OPINIÃO
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Sandra Starling *

 


Quando os patos vão a Las Vegas

Pelo que entendi até agora dessa história de “mensalão”, de araponga gem, de propinas e da relação entre a máquina pública e os (ou alguns) políticos, tudo está me parecendo o que vivi quando jovem.

Jogava-se muito em minha casa, todos os fins de semana. Era jogo de pôquer,daqueles com bagos de feijão para marcar os pontos ganhos. Reuniam-se em torno da mesa meu pai, minha mãe, tia Colota e tia Carminha. Às vezes, eles, os adultos, deixavam-nos, a nós, os adolescentes - meus irmãos Salvador, Sandro e eu - entrar na roda.

E eu ficava absolutamente espantada com a tia Carminha. Era incrível o que ela conseguia fazer com as cartas. O baralho parecia uma sanfona em suas mãos; as cartas eram embaralhadas sem cair e numa rapidez que me deixava tonta. E como blefava! Anos mais tarde, descobri o truque: o marido dela fora “croupier” no antigo cassino da Pampulha, em Belo Horizonte, onde, na mocidade, acompanhando-o, ela passava as noites na mesa de pôquer. Daí seu fantástico profissionalismo. Tia Carminha ganhava todas. Embasbacava a gente! E deixava meu pai muito nervoso, ele que também tivera seus dias de jogatina. (Aliás, dizem que quando minha mãe me teve, um irmão dele, o tio Chiquito, foi quem a levou para o hospital, porque meu pai estava na Pampulha. Daí o ódio de minha mãe em relação ao jogo, que ela só tolerava nesses infindáveis fins de semana em cidades do interior.)

Pois bem. Na noite do depoimento de Roberto Jefferson na Comissão Parlamentar de Inquérito, não sei por que, não saiu da minha cabeça as cenas vividas na juventude. Fiquei novamente embasbacada com a capacidade do depoente em lidar com assuntos de financiamento de campanhas eleitorais e de propinas. Afinal de contas, dizia, “que valem 3000 reais passados solertemente para o bolso de um “petequeiro” (expressão dele), funcionário público, ilicitamente filmado por um araponga?!” E até a deputada-juíza Denise Frossard se deixou confundir... Ninguém - à exceção do deputado José Eduardo Cardozo, um mero suplente na comissão - conseguiu resistir à segurança com que Roberto Jefferson passou para a ofensiva. Aliás, caros leitores, vocês prestaram atenção ao fato de que ele não usou nem uma vez o vocativo de praxe nos parlamentos – “meus nobres Pares” – substituindo-o por um insinuante “meus iguais”, que eu nunca ouvira ser usado ao tempo em que fui deputada?! Chocante.

No mais, o depoimento também me lembrou do último debate de Lula com Collor de Mello em 1989: lá, como cá, um dos debatedores – naquele caso, o Collor — já chegou colocando sobre a mesa uma misteriosa pasta, que ameaçava abrir a todo tempo, insinuando haver ali algo que incriminaria seu adversário. E nem se diga da mala — sugestivamente vermelha — que Roberto Jefferson carregava e que levou toda a imprensa a pensar que contivesse os propalados 4 milhões de reais que, por suposto, lhe foram entregues pelo Presidente do PT, José Genoino, durante a campanha eleitoral do ano passado. Parecia um cenário armado por um profissional acostumado a jogar e, portanto, a blefar.

Os investigadores - os deputados e os senadores - sequer esperavam que o investigado respondesse a suas perguntas, nenhuma delas relativa ao episódio dos Correios (motivo da investigação). Tratavam de livrar-se logo do microfone, como o capeta foge da cruz. E o Sr. Roberto Jefferson deu um show.

Moral da história: amadores não devem tentar a sorte em mesa de profissionais. Patos não podem ir a Las Vegas.

* Bacharel em Direito, mestre em Ciência Política, ex-deputada federal (PT-MG) e assessora do senador Tião Viana (PT-AC)

 

 
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Rio Branco-AC, 7 de julho de 2005
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