OPINIÃO
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Gilberto Braga de Mello *

 

Confuso horário

Veterano trabalhador do comércio comenta comigo que agora consegue voltar pra casa a tempo de ver o Jornal Nacional. Ele não está largando o trabalho mais cedo, é que sem horário de verão no Brasil voltamos a ver o JN aí pelas seis e meia da tarde. Até dias atrás o prestigioso telejornal da TV Globo alcançava o Acre às cinco e meia da tarde, porque no Rio de Janeiro já eram oito e meia da noite.

O horário de verão 2005/2006 foi de 16 de outubro até 19 de fevereiro. Por 126 dias oito estados brasileiros, inclusive São Paulo, e o Distrito Federal mantiveram seus relógios adiantados em uma hora. O Acre viveu quatro meses (um terço de ano!) com uma diferença de menos três horas em relação à Brasília, que é a hora que orienta o funcionamento do país.

O horário de verão passa e o Acre fica com fuso horário que torna confuso o nosso dia atrasado duas horas em relação ao Brasil. No entanto, ao contrário desta confusão, o fuso horário surgiu para integrar cidades e regiões com vida política, econômica e social em comum.

Está no site do Observatório Nacional: “Até 1883 (nos EUA) cada cidade tinha sua própria hora, de acordo com a passagem do Sol pelo meridiano local. Quando em Washington eram 12 horas, em Boston eram 12:24”. Com o advento da ferrovia e do telégrafo, essas diferenças de hora prejudicavam as comunicações e a integração das regiões. Então em 1828 um certo Sir John Herchel criou uma convenção que ajustava as horas por regiões. Era o fuso horário, brilhante idéia que evoluiu ate a criação, em 1878, do sistema mundial de zonas de tempo orientado pelo meridiano de Greenwinch.

Mas no Brasil, até 1913, quando no Rio de Janeiro, então a Capital Federal, os relógios cravavam 12 horas, no Recife já era 12:33 e em Porto Alegre ainda era 11:28.

O Congresso Nacional aprovou a lei que criou o Sistema de Fuso Horário no Brasil em 18 de Junho de 1913. Parecer da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados recomendou a aprovação da hora legal, “visto que ao lado da hora do Rio, usada nas estações telegraphicas da União, encontram-se horas locaes as mais variadas e arbitrarias, o que, evidentemente, prejudica as relações commerciaes, já difficultando o estabelecimento seguro do trafego mutuo nas estradas de ferro, já impedindo a comparação das datas e horas dos despachos telegraphicos e a solução das transacções mercantis, dependentes de contractos que envolvem questões de tempo.”.

Pequenas diferenças de hora era um problema para o Brasil nos tempos do telégrafo e da ferrovia. Agora pergunto eu: — Como se justifica um Estado da Federação se manter com uma diferença de menos duas horas com relação à Hora Oficial do Brasil em plena era da internet e da aviação? É incrível a pouca atenção que temos dado aos prejuízos causados por esta absurda diferença na lógica de tempo.

Claro que não dá pra simplesmente adiantar nossos relógios em duas horas, mas é preciso atentar que em 1913, ano da Lei do Fuso Horário Brasileiro, o Acre ainda não tinha representação no Congresso Nacional, então nem deram bolas pra um Território distante, só incorporado ao país por força da Revolução.

Deputados e senadores do começo do século passado aplicaram o princípio do Fuso Horário (ajustar hora local à realidade regional) para estabelecer zonas de tempo que praticamente unificam o país: a da Capital Federal e a de Manaus (-1 hora em relação ao Rio de Janeiro); mas deixaram o Acre submetido ao rigor dos meridianos, isolado em um fuso natural que lhe impõe duas horas de atraso em relação aos centros brasileiros de decisão política, influência econômica e referência nacional.

Por outra, basta sair na rua às cinco e meia da tarde e ver o crepúsculo precoce no céu acreano para entender que é melhor começar o dia uma hora mais cedo e ter a luz do sol amazônico até a boca da noite. Alias, é pra isso, pra aproveitar uma nesga de sol no fim da tarde e economizar uns quilos de energia que os estados mais ricos do Brasil adotam o horário de verão.

A integração do Acre ao Brasil é desafio que se renova e requer facilitar comunicações que em tudo interferem, no compasso dos governos, na vida das empresas, nas rotinas do cidadão comum e até na educação da criançada.

É necessário, lógico e natural o Acre corrigir seu horário e se ajustar ao fuso predominante na Região Norte, apenas uma hora a menos em relação à Brasília. O deputado Moisés Diniz já levantou esta bandeira, mas se ao meio político faltar entendimento para decisão tão simples quanto abrangente, restará a pergunta: por que não incluir um plebiscito sobre a mudança da hora no processo eleitoral de outubro, quando o eleitor acreano já estará mesmo indo às urnas?

* Jornalista com 12 anos de atuação no Acre

 

 
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Rio Branco-AC, 7 de março de 2006
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