputado muito próximo do presidente Lula e, portanto, detém muitas informações privilegiadas. Uma delas é em relação ao futuro do ex-governador Jorge Viana: ele será ou não ministro de Estado?

NM – Nós estamos trabalhando para isso. Inclusive no governo federal, muitos trabalham para vermos o nosso ex-governador personagem importante da história política nacional. É fato que ele contribuiu muito para o governo do presidente Lula e é merecedor disso porque também tem competência e tem espaço para ele. Não negamos que estamos trabalhando para isso...

Mesmo o Acre já tendo uma ministra? A Esplanada dos Ministérios comportaria dois acreanos?

NM – Acho que sim. Tanto a Marina quanto o ex-governador conseguiram o respeito do Brasil inteiro, do partido e da sociedade em geral, além da comunidade internacional - a Marina hoje é uma figura do mundo, assim como o Jorge Viana é respeitado por diversos organismos internacionais. Acho que o governo do presidente Lula estaria muito bem servido com esses dois quadros valiosíssimos da política nacional.

 
 
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Rio Branco-AC, 7 de janeiro de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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