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Cana é palavra doce para produtores

Paisagem ao longo da BR-317 muda com os canaviais; moradores da região esperam aumentar faturamento

Regiclay Saady
Fábio acha cana um bom negócio,
mas, como tem pouca terra, sonha em ser o “Rei do Abacaxi


Leonildo Rosas
Fotos: Regiclay Saady

À beira da BR-317, Flávio Silva dos Santos, 40, observa atentamente o movimento que se intensificou nos últimos meses ao longo da rodovia. Ele está no local há sete anos, desde que foi sorteado num lote de 15 hectares no Projeto de Assentamento Zaqueu Machado. Antes, dos 11 aos 33 anos, trabalhou em lanchonetes como empregado. É filho de seringueiro que cresceu na cidade. Tem orgulho da plantação de abacaxi, melancia, maxixe e macaxeira. Também cria 19 vacas leiteiras e um reprodutor. A meta é chegar a trinta reses.

É ao longo da rodovia que Fábio vende toda sua produção. Faz a exposição num carro de mão adquirido para esse fim. Pretende um dia, com o lucro obtido com o que produz, comprar um carro a diesel. “Vou plantar trinta mil pés de abacaxi para fazer isso”, revela. Para este ano, o produtor espera faturar R$ 27 mil, o que lhe dá uma renda mensal de R$ 2,25 mil. Quando trabalhava na lanchonete recebia R$ 600.

A paisagem em que Fábio trabalha está mudando. Talvez não saiba, mas ele é um resistente. Resiste contra algo que virou moda na BR-317: plantar cana-de-açúcar.

A palavra cana soa doce aos ouvidos dos produtores, tanto grandes quanto pequenos. A partir da divisa dos municípios de Senador Guiomard e Capixaba é difícil ver boi. Os pastos estão sendo substituídos pela nova cultura numa velocidade impressionante. Arrendar terras para o Grupo Farias, acionista majoritário da Usina Álcool Verde, tornou-se melhor negócio do que a pecuária.

Os pecuaristas estão aproveitando pastos degradados ou não para faturar mais com menos problemas e gastos para manter o rebanho. Na atividade de pecuária a rentabilidade anual por hectare é de R$ 200, enquanto no arrendamento para o plantio de cana esse valor salta para R$ 300, sem despesas com a compra de insumos e pagamento de funcionários para cuidar do gado.

Por enquanto, os pequenos produtores não dispõem de áreas suficientes para plantar cana-de-açúcar, apesar de muitos terem essa pretensão. O próprio Fábio revela que arrendaria uma parte caso a sua propriedade fosse um pouco maior. “Como tenho apenas quinze hectares, sairia perdendo se arrendasse”, comenta.

Fábio não pensa como a maioria do 714 assentados dos projetos Zaqueu Machado e Alcobrás I e II, que vivem a expectativa de também ser beneficiados com a produção da usina. Muitos procuram diariamente a sede da empresa para tentar emprego ou arrendar parte da sua propriedade. São como o colono Vicente Martins, 43, que largou sua gleba sob o cuidado da esposa e dos filhos com 12 e 10 anos para trabalhar nos canaviais. Perguntado se está em condições melhores do que se estivesse trabalhando na sua propriedade, ele responde: “É claro que sim. Aqui tenho carteira assinada e ganho um salário mínimo por mês”.

Vicente Martins é uma das poucas exceções. A intenção da Álcool Verde não é retirar colonos da sua propriedade para pôr nos canaviais. A proposta construída com o governo do Estado é de incentivar o plantio de cana em parte dos lotes nos assentamentos. A outra parte seria destinada ao cultivo de outras espécies para garantir maior rentabilidade e opções para que o produtor possa ter uma vida decente. A meta é ter 120 fornecedores e plantadores dentro de quatro anos.

“A empresa não vai arrendar terra dos pequenos produtores. Será incentivada a plantação de cana com a garantia de compra”, explica o secretário estadual de Agricultura e Pecuária, Mauro Ribeiro.

Mesmo com algumas regras para limitar a entrada dos assentados, não será fácil. O próprio Mauro Ribeiro admite a existência de um diagnóstico em que 60% dos colonos têm vontade de plantar cana. Essa é uma tarefa que facilita a vida da Álcool Verde, que necessitará de 38 mil hectares para produzir suficientemente. Por enquanto, a plantação consome 1,8 mil hectares, com previsão de chegar a 2,4 mil até o fim do ano. A meta é chegar a sete mil hectares em 2008.

Prevista para entrar em funcionamento no próximo ano, a usina passará a operar somente a partir de 2009, o que fez com fosse dada uma recuada no plantio. No seu pique máximo de produção, previsto para 2015, serão gerados três milhões de toneladas de etanol. A primeira moagem será feita com 500 toneladas de cana. Este ano, os 400 trabalhadores que ganham R$ 415 na carteira estão apenas cuidando do que foi plantado e fazendo a propagação das sementeiras.

O que foi plantado até hoje rende 160 mil toneladas, sendo suficiente para apenas dois meses de moagem.

O etanol produzido, inicialmente, será destinado ao abastecimento do mercado interno, o que poderá baixar o preço do produto comercializado no Acre. Mas o Grupo Farias não está pensando pequeno. Seus olhos estão voltados para as oportunidades de negócio que poderão surgir com os países asiáticos após a conclusão da Rodovia Interoceânica, que facilitará o transporte de produtos por meio do Oceano Pacifico. A obra tem previsão para ser concluída em 2010. Dois consórcios comandadas por empresas brasileiras trabalham dia e noite para concluir os trechos em solo peruano.

Os planos da empresa estão enfrentando problemas com o Ministério Público Estadual, que viu defeitos no Estudo de Impacto Ambiental e determinou que o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) cancelasse a licença.

Por seu lado, o gerente agrícola da Álcool Verde, Járson Filho, 47, garante que todos os procedimentos seguem rigorosamente a legislação ambiental. Segundo ele, esse é um projeto que já consumiu um investimento de quase R$ 15 milhões do Grupo Farias e que não dá para ter retorno.

“Pelo dinheiro investido, não dá para voltar atrás. Para pôr a usina em funcionamento, o investimento será duas vezes mais”, revela.

Novo ciclo – A rentabilidade propiciada pela cana-de-açúcar descoberta somente agora pelos produtores acreanos não é coisa nova no Brasil afora. O setor ganhou maior em impulso em abril de 2005, quando a Organização Mundial do Comércio (OMC) atendeu reclamação de países produtores de açúcar como Brasil, Austrália e Tailândia e entendeu como ilegais exportações feitas pela União Européia. Na Europa, a fabricação conta com subsídio do governo, o que garante competitividade no mercado internacional.

Regiclay Saady
Vicente deixou o lote sob a responsabilidade da mulher e dos filhos

A decisão da OMC animou a produção nas usinas brasileiras, gerando um novo ciclo da cana-de-açúcar no país. Há mais de seis milhões de hectares plantados e a tendência é crescer. O interior de São Paulo responde por mais de 60% de toda a produção nacional. Estados nordestinos de tradição como Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Bahia respondem apenas por 15%.

Assim como acontece no Acre, áreas antes destinadas a pastagens e a cultivo de frutas cederam espaço à cana. A monocultura continua reinando soberana na região da mata nordestina há pelo menos cinco séculos. Os usineiros também estenderam sua rede para Estados onde antes dominava a soja, como Goiás e Mato Grosso.

Outro ponto importante é que o governo federal não mais interfere com o peso do estado do álcool e no planejamento da economia do setor, fatos que foram registrados quando da criação do Proálcool, durante o regime militar. Atualmente, cabe à iniciativa privada tocar todo o negócio.

Outra grande esperança das usinas são os carros flex. Em 2006, 77% dos veículos fabricado no país aceitam gasolina e álcool.

Seguindo a tendência nacional, a Álcool Verde também pretende vender o excedente de energia elétrica que não for consumida na fabricação do álcool. Essa energia é produzida a partir da queima do bagaço da cana.

Utilização do Bagaço da Cana

Geração de Energia

1 tonelada de cana = 250 Kg de bagaço

1 Kg de fibra > 05 Kg Vapor 1 tonelada de cana produz 20-30 KWh

Alimentação de Bovinos

1 tonelada de cana equivale a 1.718 x 10 3 Kcal

1 barril de petróleo equivale a 1.386 x 103 Kcal

470 milhões de tonelada de cana equivalem a 564 milhões de barris de petróleo - 1.545.000 barris/dia


Regiclay Saady
Gerente Agrícola da Álcool Verde, Járson Filho (abaixo), garante
que toda a legislação é respeitada

Regiclay SaadyConsolidação no primeiro apito da usina

Recém-chegado ao Acre para comandar as operações da Usina Álcool Verde, o engenheiro agrônomo Járson Filho trabalha há 25 anos no ramo. Fala com empolgação sobre os investimentos que estão sendo feitos pelo Grupo Farias e garante que todos os procedimentos seguirão o que determina a legislação ambiental.

Filho prevê que haverá uma corrida muito grande de produtores para plantar cana porque, segundo ele, é um negócio que oferece rentabilidade sem despesas provocadas pela pecuária.

“Haverá a consolidação da cana-de-açúcar no Acre quando a usina der o primeiro apito e as pessoas começarem a pôr o dinheiro no bolso”, prevê.

Gerente agrícola da empresa, Filho lembra que o Grupo Farias foi o único, dos 17 que vieram ver as instalações da antiga Alcobrás, que se interessou para investir no Acre. Hoje, lembra, são gerados 400 empregos diretos, fora aluguéis de caminhões, ônibus e maquinas pesadas.

A história da cana-de-açúcar revela que o sucesso desse setor sucroalcooleiro veio combinado com a utilização dos solos mais férteis, da renda e da saúde dos trabalhadores. No Acre, segundo o gerente, a situação será diferente porque o grupo que representa tem tradição no setor e diversos programas sociais voltados justamente para garantir que os trabalhadores tenham condições dignas.

“Todos os trabalhadores passaram por treinamento e trabalham com os equipamentos de proteção individual. Têm água gelada para beber e contam com toda logística de transporte. Só não servimos refeição porque a lei não determina. Para se ter uma idéia, são necessárias vinte pessoas para plantar cinco hectares. Todos ganham um salário de quatrocentos e quinze reais na carteira e há uma tabela progressiva de incentivos. Aqui não temos problemas com mão-de-obra. Se quisermos contrataríamos cem pessoas em Plácido de Castro, por exemplo”, explica.

Se sobra mão-de-obra, falta produtividade. Acostumados a trabalhar em outras atividades, muitos trabalhadores não conseguem produzir o suficiente para atender o nível de exigências dos empresários. Também faltam muito e justificam com atestados. Para ter um controle mais eficiente das doenças, a empresa irá contratar um médico para fazer os exames.

Essa pouca aptidão para o exercício tem explicação na origem de cada trabalhador. Recrutados basicamente em Senador Guiomard e Capixaba, são pessoas que trabalhavam como empregadas domésticas a cortador de carne num frigorífico que faliu. “Não queremos demitir ninguém. Vamos conversar e reciclar o pessoal. Agora, quem não der respostas infelizmente terá que sair.”

As pessoas são importantes nos plantios, mas a colheita não será completamente manual. Foi adquirida uma colheitadeira no valor de R$ 1 milhão que trabalha por até 120 trabalhadores. A meta é adquirir mais três. “Isso não significa que haverá demissões. Continuaremos empregando muita gente”, garante.

Járson Filho comenta sobre as dificuldades enfrentada pelo Grupo Farias para se instalar no Acre. As primeiras mudas vieram de vários Estados brasileiros e custaram até seis vezes mais do que o valor normal. Atualmente, há 19 variedades plantadas, sendo que 11 estão consolidadas na condição de solo e clima. O parque industrial da falida Alcobrás estava praticamente destruído e obsoleto. As caldeiras nunca funcionaram e foram reprovadas nos testes hidrostáticos. Será necessário investir mais R$ 25 milhões para a usina começar a funcionar.

Está havendo, segundo o gerente, todo cuidado com a preservação do meio ambiente e está sendo feito um investimento pesado na prevenção de incêndios. “Iremos plantar setecentas mudas para repovoar a nascente do Igarapé Iquiry.”

A usina também pretende gerar energia com o excedente do bagaço da cana, o que possibilitaria abastecer o município de Capixaba.

Estados onde o grupo opera

Acre

Goiás

Mato Grosso

ernambuco

Rio Grande do Norte

São Paulo


Regiclay Saady
Mulheres afirmam que atualmente têm a segurança
no trabalho que não contavam anteriormente

Mulheres respondem por 30% da mão-de-obra

Elas não usam batom, não pintam as unhas nem se produzem para ir ao trabalho. De madrugada, preparam o almoço dos filhos, põem um pouco nas suas marmitas e embarcam nos ônibus para os canaviais. Durante a viagem, algumas dormem, mas não sonham. Grávida de três meses, Lucimar Dias, 27, que espera o quarto filho, é uma delas.

Lucimar espera receber o salário do mês para poder ir ao posto de saúde de Senador Guiomard fazer uma consulta. Pediu autorização ao chefe para fazer o exame. Terá que apresentar o atestado. Ela garante que não sente o peso do trabalho e da barriga. A única coisa que a incomoda é o calor forte. “Este meu filho será apenas mais um batalhador pela vida”, diz.

São todos batalhadores e batalhadoras pela vida. Atualmente, 30% dos trabalhadores efetivos nos canaviais são mulheres. Fiscal de turma, Vanderléia da Silva, 34, trabalhava num posto de saúde em Capixaba. Ganhava um salário mínimo com pagamento irregular. Não tinha carteira assinada.

Alta, morena, de braços fortes, Vanderleia é mãe de cinco filhos. Todos ficam em casa enquanto ela vai para os canaviais ainda de madrugada. Ganha R$ 600. “Tenho tudo o que não tinha”, comenta.

O trabalho é duro, mas palavras e manifestações de satisfação são comuns. Talvez seja por falta de opção. Sem formação escolar e sem perspectiva de trabalho melhor, procura alternativas que ao menos lhes ofereçam garantias mínimas de proteção social, como a carteira assinada.

Nuriam Souza, 27, é uma dessas pessoas que buscam a proteção social. É uma das poucas não acreanas trabalhando nos canaviais. Trabalhava em Rondônia numa fábrica de cabo de vassoura. Ganhava um salário mínimo. Chegou ao Acre para trabalhar com cana-de-açúcar. Queria pegar num outro cabo: o da enxada. Foi à sede da usina, mas a empresa não estava contratando mulheres. Esperou abrir vagas. Foi admitida.

“Onde eu trabalhava saí sem ter direito e sem dinheiro. Não recebi indenização. Não tinha carteira assinada. Aqui tenho todos os direitos”, comenta Nuriam.

A história de Jocilene Castro difere das amigas. Solteira, mas mãe de quatro filhos, declara que tem “vontade no corpo inteiro de casar”.

Jocilene é filha de um produtor do Projeto de Assentamento Alcobrás. Era desempregada. No meio do canavial, declara: “Agora estou podendo dar condições de vida digna para os meus filhos”. Ela ganha apenas um salário mínimo.


Regiclay Saady
Secretário Mauro Ribeiro aposta no potencial agrícola do Acre

Área é apontada pelo ZEE como propícia para a cana, diz secretário

O secretário de Agricultura e Pecuária, Mauro Ribeiro, é um dos maiores entusiastas do projeto Álcool Verde. Ele tomou como uma das principais bandeiras da sua administração a reativação do projeto que iniciou com o nome de Alcobrás, em setembro de 1983.

A Alcobrás consumiu alguns milhões de reais obtidos por meio de financiamento no Banco do Brasil. Iniciou a produção em 1987. Funcionou imprecisos 15 dias. Faliu. O banco nunca recebeu o dinheiro investido de volta.

Após a experiência mal-sucedida por conta de erros técnicos e administrativos, a Alcobrás foi abandonada até 2005, quando foi aberta uma negociação entre o Banco do Brasil e o governo do Estado, que adquiriu os bens remanescentes por R$ 2,7 milhões sem desembolsar um real.

Depois de concretizada a negociação entre o governo e o banco, entra em cena um terceiro personagem: o Grupo Farias, que arrendou os bens adquiridos pelos mesmos R$ 2,7 milhões, repassando o dinheiro direto para a instituição financeira.

Na composição dos acionistas da Usina Álcool Verde, o Grupo Farias é majoritário, com 60%. O empresário Maurílio Biaggi tem 10%, empreendedores acreanos ficaram com 25% e o governo do Estado com 5%.

“Foi um ganho enorme a garantia de que o governo e os empresários acreanos participarão como sócios”, comenta Mauro Ribeiro.

Ribeiro revela que, durante a luta para tentar reabrir a usina, recebeu em Rio Branco 17 representantes de grupos interessados. Fez o mesmo roteiro com todos para não gerar clima de que estaria beneficiando concorrentes.

O secretário diz que resolveu enfrentar o desafio após analisar os rumos que o mercado de etanol está tomando e com base no Zoneamento Econômico-Ecológico (ZEE) do Estado. “O zoneamento revela que a região é propícia para o plantio de cana-de-açúcar”, informa.

Em meio às preocupações sobre os impactos ambientais que a usina poderá provocar na região, o secretário descarta essa possibilidade, afirmando que o governo tomou todos os cuidados para que isso não venha acontecer. “Desde o começo deixamos claro que não aceitaríamos desmate nem queimada.”

Mauro Ribeiro completa a informação dizendo que o cultivo de cana só é viável em áreas de pastagens degradadas porque a substituição da floresta para essa atividade custa muito caro e causa impactos ambientais negativos e desnecessários. No entorno da região há 84 mil hectares de pastos. Segundo ele, o Acre tem uma área de 16 milhões de hectares, sendo que há 300 mil degradados. “No ápice da produção, a usina irá precisar de 38 mil hectares. Isso é uma quantidade ínfima.”

Contrariando argumentos de críticos, Ribeiro garante que, em vez de prejudicar a terra, a cana consegue recuperar toda a área porque a empresa está investindo nessa recuperação antes de fazer a plantação. “Para preparar um hectare, a empresa gastou cerca de 4.500 reais. Os locais onde ocorreram o plantio estão com o PH muito baixo.”

Divisão percentual dos acionistas da usina

60% GRUPO FARIAS (PE)

10% MAURÍLIO BIAGGI

25% EMPREENDEDORES ACREANOS

5% GOVERNO DO ACRE

Histórico
A destilaria Álcool Brasileiro S/A – Alcobrás foi fundada em 2 de setembro de 1983.
Início da produção: 1987
Produziu álcool hidratado durante 15 dias

Regiclay Saady
Grandes áreas antes destinadas a pastagens estão sendo
ocupadas pela cana; a intenção do Grupo Álcool Verde é plantar
38 mil hectares quando estiver no auge da produção


Arquivo
Assuero defende que venham
mais usinas para o Estado

É preciso acabar com os mitos

O desafio do Acre é superar o atraso tecnológico e os mitos que ainda insistem em assombrar os acreanos. Esse é o argumento do presidente da Federação da Agricultura do Estado do Acre, Assuero Doca Veronez, para defender a implantação da Usina Álcool Verde na região de Capixaba.

“Temos que ampliar nossas possibilidades. O Acre carece de investimentos econômicos fortes. Digo isso porque não chegaremos ao tão sonhado desenvolvimento sem um setor produtivo forte”, comenta.

Um dos mitos que precisam ser superados, segundo Veronez, é o de que não se pode plantar cana e produzir álcool na Amazônia, sob o argumento de que não haveria adaptabilidade. “Também é improcedente a história de que a cana irá provocar novos desmatamentos na região, prejudicando o meio ambiente, e que utiliza mão-de-obra degradante”, diz.

Veronez afirma que esses mitos partem de informações não confiáveis porque os indicadores existentes não confirmam os argumentos dos críticos. De acordo com o presidente, a cana vai utilizar um percentual reduzido das pastagens do Estado - algo em torno de 2,5%.

“Se forem instaladas três usinas, por exemplo, serão utilizados sete e meio por cento de toda área de pastagem do Estado. Isso de forma concentrada.”

Para Veronez, a reativação da antiga Alcobrás representa não só a recuperação de um patrimônio marcado pelo insucesso, mas a implantação de um empreendimento que trará tecnologia agrícola de ponta com impacto sócio-econômico significativo no Acre.

“É uma oportunidade de o Acre se inserir num segmento que vive um momento especial, face à importância que o etanol passa a ter no cenário da economia mundial.”

Assuero Veronez afirma que vê com bastante otimismo a implantação do cultivo da cana-de-açúcar e a produção de etanol porque haverá impacto positivo nos municípios de Senador Guiomard e Capixaba.

Nesse novo momento, na avaliação dele, compete aos empresários e às autoridades dar o apoio necessário para que a usina comece a funcionar de forma rápida e corretamente. “É bom salientar que a cana tem se mostrado viável, confirmando nossa vocação agrícola.”

O presidente da Federação da Agricultura chama a atenção para a logística de exportação para o mercado internacional, destacando a construção da Estrada Interoceânica. Segundo ele, é preciso procurar alternativas para viabilizar a instalação de mais unidades no Estado para que haja escala de produção. “O mundo será cada vez mais dependente de energia renovável.”

Assuero Veronez é pecuarista. Tem propriedade na região de Capixaba. Arrendou 50 hectares, mas pretende chegar aos 500. “A atividade agrícola, inclusive a cana, tem proporcionado mais rentabilidade do que a pecuária.”


Arquivo
Promotora Meri Cristina aponta falhas no EIA

MPE pede suspensão da licença ambiental

Apesar de considerar a Usina Álcool Verde o maior empreendimento instalado no Acre desde sua emancipação política e administrativa, em junho de 1962, o Ministério Público Estadual (MPE), por meio da Promotoria do Meio Ambiente, não está disposto a dar vida fácil ao Grupo Farias e seus associados. A promotora Meri Cristina do Amaral determinou que o Instituto do Meio Ambiente do Acre (Imac) suspenda a Licença de Instalação.

Num relatório de 11 páginas, a promotora exige que seja feita uma reavaliação do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado pelo Grupo Farias. Ela frisou que a recomendação foi feita após a leitura detalhada do estudo de impacto ambiental fornecido, tendo sido identificadas falhas consideradas “irreparáveis”.

A recomendação aponta dez pontos falhos. Entre eles, o documento não foi elaborado conforme determinam as diretrizes gerais estabelecidas pelos artigos 5º e 6º da Resolução Conama n.º 001/86, o qual traz consigo um Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), haja vista que no apresentado inicialmente não consta essa exigência.

Meri Cristina recomenda, ainda, que o próximo estudo seja elaborado por uma equipe verdadeiramente multidisciplinar. As mesmas exigências envolvem o processo de licenciamento do cultivo da cana, para o qual é necessário, também, Estudo de Impacto Ambiental.

A promotora argumenta a participação de técnicos do Ibama na equipe interinstitucional para avaliação do futuro Estudo de Impacto Ambiental. Ela justifica alegando que o Imac, por estar ligado à administração direta do Estado, é “parte interessada na consecução das licenças”. A participação do órgão federal daria maior legitimidade ao processo.

A representante do MPE também exige a presença do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para a análise dos aspectos referentes ao patrimônio histórico e cultural da região.

“Outro ponto frágil, passível de crítica e também capaz de acarretar a rejeição do presente estudo é a ausência total de análise do componente arqueológico, verificando-se, inclusive, a ausência de um profissional habilitado para a execução dessa tarefa de investigação.”

Falta no estudo apresentado, segundo a promotora, um item considerado por ela importantíssimo: informações sobre a quantidade de água disponível na área do empreendimento.

“Não há caracterização da bacia hidrográfica da região, não há sequer menção aos cursos hídricos que estejam próximos ao empreendimento. Na página 48 há tão somente menção ao ‘rio Acre e pequenos igarapés’, sem sequer citar os nomes dos igarapés, desqualificando o presente trabalho.”

No final do relatório, a promotora alega que aspectos de impactos sócio-culturais não podem ser desconsiderados. Segundo Meri Cristina, o plantio da cana e o processo industrial que envolve a produção de álcool afetarão drasticamente o modus vivendi da população de Capixaba, especialmente a dos Projetos de Assentamento Alcobrás e Zaqueu Machado. “Não só incrementando a economia da localidade, mas introduzindo novos hábitos culturais, os quais precisam ser indicados e analisados, por exemplo, os reflexos nos hábitos referentes às suas culturas de subsistência.”

As recomendações foram encaminhadas à presidente do Imac, Cleisa Cartaxo, a quem caberá determinar o cancelamento ou sugerir que sejam feitas correções.


Regiclay Saady
Donos dos seringais têm a expectativa de vender a
produção para a fábrica de preservativos de Xapuri

Sim, há seringais na paisagem da cana

Em meio à paisagem preponderante de cana e boi, é possível ver que a árvore que atraiu os olhos do mundo para o Acre ainda resiste e serve como fonte de renda para proprietários e seringueiros.

São quatro seringais de cultivo entre Senador Guiomard e Capixaba. Um deles pertence à família Cogo e começou a ser plantado há 24 anos, com financiamento do Banco Brasil.

São 15 mil pés de seringueiras que produzem até 25 mil quilos de borracha por ano. Com o quilo vendido a R$ 1,73, acrescido de um subsídio de 70 centavos, é possível ter um faturamento médio anual de R$ 60,7 mil. A extração do látex é feita por seringueiros da região, que trabalham como meeiros. Toda produção é vendida para uma cooperativa com sede em Rio Branco.

Importante para dar rentabilidade e garantir um reserva florestal, a seringueira nunca foi o principal foco dos proprietários da área localizada no quilômetro 33 da BR-317 entre Senador Guiomard e Capixaba. Desde o início, foram feitas experiências de plantio em consórcio. A primeira foi com café.

“Na época que fizemos essa experiência houve restrição de alguns órgãos. Hoje, essa é uma técnica recomendada”, explica o engenheiro agrônomo Jefferson Cogo, 43.

Cogo comenta que na propriedade de 240 hectares também foram plantados 30 hectares de cacau, que era comercializado para uma empresa rondoniense. Essa cultura não existe mais.

Ele revela que ajudou o pai, Amândio Cogo, a fazer o plantio quando ainda era criança. Enquanto a maioria dos produtores da região vive a expectativa da cana-de-açúcar, ele está de olho num outro empreendimento localizado a 110 quilômetros: a fábrica de preservativos de Xapuri. “Vivemos a expectativa de poder vender a nossa produção para a fábrica.”

Cogo, no entanto, não descarta a entrada no ramo da cana-de-açúcar. Diz que não o fez ainda porque a área da família é pequena, o que poderia atrapalhar a principal atividade da fazenda: a criação de vaca leiteira.

“Iremos entrar num segundo momento, quando a usina estiver produzindo. Mas nós não arrendaremos. Iremos plantar e vender”, adianta.


Regiclay Saady
Delegado do Trabalho afirma que empresa tem boa vontade

Delegacia Regional do Trabalho defende fortalecimento do sindicato

Em janeiro deste ano, auditores fiscais da Delegacia Regional do Trabalho (DRT) foram aos plantios de cana ver as condições a que estavam submetidos os trabalhadores. A idéia era fazer um trabalho educativo, mas foram feitas várias autuações.

Desde então, o órgão não voltou mais ao local, mas sabe que a empresa tomou as providências para atender as recomendações dos auditores. “Passamos um dia inteiro. Conversamos com os trabalhadores e com os responsáveis pelo empreendimento, que demonstraram disposição para resolver os problemas detectados”, informa o delegado regional do Trabalho, Manoel Neto.

Neto admite que a DRT não dispõe de estrutura para se fazer presente com freqüência nos canaviais. Em todo o Estado há apenas 11 auditores fiscais para atender uma demanda de serviço muito grande. Por isso, defende o fortalecimento do sindicato rural como parceiro do órgão para denunciar possíveis irregularidades.

“Recomendamos que todos os trabalhadores se sindicalizem.”

Essa parceria com o sindicato, explica Neto, é fundamental porque o trabalho nos canaviais é bastante vulnerável a acidentes, apesar de os responsáveis pela usina terem garantido que a tecnologia a ser empregada dispensará a queima.

“Esse é um empreendimento que terá impacto econômico e social muito grande. Não queremos prejudicar ninguém. Mas qualquer denúncia iremos dar prioridade”, alerta.

Segundo o delegado, em razão da falta de funcionários suficientes, o órgão trabalha priorizando atividades. Denúncias de trabalho escravo, trabalho infantil, atraso de salário e risco de segurança são atendidas imediatamente.


Regiclay Saady
Atualmente, os trabalhadores estão apenas
fazendo a manutenção dos plantios existentes

A história da cana-de-açúcar

Foi nas ilhas da Polinésia, na Antiguidade, que a cana começou a ser cultivada. Antes de chegar à América, passou pela China e Índia. Durante o florescimento da civilização persa, foram desenvolvidos métodos para a cristalização do mel da planta, sendo possível obter um açúcar rudimentar.

Somente a partir do século 10, os europeus passaram a consumir o açúcar em larga escala, no período em que houve a expansão do império islâmico para o ocidente.

No Brasil, as primeiras mudas foram trazidas por Martim Afonso de Souza, em 1532. O plantio foi feito em São Vicente, no litoral paulista. Aqui, ela sempre ocupou os solos mais férteis. Também foi o primeiro instrumento utilizado pela coroa portuguesa para solidificar o domínio sobre a colônia recém-ocupada.

O sistema de produção foi assentado na monocultura, na mão-de-obra escrava e em enormes propriedades que contavam com a proteção do Estado. Como não podia ser diferente, houve uma grande concentração fundiária e produziu extrema pobreza.

Por estarem mais próximas dos portos europeus, o que facilitava a exportação do produto e a importação de escravos, as capitanias hereditárias de Pernambuco e Itamaracá foram os pontos de referência no período colonial.

A economia canavieira é mais recente no Centro-Sul do Brasil. Chegou a partir do fim do século 19 trazida por descendentes italianos, que ficaram ricos com o café. Os campos antes destinados a pastos, algodão e café foram ocupados por cana. Os canaviais começaram na região de Campinas e chegaram a Ribeiro Preto, onde hoje estão os maiores produtores do setor sucroalcooleiro do Brasil.

Início da produção do álcool

A ampliação dos plantios de cana pelo país afora há muito tempo deixou de ter como principal meta a produção de açúcar. Os usineiros estão de olho na exportação de etanol para os mercados internos e externos.

Vendido atualmente como uma grande revolução em combustível, o etanol não é algo tão novo - foi utilizado pela primeira vez durante a I Guerra Mundial, mas aprodução era feita de maneira artesanal.

Em 1973, quando veio a grande crise do petróleo, o governo militar decidiu apostar num programa que garantisse a autonomia do Brasil na geração de combustível. Veio o Proálcool.

O programa não teria ido longe se não fosse a intervenção governamental para financiar os produtores. As despesas para a geração e a produção de álcool eram maiores do que as da gasolina

Os preços do álcool nas bombas eram determinados por lei específica. Era permitido ser cobrado até 65% do valor cobrado pela gasolina. Se os custos fossem superiores ao arrecadado nas vendas, a Petrobras cobria a diferença.

Eram grandes os incentivos para a compra de carros a álcool. Até 1989, quem resolvesse comprar um veículo movido a etanol obtinha desconto considerável no Imposto de Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).

Apesar de tantos incentivos, o Proálcool morreu na década de 90. O principal fator que contribuiu para a decadência foi o desabastecimento provocado pela falta da capacidade das usinas de suprir a demanda. A compra de carros movidos a álcool deixou de estimular os consumidores.

 
 
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Rio Branco-AC, 7 de outubro de 2007
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