COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 NACIONAL
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
POLÍTICA

Thaumaturgo: nove décadas de história

Aos 94 anos, ex-deputado tem que trabalhar na produção agrícola para garantir complemento de renda

Agência Aleac

O ex-deputado estadual Francisco Thaumaturgo, aos 94, anos ainda não se aposentou como pretendia. Depois de quatro mandatos ou 16 anos de legislatura, Thaumaturgo ainda trabalha em sua colônia, onde produz frutas, cria aves e bezerros para complementar a renda.

Ele explica que, apesar de ter recolhido contribuições para o INSS sobre o valor de 10 salários mínimos, está recebendo uma aposentadoria inferior a R$ 2 mil.

Filho do alfaiate cearense João Thaumaturgo Sobrinho e da dona de casa Renée Assis, o ex-deputado nasceu em Canutama, no Amazonas, em 5 de agosto de 1913, mas passou a viver em Sena Madureira a partir dos 18 meses de vida.

Aos 14 anos foi enviado para estudar em Manaus, onde se formou em odontologia e tornou-se o primeiro especialista em tratamento de canais e ondontopediatria da região. Fez sua carreira política e profissional em Cruzeiro do Sul e o restante do Vale do Juruá. Venceu quatro eleições para deputado estadual, começando pelo PTB, que fundou em 1961 junto com o ex-governador José Augusto de Araújo. “A primeira reunião do PTB, na sombra da gameleira, foi encerrada embaixo de pau, a mando do governador”, conta Thaumaturgo, lembrando apenas que o Palácio Rio Branco era ocupado por um oficial do Exército conhecido por “Jiquitaia”.

Como seus pais vieram para o Acre?
Meu pai era alfaiate. Queria montar uma empresa em Manaus onde o cara entrasse nu e saísse de terno, mas sua cabeça foi envolvida com o negócio da borracha e ele acabou indo trabalhar de seringueiro. Depois ele abriu seu próprio seringal no município de Canutama, bem no local onde o rio Purus faz uma volta que ficou sendo chamada de Sacado da Novação.

Como o senhor foi parar em Cruzeiro do Sul?
Pois é, com a queda do preço da borracha, meu pai decidiu subir o rio até Sena Madureira em vez de descer para Manaus. Assim, quando eu tinha um ano e meio nos mudamos para Sena. A cidade tinha a cara de capital, um monte de gente nas ruas. Meu pai abriu a alfaiataria e eu vivi em Sena até os 14 anos, quando fui estudar em Manaus. Lá me formei em odontologia e fui o primeiro especialista em tratamento de canal e odontopediatria do Acre. Comecei a trabalhar numa clínica e fiz o meu nome. Logo me convidaram para trabalhar em Cruzeiro do Sul.

O que o atraiu para Cruzeiro?
Eu larguei tudo para ir para Cruzeiro e passei 22 anos lá como dentista. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o preço da borracha voltou a subir e os seringueiros não tinham como deixar os seringais para ir à cidade. Então eu ia até os seringueiros. Comprei um batelão e transportava meu consultório para os barracões às margens do Juruá, do Juruá-Mirim, do Tejo. Andei por tudo que é canto. Passei três anos atendendo. Cheguei a atender no posto da fronteira do Peru, onde os soldados peruanos destacados para o posto tinham habilidade, treinamento para escrever sobre a perna enquanto os soldados brasileiros eram analfabetos. Hoje é diferente, soldado brasileiro tem que ter estudo.

Como foi sua entrada na política?
Em 1961 fundamos o PTB e lançamos o José Araújo candidato ao Governo. Ele era muito popular. Eu fui eleito o deputado mais votado, com mil votos. Naquele tempo tinha pouco eleitor, não era preciso gastar dinheiro para fazer campanha, não havia pressão, era tudo limpo. Depois eu passei 16 anos na Assembléia e não fui reeleito. Larguei a política.

O que o senhor faz para aproveitar a aposentadoria?
Eu passei 42 anos recolhendo um valor pro INSS para receber dez salários mínimos de aposentadoria, mas hoje recebo R$ 1,9 mil. Dá pra comer, mas não dá pra comprar roupa. Se eu não tivesse uma casa alugada e a colônia, não teria como viver. Mas ainda bem que todos os meus filhos já estão formados.

O que o senhor planta na colônia?
Lá eu cultivo frutas, também produzimos polpa de cupuaçu, maracujá, caju, bananas. Também plantamos tangerina, mas deu uma doença e não há dinheiro que chegue para comprar veneno. Larguei lá. Tenho um campo para 100 reses, mas eu nunca alcancei esta quantia, pois vendo antes para comprar comida. Vendo de 20 a 30 bezerros por ano. Tenho também muita ave: pato, galinha, ganso, frango, capote. Então facilita. Eu tinha peixe também, mas daí meu caseiro saiu num fim de semana para tomar umas cachaças e voltou só na segunda-feira. Enquanto isso entraram lá e esvaziaram o açude. Eu só comi um piau com minha esposa.

O que o senhor mais admira no Acre?
Eu me apaixonei pela energia do Acre quando fui criado em Sena Madureira. Eu amo esta região pela sua história. Tanto que quando eu fui morar em Manaus eu montei um time de futebol chamado de Acreano. As camisas eram verde - amarelo e tinha a estrela vermelha no peito. O Estado do Acre é rico por sua energia, a história de sua conquista. Pena que ninguém olha pra trás. Abandonaram o José de Carvalho que fez a primeira insurreição. Depois é que veio o espanhol.

O senhor acha que José de Carvalho foi desvalorizado na história?
Pois é, a mesma coisa vem sendo feita com o pioneiro do Juruá, João Correia. Só falam em Mâncio Lima, mas o João Correia era o maior empreendedor do Juruá. Tudo o que ele fazia era bem feito. Para o barracão, ele trouxe telhas e pinho de Portugual, também trouxe carpinteiro e ferreiro para trabalhar o ferro da construção. Ele construiu uma usina de cem cavalos para produzir açúcar e farinha de milho. E sua casa, tinha dois andares toda feita em madeira de lei.

Como está a questão da posse de sua casa?
Quando o governador José Augusto assumiu, ele comprou uma casa para cada deputado que veio de outras cidades, mas eu nunca recebi a minha, pois o José Augusto foi cassado e o Kalume, que veio mais tarde, deu as casas só para quem era do partido dele, a Arena, eu era do MDB. Agora eu sou o único deputado que mora na casa do governo e que não é o dono. Os outros são donos, mas não moram nas casas. Eu quero chegar a um acordo pra comprar a casa, pois o governo não dá nada de graça pra ninguém.

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 07 de maio de 2008
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
P E S Q U I S A