COTIDIANO

Minissérie grava em cidade cenográfica construída no Acre

João Miguel Jr
Rede Globo buscou reproduzir
a cidade de Puerto Alonso
do início do século passado


Para a minissérie Amazônia - De Galvez a Chico Mendes, de Glória Perez, que vai ao ar em janeiro, a TV Globo ergueu, às margens do rio Acre, no Norte do país, duas cidades cenográficas que reproduzem o mesmo local, porém em épocas distintas do final do século XIX.

Uma delas é Puerto Alonso, cidade batizada assim, em janeiro de 1899, pelos bolivianos que retomaram a região até então povoada por brasileiros, mas que meses depois viria a se chamar Porto Acre. Esta segunda cidade cenográfica foi reproduzida para ilustrar o desenvolvimento da antiga Puerto Alonso, após a chegada do espanhol Luiz Galvez que, no dia 14 de julho de 1899, proclamou o Estado Independente do Acre e nomeou o local de Porto Acre.

A produção, que mobiliza um grande elenco, centenas de profissionais de várias áreas, figurinos e cenários ricos em detalhes, está sendo realizada no estado do Acre para ilustrar parte da história do povo acreano que será contada na minissérie, que tem direção geral de Marcos Schechtman e direção de Marcelo Travesso, Pedro Vasconcelos, Roberto Carminati e Carlo Milani.

As cidades projetadas pelos cenógrafos Mário Monteiro e Juliana Carneiro foram construídas numa área de mais de dois mil metros quadrados em apenas um mês. No Acre, foram contratados cerca de 270 profissionais para trabalhos em carpintaria, marcenaria, alvenaria, limpeza e vigilância.

Todas as edificações foram produzidas com material da região. Roxinho, maçaranduba, cumaru-ferro são algumas das diferentes espécies utilizadas no projeto, que utilizou 500 metros cúbicos de madeira, retirados de uma área de manejo florestal. Panos de palha de ubim e de jaci, com trançado especial, fiel à arquitetura da época, forram os telhados das casas e estabelecimentos.

A equipe de cenografia também se esmerou para conseguir materiais verdadeiramente desgastados pelo tempo, como lonas velhas e telhas de zinco antigas.

Como o porto da cidade era um dos locais mais importantes da época, por causa da entrada e saída do látex, sete barcos e quatro canoas foram adaptados para as cenas que mostram a movimentação comercial no rio Acre, a chegada e a partida de personagens importantes como Galvez (José Wilker) e José de Carvalho (Juca de Oliveira).

Ao todo, foram produzidas duas mil pélas de borrachas cenográficas - forma em que o látex é armazenado para ser vendido. Parte das pélas fica na alfândega e outras 400, na beira do rio, reproduzindo o costume da época do ciclo da borracha, quando as peças eram colocadas na água para facilitar o transporte, ao serem manejadas por varões. Como toda a mercadoria entrava pelo porto e passava pela alfândega, a produção de arte encomendou mais de mil sacos de juta para ilustrar a circulação dos produtos.

A cidade cenográfica de Porto Acre é composta pelo palácio de Galvez, cinco casas, alfândega, hospedaria, “Instrucção Publica” (escola), “Departamento de Estatística”, “Departamento de Polícia” (delegacia), armazém, igreja, “Junta de Hygine” (hospital) e marcenaria, somando ao todo 15 edificações. Com 81 pilares de tronco de árvores de diferentes espécies e cerca de quatro mil metros de pano de palha de ubim trançados para a sua cobertura, o castelo de Galvez se destaca entre as construções não só pela sua magnitude e excentricidade, mas também por sua localização estratégica, no alto da cidade.

A residência do presidente do Acre é rústica, porém rica em detalhes da arquitetura moura, que remetem à origem espanhola do aventureiro de Cádiz. Essas minúcias podem ser observadas nas treliças das janelas e portas e na decoração.

Puerto Alonso, a cidade de Porto Acre meses antes das mudanças realizadas por Galvez, era mais primitiva e simples. Por isso, a cidade boliviana era formada apenas por duas torres, alfândega, um cruzeiro e pelo “destacamento boliviano”, local onde os soldados bolivianos descansavam. Nesta cidade, por causa das cenas de guerra, também é possível encontrar quatro trincheiras cenografadas com pelo menos 400 sacos de arroz de palhas.

Após uma pesquisa extensa e minuciosa, a produção de arte, comandada por Ana Maria de Magalhães, impressionou historiadores e cidadãos acreanos pela fiel reprodução de tudo que era usado na época na região. Para a composição interna e externa dos ambientes, a equipe de produção de arte encomendou aos artesãos locais e às tribos indígenas a fabricação de objetos de cena. Na cidade de Porto Acre e Rio Branco, foram produzidas as moringas, porongas (lanterna artesanal muita usada no seringal), garrafas de barro com pinturas específicas, entre outros artefatos. Os índios confeccionaram os jamaxis (cesto do ombro), arcos e flechas usados em cena pelos personagens de origem indígena. Muito utilizadas para o transporte de carga, as carroças e cangalhas também foram produzidas na região.

Para recriar o cotidiano da cidade na época, diversos animais foram necessários. Além de cavalos, mulas, bois, cabras, carneiros, cachorros, porcos e galinhas, animais silvestres, como araras, micos, veado roxo, jaguatirica e cacatua, deram o colorido amazônico às cenas.

Mais de 50 malas e baús, além de quatro caminhões, saíram do Rio de Janeiro rumo ao Acre com parte do material de cena encomendado pela produção de arte. Foram reproduzidas as balanças do século XIX, que pesavam a borracha; as machadinhas usadas para a extração do látex da seringueira; armas e facões, que serviam para a segurança do seringueiro, entre outros objetos. Do Rio de Janeiro também foram levadas mais de 15 bandeiras, sendo 10 só do estado do Acre.

No dia-a-dia da cidade cenográfica trabalham mais de 270 pessoas, além da figuração. Viajaram do Rio de Janeiro cerca de 150 profissionais, das equipes de direção, produção, figurino, produção de arte, cenografia, caracterização, efeitos especiais, técnica e o elenco. No Acre, foram contratados mais de 120 profissionais que apóiam as equipes, como motoristas, cenotécnicos, bombeiros e barqueiros, entre outros. A figuração foi toda selecionada na região e chega a contabilizar, em cenas específicas, mais de 500 pessoas – a média diária é de 150 figurantes.

As cenas gravadas no Acre contaram com a participação dos personagens Luiz Galvez (José Wilker), Maria Alonso (Christiane Torloni), o seringalista Coronel Firmino (José de Abreu) e seus filhos Tavinho (Paulo Nigro) e Augusto (Ronaldo Dappes), Rodrigo de Carvalho (Werner Schunemann), Joaquim Vitor (Eduardo Galvão), José Galdino (Cacá Amaral), Gentil Roberto (Victor Fasano), Orlando Lopes (Tarcísio Filho), Uhtoff (Cândido Dann), o seringueiro Bastião (Jackson Antunes), sua esposa Angelina (Magdale Alves), seus filhos Bento (Thiago de Oliveira), Delzuite (Giovanna Antonelli); Zuca (José Ramos), a esposa Dos Anjos (Tânia Alves) e seu filho Viriato (Ilya São Paulo); Honório (Sóstenes Vidal), o filho Dico (Mussunzinho) e a nova esposa Amelinha (Beth Goffman); Benedito (Cláudio Jaborandy), Alcedino (Antônio Pitanga), Doutor (Duda Ribeiro), Clemente (Macio Vito), a jovem Diná (Cacau Melo), um dos empregados de Firmino, Vitorino (Val Perre) e o guarda-livros do armazém do seringal Santa Rita, Osmarino (Anderson Muller).

 

 
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