| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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O início No início foi a dura realidade do Palácio das Secretarias. Um prédio velho, apesar do nome pomposo, caindo aos pedaços, condenado pela Defesa Civil por seu porão inundado e paredes cheias de infiltração. A Fundação Cultural tinha então que se apertar no terceiro andar (se não me falha a memória) já que não contava mais com o Centro de Treinamento que abrigava, desde o governo Orleir, a Secretaria de Educação. Até as mesas de trabalho a gente tinha que escolher entre as menos velhas. Tudo bem! Para o Departamento de Patrimônio Histórico lidar com coisas velhas não chegava a ser propriamente uma coisa estranha. Estranho mesmo só eu (já que a Célia era funcionária antiga da Fundação) pras duas funcionárias do setor que, por força da inércia governamental, mais do que por qualquer outra coisa, também se juntaram ao esforço de começar alguma coisa nova em meio aquela aparência de pós-holocausto. Exagero? Nem tanto, qualquer um que se lembre do Acre no final de 1998 - com três meses de salários atrasados, arvores crescendo das paredes do Palácio Rio Branco e um clima de impunidade que beirava o opressivo - irá perceber que, na verdade, não há aqui nenhum exagero. Mas seria injusto não reconhecer que, apesar de tudo, herdamos alguns bens preciosos: um arquivo cheio até a tampa de projetos, documentos, fotografias, fitas gravadas e outros fragmentos remanescentes das administrações anteriores. Caótico arquivo é verdade, mas prenhe de memórias, vestígios, lições dos que nos antecederam na árdua missão de tentar cuidar do patrimônio histórico e cultural acreano. E ainda havia mais. Havia também o Museu da Borracha, a Casa do Seringueiro e a Sala Memória de Porto Acre, cada um deles com valentes funcionários que garantiram a sobrevivência dos espaços durante tempos muito difíceis. Pronto! Assim era o Departamento então. Ponto! Patrimônio e Memória Assim foi chamado o Departamento com a criação da Fundação Elias Mansour em substituição à antiga Fundação Cultural: Departamento de Patrimônio e Memória. O nome já era um programa de ação. Tínhamos então muitos sonhos e outras tantas ilusões. Tudo parecia possível. Apesar das aparências indicarem exatamente o contrário. O presidente da Fundação Antonio Alves, que daqui pra frente será tratado apenas Toinho (porque ele prefere, eu sei), estimulava nossos sonhos enquanto lutava pra desfazer nossas ilusões de poder lidar com tudo ao mesmo tempo. É preciso planejar, é preciso enquadrar as ações nos parcos orçamentos disponíveis, é preciso encontrar um rumo em meio a tantas possibilidades e necessidades. E assim seguimos meio aos troncos e barrancos (troncos dos balseiros atrapalhando o barco e barrancos escorregadios que só aldeia Madija no Purus), mas seguimos. Às duas primeiras funcionárias (Nazaré e Maria Matos) somaram-se outros como o Kesil e a Elisa. Assim como chegou também a vez da meninada que vinha trabalhando com a gente desde a Fundação Garibaldi Brasil, na época do mesmo Toinho (95/96). Diana, Simone, Jocélia, as “nossas meninas” que viravam e reviravam jornais velhos atrás das histórias que a Célia e eu teimávamos em conhecer. Era hora de subir o rio e beber da fonte. Mas a tronqueira entupiu a correnteza e o barranco onde pensávamos haver um porto seguro virou terra caída com a seqüência de cheias e vazantes das águas que é tão natural quanto surpreendente. E o vazio se abriu sob nossos pés, quando a Célia partiu. Mas seguimos, porque o rio segue, tem que seguir seu curso mesmo que precise encontrar um novo e insuspeito caminho. Projetos, idéias, suor, suor, suor... O centenário da Primeira Insurreição Acreana, aquela comandada pelo destemido José Carvalho, nos trouxe a possibilidade de ocupar os jornais, de fazer a primeira reforma da Sala Memória de Porto Acre e de ir ao Bom Destino. As notícias davam conta que o histórico chalé havia finalmente desabado. Apesar do processo aberto por teimosos acreanos que não se conformavam com o fim do velho e histórico Seringal. Apesar do Ministério Publico ter condenado o governo a pagar multa diária enquanto não recuperasse esse importante patrimônio do povo acreano. Apesar de todas as evidencias mostrarem que o Bom Destino não podia se acabar assim. Deu trabalho mas no final deu certo. Muitos outros se juntaram então. Edunira, Dalmir e a Ana Lucia, Superintendente do IPHAN em Manaus que botou o primeiro dinheiro na recuperação do Bom Destino e com isso permitiu que viabilizássemos muitos outros projetos e recursos para o Velho Seringal que (acre ditem) voltou a existir. Ai pronto, não parou mais... Cavalhada em Sena Madureira, difícil demais, mas gostoso que só! Encontros de Cultura Indígena, revistas temáticas (Galvez, Maternidade, Radio Difusora, etc.), obras de revitalização do Palácio Rio Branco, recuperação da Eduardo Assmar e da Rua do Comércio de Xapuri, marujada, exposições muitas, histórias diversas, parcerias múltiplas, etc., etc., etc. (a idade é uma m... a primeira coisa que ataca é a memória). Patrimônio Histórico e Cultural Se não lembro sequer de tudo que custou tanto suor - e que por isso tentei exemplificar através do Bom Destino, para o pessoal do “Patrimônio” paradigma de trabalho ralado - que dirá de todos os que passaram ou ficaram no Departamento ao longo desses oito anos. Só sei dizer que foram e são muitos. À equipe do Departamento, juntou-se o pessoal do Museu da Borracha, da SM de Porto Acre, do Palácio Rio Branco, do Memorial dos Autonomistas (incluindo o brilhante cometa Rogério Sábio da Paciência), da Casa dos Povos da Floresta, mais o pessoal do Museu de Sena Madureira, e do Museu do Xapury e do Museu de Cruzeiro do Sul. Não posso pretender, portanto, lembrar do nome de todos os do “Patrimônio”. Até porque ao longo desse tempo passamos a nos comportar como uma “grande família” (o que inclui todos os encontros e desentendimentos comuns de qualquer família) e as injustiças seriam inevitáveis. Isso sem mencionar a grande quantidade de estudantes e estagiários que também passaram pelo Departamento, mas não ficaram. Pessoas que seguiram caminhos outros, mas deixaram marcas e levaram consigo as experiências coletivas do Patrimônio. Por isso quando saí do “Patrimônio”, há dois anos, não fiquei triste. Pelo contrário, fiquei feliz porque a turma continuou o trabalho e permaneceu consciente de seu papel, agora orientados pela valente sena-madureirense Maria Leudes. Homens e mulheres trabalhando porque é preciso sim, afinal todo fim de mês vem as contas, chova ou faça sol. Mas não só. Homens e mulheres trabalhando com a dignidade dos que se tornaram servidores da memória acreana, instrumentos de uma identidade cultural que luta pra se afirmar diante dos desafios pós-modernos. O Toinho tinha razão: era preciso um rumo e o Patrimônio trilhou seu rumo nesse tempo todo. Eu sei. Já fui um deles. Mas é claro que nada disso teria acontecido se o governo inteiro não tivesse passado a tratar o patrimônio cultural acreano como um bem precioso. Um foco preciso para o investimento de trabalho e recursos em prol de toda a sociedade. Uma decisão devida ao próprio Governador Jorge Viana, é preciso reconhecer. Afinal, ao longo de todo esse tempo, o poder do exemplo se tornou amplo e contagiante. Basta olhar em volta. Hoje as prefeituras municipais conseguem visualizar claramente a necessidade e as vantagens de investir na preservação e fortalecimento de seus patrimônios culturais próprios. Outras instituições, como a Eletroacre que construiu o Museu da Luz, bem como os poderes judiciário e legislativo, também revelam essa mesma compreensão através dos projetos que vem desenvolvendo nessa área. Além da própria sociedade que está criando nos últimos anos diversos espaços de memória privados, como a Casa de Memória do Bacurau e a Fundação João Eduardo, só pra exemplificar. Ouso concluir, portanto, que graças a toda essa trajetória se consolidou a consciência que por aqui nada é mais poderoso que a cultura acreana. Nada é mais relevante do que o fortalecimento da acreanidade, seja qual for o sentido que se atribua a essa idéia. Eu não sei, mas sinto que o Acre tem uma história única no mundo. E se a floresta é muito maior que o Acre, os acreanos souberam se constituir num povo maior que a própria Amazônia e passaram a falar pro mundo. Ou não é assim?!! Pode até não ser. Porque não posso desconhecer que todo esse tempo não foi feito só de conquistas, mas também de criticas. Algumas procedentes, outras nem tanto. Mas uma coisa eu posso afirmar porque aprendi com um dos maiores acreanos que já conheci, meu saudoso Mestre Agnaldo Moreno: A história acreana é uma história cativante, emocionante, envolvente, por vezes misteriosa, outras incompreensível até, mas realmente importante todas as vezes que contada com gosto e paciência. Até porque, como me disse certa vez o velho Apurinã Antonio Zacarias, a história da criação do mundo leva mais de um dia pra contar. OBS: Escrevi isso tudo apenas pra agradecer a todos que de alguma forma fizeram parte dessa história que ainda espero ver bem contada um dia. Breves notas do tempo - Emocionante a entrega das obras de restauração da Casa do Mestre Irineu, no ultimo dia 29. Uma casa que guarda a memória do mundo (segundo o nosso inspirado Toinho). |
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