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Garotas que dizem NI

 

 


A Corda de Areia

Bom, história de super herói tem muita, de muito heroísmo feito e muita vilania praticada. Mas assim, de lembrar agora nesse momento, não estou lembrando da melhor não. Tem uma que pulou agora na minha cabeça, que não é melhor nem pior, mas deve ser a mais patética.

Porque muitos, ouvindo essa história, vão dizer, conforme sua fé e sua crença, que para tudo tem um guia guiando, um olho olhando e uma mão direcionando; e outros, ao contrário, vão dizer, conforme sua descrença e sua infé, que é tudo por acaso e esse é o motivo desse caos e dessa bandalheira por aí. Pois quem diria, que com tanta gente boa e má no mundo, tantos merecendo e outros precisando, muito estudo e demais pesquisas, o destino ia escolher para ganhar super poderes justamente o Lolo?

Já falei pra vocês sobre o Lolo, mas pra quem não ouviu falo de novo; e pra quem já ouviu, mudo um pouco as palavras, que é pra assustar a pasmaceira. Muita qualidade de adjetivo já foi dita sobre o Lolo, mas nenhuma nunca teve sinonimidade de herói; talvez de super. Porque o Lolo é uma besta completa. Panacão, idiota, mala sem alça, songa-monga, bobão, retardado, zé ruela, imbecil, estúpido, bocó de mola, babaca. E em todos pode botar super antes que não vai estar exagerando.

O Lolo fez muita gente forte vomitar de indignação e muitos puros de coração desacreditarem na humanidade. Porque o Lolo podia conversar com vossa senhoria por duas horas só dizendo sim e não. Dizia siiiiiiiiiiim com vozinha fina e nããããão com vozona grossa; e achava muito divertido. O Lolo gostava muito de rir das próprias piadas e não se importava de rir sozinho; por que qual outro ser vivente acharia a mínima graça nas piadas do Lolo? Uma das cantadas prediletas do Lolo era aproximar a moça e declamar: “puxa meu dedo que eu faço borbulhas de amor para você” e levantava a perninha. O Lolo adorava o Fágner. Às vezes conversava com as pessoas tremendo a cabeça: “To imitando o Fágner, pegou? Pegou?”. E quando a bobeira antiga terminava, o Lolo aparecia com uma nova. A última era responder todo e qualquer comentário com um não sei seqüenciando com uma interrogativa. Assim:

- E aí Lolo, tudo bem?
- Não sei, tudo?
- Vamos jogar bola na quinta?
- Não sei, vamos?
E vinha o pobre do garçon:
- O senhor quer uma cerveja?
- Não sei, quero?

E reclamava se o sujeito trazia a cerveja, porque o que ele queria era um uísque, ou um bolinho de bacalhau.

E de todas essas tem tantas outras. Só não conto todas pra respeitar o ouvinte e não cansar o papel, que são muitíssimas. No mais, queria mesmo exemplificar, e mostrar que a bestice está comprovada, e para tanto, provada foi.

Pois é aí que entra a letra certa nas linhas tortas ou o acaso evolucionista, ou ainda outras quais metáforas e metafísicas diversas, cada qual com seu um. O fato é que o Lolo acordou um dia, sem mais, com os tais super poderes. Não teve o cara que acordou e era barata? Pois então, o Lolo acordou assim, sem picada de mosquito nem nave extraterrestre. Acordou e ponto. E o poder do Lolo também não era coisa pouca, como olhar atrás da parede e dar choquinho, que pra isso não precisa de poder, tem equipamento de tecnologia.

O Lolo podia mexer com o tempo. Não esse meteorológico, de chuva e sol. O outro, o tempo que escorre feito areia. Ele conseguia esticar ou encurtar o tempo, de forma que o acontecimento acontecesse bem devagar, ou corresse logo e o ocorrido acabasse antes. Então, imagine o senhor, o oceano de possibilidades que se abre para qualquer pessoa normal que tenha a capacidade dita de mexer na velocidade de seu relógio. Não vou pormenorizar, que cada um use sua própria imaginação e conjeture a beneficência que lhe aprouver.

Mas o Lolo não tinha a mínima idéia do que fazer com seu novo poder. Primeiro que nem queria ser herói, queria ser super vilão, porque achava que as vestimentas lhe acordavam mais. Mas o sindicato dos vilões tinha teste de queí e o Lolo não passou. Então foi pro sindicato dos heróis, porque todo mundo sabe que herói burro pode ser, não tem problema nem distinção. E a heroiada aceitou ele, que era mais pra vigiar um bobão daqueles com tanto poder.

O problema foi que disseram pro Lolo que tinha que participar das reuniões e ajudar as pessoas. O Lolo não gostava de reunião e tinha preguiça muita de ajudar as pessoas. Então deu uma paradinha no tempo e foi pra casa tirar uma soneca.

Pois bem, que se saiba, até nesse momento que conto o conto, o Lolo ainda não resolveu o que faz com seus poderes de super herói. Por enquanto, se diverte colocando as pessoas qual vinil em 78 rotações, pra todo mundo ficar falando rápido e fininho. E é o coice! Que ver o Lolo se torcendo de gargalhar na sua frente, ele em câmera lenta porque é você que está mais rápido, é pra tirar qualquer ser humano do prumo de suas faculdades.

Pois não é como eu disse no começo? Não é a melhor história, porque mal tem começo, o meio está mal explicado e nem fim tem que se possa dizer “terminou”. Carece igualmente de beijo na boca e felizes para sempre. Mas também a pior não é, porque apesar de tudo não acaba com gente louca ou morrendo, que é coisa que dá muita tristeza nas histórias e, além disso, eu me esforcei pra sair bem contadinha. É só patética, como a vida, na maioria das vezes, pro vilão ou pro herói.

Garotas que dizem NI

 
 
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Rio Branco-AC, 7 de janeiro de 2007
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