OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

“Cuando los hombres lloran, por algo lloran” *

Quanto mais aprendo sobre a história do Acre mais me convenço da necessidade de revê-la completamente. Afinal, a pergunta é inevitável: como seria a história do Acre escrita não mais a partir do Brasil, mas a partir dos Andes? Essa é apenas uma das maneiras possíveis de começarmos a compreender o que existe no avesso da história acreana até aqui escrita. E antes que me esqueça, o texto abaixo é ficcional, apesar de baseado em informações históricas.

Diário de campanha do cabo boliviano Hernan Lopez

25 de outubro de 1899 - Estamos começando hoje uma grande aventura. Minha alma de soldado está feliz porque finalmente terei oportunidade para provar meu valor. Não existe nenhuma felicidade maior do que a guerra para um homem que se quer guerreiro.

Esse é o sentimento que toma conta de toda a tropa quando saímos de La Paz para cumprir importante missão na selva. É verdade que sabemos muito pouco acerca do que nos espera. Só sei que na região do rio Acre, alguns brasileiros insistem em não reconhecer nossa soberania sobre aquelas terras. Portanto somos portadores da grave missão de impor a lei e a ordem sobre aquela sociedade degenerada.


Foto de cima retrata o exército boliviano no acampamento de Puerto Alonso
durante o período revolucionário. Álbum do Rio Acre 1906-07

Nunca mais poderei esquecer essa manhã de um sol radiante que ilumina o nosso caminho, como que nos desejando boa sorte e sucesso.

31 de outubro - Nosso comandante, Dom André Muñoz, novo Delegado Nacional da Republica, conduz os soldados com altivez pelo altiplano andino. Porém os 3.000 metros de altitude das montanhas, a aridez das estepes e o peso do equipamento militar torna a caminhada bastante cansativa.

25 de novembro - Completamos um mês de jornada e só agora alcançamos a região de neve eterna. Agora temos que atravessar os afiados cumes da Cordilheira Real dos Andes, cujos picos brancos eternamente nevados rasgam o céu. O ar muito fino parece não ser suficiente para encher os pulmões ansiosos por oxigênio. Por todos os lados os soldados, e mesmo os oficiais que viajam menos carregados, dão mostras de cansaço. Mas nosso comandante não nos deixa esmorecer lembrando-nos da importância de nossa missão.

9 de dezembro - Depois de tantos dias de caminhada por entre os abismos e penhascos da descida dos contrafortes do oriente alcançamos as ultimas encostas andinas e pudemos ver, pela primeira vez, um espetáculo soberbo. A selva imensamente verde preenchendo o horizonte com um mar de folhas até onde alcança nosso olhar. Larga planura somente recortada pelas águas tranqüilas do rio Beni.

14 de dezembro - Alcançamos Riberalta, povoado à margem do rio Beni, onde Dom Muñoz estabeleceu nosso acampamento base. Do rio Acre chegam notícias alarmantes. Um espanhol chamado Galvez conflagrou todo o Acre proclamando uma Republiqueta da borracha. Mas antes de marchar sobre o Acre precisávamos repor nossas forças depois da extenuante caminhada. Pelo menos ainda poderemos ter um natal tranqüilo esse ano.

02 de Março de 1900 - O Major Tapias foi ao Acre e voltou com mais noticias ruins. O governo de Souza Braga que tomou o lugar de Galvez é ainda mais duro no que diz respeito a nós bolivianos. Por isso nosso comandante decretou estado de sítio em todo o território do noroeste e começou a recrutar homens, víveres, armas na vasta região do alto e baixo Beni, Vila Bela, Madre de Díos e afluentes do Orton. Impressionante é perceber que nossa própria população não nos dá apoio material ou moral. Parecem completamente indiferentes à sorte do Acre.

01 de maio - Partimos de Riberalta em direção a Mercedes, barracão no rio Órton, que tornou-se nossa nova base de operações. Começamos imediatamente a abrir um varadouro em direção ao rio Acre que permitisse o deslocamento dos 400 homens que agora integram nossa tropa.

30 de junho - Noticias mais tranqüilizadoras nos chegam do Acre e motivam o animo da tropa. A flotilha federal afastou Galvez e parece haver mais receptividade a um governo boliviano. Dom Muñoz nos dá ordem para preparar a partida rumo ao Acre. Finalmente chegaremos ao teatro das operações e poderei provar meu valor em combate.

22 de agosto - Chegamos ao seringal Capatará com D. Muñoz e mais 200 homens.

30 de agosto - Ao passarmos pelo Seringal Humaitá, um dos mais ricos do Acre, fomos recebidos com honras pelo Capitão Leite, defensor da causa boliviana.

22 de setembro - Chegamos a Puerto Alonso, quase um ano após nossa partida de La Paz. Dom Muñoz recebeu o povoado das mãos de Alberto Moreira Júnior, arrendatário legal da alfândega. Nosso comandante decretou o fim do estado de sítio e proclamou um manifesto que falou em paz e ordem, com respeito às propriedades constituídas e com justiça para todos. Finalizou com um elogio para os soldados que efetuaram a longa travessia. Bem que a gente mereceu.

Nossa animação é ainda maior quando recebemos notícias dando conta de que as duas novas expedições que partiram da Bolívia, uma sob o comando do Ministro da Guerra e outra do próprio Vice-presidente da Bolívia, estão próximas do Acre.

19 de outubro - Recebemos a grave noticia de que em Bagaço o Cel. Gentil Norberto aprisionou nosso Vice-presidente Velasco e o Ministro da Guerra Ismael Montes. Por isso Dom Muñoz ordenou que movimentássemos as tropas visando libertar aquelas autoridades. Porém, sentindo que sua situação não era das melhores, o facínora brasileiro Gentil Norberto voltou atrás e libertou nossos comandantes.

30 de outubro - Partimos de Puerto Alonso para Capatará sob o comando de Dom Muñoz para angariar víveres enquanto o Cel. Ismael Montes ficou de trazer o restante da tropa estacionada no Órton. A situação de Puerto Alonso é precária, falta comida, a beribéri grassa e faz inúmeras baixas. Eu também já estou doente, mas de impaludismo. A moral de todos os soldados está cada vez mais baixa.

20 de Novembro - A situação é grave. Estão ocorrendo diversos incidentes e guerrilhas entre os militares e milícias brasileiras armadas ao longo do rio. Tocaias e pequenos combates já explodiram no Paperi, no Cajueiro, na Volta da Glória e no Bom Destino. A lancha Íris que fazia os contatos entre nossas tropas de Puerto Alonso e da Volta da Empreza, foi alvejada durante a viagem. Chegam boatos de que uma expedição armada pelo governo do Amazonas já sobe o rio.

12 de dezembro - Novas notícias dão conta que as tropas do Órton comandadas por Ismael Montes se estabeleceram no seringal Riosinho e foram atacadas pelos acreanos pela manhã em três flancos sob o Comando de Hipólito Moreira e Edmundo Bastos. Uma hora depois José Alexandrino e Leonico Moreira chegaram com mais homens pelo lado oposto do rio. O tiroteio durou duas horas ao fim dos quais os acreanos foram postos para correr. Ficamos todos animados com essa vitória, mas ninguém conseguiu disfarçar a preocupação que sentimos ao saber da morte de pelo menos cinco dos nossos durante o combate. Uma guerra sempre é cruel e cobra alto preço pela glória.

24 de dezembro - A situação está cada vez mais difícil. Se não nos matam os brasileiros da tal Expedição dos Poetas que já nos cerca em Caquetá, nos mata a fome. Não temos mais víveres e a retirada é eminente. Além de fraco estou imensamente triste porque o impaludismo tomou conta de mim e já nem posso guerrear. Destino ingrato que me fez vir lutar nestas distantes florestas perdidas do mundo. Porque temos que nos sacrificar desse modo desumano se estas terras são legitimamente nossas? Que pecado o povo boliviano cometeu para ter esse destino de ser assaltada por todas as outras republicas da América Latina? Certamente um pecado tão grave quanto o meu, que ousei sonhar com as honras da guerra, mas só ganhei cicatrizes pelo corpo, fome e medo de ser morto em uma emboscada inglória. E essa maldita doença que me consome...

Ouço tiros lá fora... É o combate que começou... Preciso me juntar aos soldados... agora...

Tellegrama oficial do Exército Boliviano à família.

Comunicamos morte Cabo Hernan Lopes VG morreu Puerto Alonso VG 24/12/1900 VG motivo impaludismo PT

* O titulo deste artigo é na verdade uma frase do General Baldivieso descrevendo anos depois os acontecimentos do Acre (in Tocantins, 1979, pag.417).

 

 
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Rio Branco-AC, 7 de outubro de 2007
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