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Câncer na periferia Doença deixa de ser tratada apenas como algo que atinge ricos |
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Até os 13 anos de idade, Regiane Santos de Araújo era uma adolescente normal e ativa. Corria, pulava, brincava de boneca e praticava esportes. Hoje, aos 15, não faz mais nada disso. Passa os dias e noites deitada num colchão d’água, em uma modesta casa de madeira na Travessa da Judia, número 311, no bairro Mauri Sérgio. Ela tem câncer ósseo. A doença enfraqueceu seus ossos e lhe roubou os sonhos e esperanças. Na parede da humilde casa, as bonecas penduradas são tristes e mal cuidadas. Parecem sentir a dor da menina. Obrigada a conviver com a dura realidade nos últimos anos, Regiane não gosta mais de boneca. Prefere a fofura dos ursinhos de pelúcia, que são mais alegres e coloridos. “Os ursinhos da Parmalat são mais divertidos e bonitos”, diz com dificuldade. Regiane começou a sentir os primeiros sintomas do câncer dentro da sala de aula, na escola João Mariano, no Taquari, onde estudava a quarta série. Com a doença detectada, foi encaminhada para fazer tratamento em Goiânia. Na capital de Goiás, um erro médico lhe tirou a possibilidade de andar. Sem dinheiro e sem poder de voz para reclamar, foi enviada de volta a Rio Branco, sem laudo médico ou qualquer outro documento que pudesse apontar a barbeiragem profissional dos especialistas goianos. O sofrimento da menina, que tem parte do rosto deformado pelos efeitos do câncer, é acompanhado de perto pela mãe, Socorro Santos, 46, que foi demitida do emprego num restaurante chique da cidade por ser obrigada a faltar dias de trabalho para cuidar da filha.
“Ele me demitiram e não me ajudaram em nada. Para piorar, descontavam parte do meu salário quando eu faltava. Com tanta ruindade, um dos filhos do proprietário foi eleito vereador”, lamenta Socorro. Sem dinheiro do salário no restaurante, a família se mantém com doações e o salário mínimo recebido por Regiane do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Na casa, não há qualquer sintoma de ostentação. Quase tudo que tem foi doado por almas caridosas, que se comoveram com a situação da moça ao verem reportagem numa emissora de televisão local. Elas ganharam roupas, lençóis, comida, geladeira, fogão e colchão. Mas, entre todos os produtos recebidos, há um preferido: a televisão de 14 polegadas. É nela que Regiane gosta de assistir novela. Diante da tela, entre o glamour e a beleza dos artistas, ela não sonha. Pensa apenas em um dia ficar boa para voltar a sorrir e ajudar pessoas que sentem necessidade de receber carinho e palavras de conforto. Palavras que são levadas a ela e à mãe pelos voluntários da Associação Amigos do Peito, entidade sem fins lucrativos criada em janeiro de 2002 e que hoje atende 180 pacientes em todos os bairros da capital. Os paciente cadastrados na associação são poucos no universos de doentes. Ainda há um preconceito que impede muitas pessoas de se assumirem cancerosas porque acham que isso é um castigo divino vinculado à morte. Quem tem medo de se expor comumente faz parte de famílias mais abastadas, que acreditam não precisar de apoio de entidades como a Amigos do Peito. Mas a situação vivida por Regiane mostra que o câncer, há muito tempo, deixou de ser considerado apenas doença de ricos. Ele não escolhe suas vítimas. Está na periferia, onde chega, entra sem bater e atinge em cheio os lares mais pobres. Essas pessoas quase sempre são desprovidas, além dos recursos materiais e financeiros, de recursos verbais para reivindicar seus direitos. É nesse contexto que entra a Associação Amigos do Peito. Sua importância pode ser percebida pelo brilho que ganham os olhos dos doentes quando uma das voluntárias, conhecida por Leninha, chega e diz: “Bom dia, flor do dia!”. É a certeza de que, além de palavras de conforto, os Amigos do Peito estão chegando com roupas, remédios e alimentos para matar a fome de respeito e solidariedade de que cada um necessita. “Sem o pessoal da associação eu não sei o que faria. Eles são anjos que estão nos ajudando a superar todas as dificuldades”, relata Socorro Santos.
Médicos desenganam, mas Sebastiana acredita que terá cura Da varanda de sua casa no bairro Jorge Lavocat, a ex-empregada doméstica Sebastiana da Silva de Assis, 44, tem uma vista nada animadora. Do lado direito fica o cemitério Jardim da Saudade. É ali que está enterrado o corpo do marido, o padeiro Lucimar da Silva de Assis, com quem teve quatro filhos. Ele morreu em 1999 de leucemia. Fumante durante 30 anos, ela está com câncer no pulmão e na mama direita. Sem os cabelos, que caíram em razão do tratamento, Sebastiana foi desenganada pelos médicos tanto em Teresina (PI) quanto em Porto Velho (RO). Tem três tumores no pulmão, de onde os especialistas retiraram dois litros e meio de água há 15 dias. Desenganada pelos especialistas, ela encontra forças para continuar lutando na fé. Na parede de sua casa um quadro diz: “Onde há fé, há amor. Onde há amor, há paz. Onde há paz, há Deus. Onde há Deus, nada falta”. É nessa confiança em Deus que Sebastiana se apega. Diz que somente isso a mantém viva, porque, desde que parou de trabalhar, a situação está difícil. Falta dinheiro até para comprar lápis e caderno para que o filho caçula Luciano, 16, leve à escola Glória Peres, onde estuda o 1º ano do ensino médio. “Espero ficar boa porque tenho coragem de trabalhar. Para você ter idéia, ainda hoje tem gente esperando eu me recuperar. Mas, enquanto isso, quero cercar meu quintal de ripa para criar galinha e ter uma renda”, diz.
“Se não fosse a associação, não sei o que seria de mim” A casa não tem 16 metros quadrados. Fica numa travessa coberta de mato que tem o pomposo nome de Guanabara, no bairro Tancredo Neves. É ali que Raimunda de Souza Araújo, 41, vive com oito filhos e três netos. Sem nunca ter posto um cigarro na boca, ela descobriu há oito meses que tem câncer no pulmão. “Depois que descobri a doença, não tive mais condição de trabalhar como empregada doméstica”, revela. Com o olhar triste e cercada de crianças - o filho mais novo tem um ano e dois meses -, ela não tem marido. Diz que sua situação não é pior porque os amigos do peito estão lhe dando todo apoio necessário para continuar lutando. Mas essa luta pela vida às vezes parece impossível porque o tratamento de quimioterapia lhe rouba as forças e a faz pensar que não agüentará. “Viajo dia 18 para Porto Velho. Sei que será difícil. Mas, se não fosse a Associação Amigos do Peito, não sei o que seria de mim.” Presidente da associação luta contra o câncer novamente Há quatro anos, a engenheira agrônoma Almaísa Rosângela Pereira Wolstein, 50, começou a suspeitar durante exame preventivo que poderia ter algum problema na mama esquerda. Em Rio Branco, nada foi confirmado. Ela viajou imediatamente para São Paulo, onde, no Hospital do Câncer, a doença foi detectada somente após o terceiro exame. “Meu câncer estava alojado na base do mamilo, um local muito difícil para ser localizado no exame simples. O impressionante é que, depois de descoberto, ele cresceu de forma assustadora. Em 45 dias o nódulo ficou do tamanho de um limão”, diz. Para superar a doença, Almaísa, que atualmente está na presidência da Associação Amigos do Peito, contou com o apoio decisivo do esposo e dos dois filhos, que se mudaram para São Paulo e ficaram durante dois anos. Na capital paulista, ela se submeteu a 28 sessões de radioterapia, seis de quimioterapia, fez mastectomia radical e esvaziamento axilar. Agora, ela está novamente enfrentando o câncer. Ele voltou e se alojou nos ossos. Espírita kardecista, ela se mostra disposta a continuar lutando. Já fez dez sessões de radioterapia, e está tomando medicamentos quimioterápicos e injeções para fortalecer os ossos. Quando perguntada sobre o futuro, Almaísa não titubeia: “Venci uma vez e vou vencer de novo”.
Quem são os amigos do peito A Associação Amigos do Peito é formada por um grupo de pessoas voluntárias que se dedicam no apoio à pessoas que estão ou foram acometidas de câncer. A entidade nasceu em função de experiências individuais, principalmente da juíza Maria Tapajós Areal, que foi fazer tratamento em Belo Horizonte e viu uma associação desse tipo. Atualmente, a Amigos do Peito conta com 60 voluntários cadastrados, entre diretos e pontuais. A entidade tem várias linha de atuação social, como marcação de consulta, exames e perícias para obter benefícios no INSS. Os Amigos do Peito também fazem visitas domiciliares, doam cestas básicas, vale-transporte e todo tipo de apoio. Como não tem nenhum tipo de convênio para obtenção de recursos dos órgãos estaduais, municipais e federais, a associação conta com a parceria de empresas privadas, promove eventos e tem o apoio decisivo da sociedade civil. A associação funciona na sala 204, no prédio do Cecon, na rua José de Melo, em frente ao Hospital da Criança. Os telefones para contato são: 223-7873 e 9979-0295. O endereço eletrônico é: amigosdopeito_ac@ibest. com.br. O que é o câncer? O câncer é a multiplicação descontrolada de células defeituosas ou atípicas, que escapam ao controle do nosso sistema imunológico por algum motivo até hoje desconhecido. |
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