| ESPECIAL | |
| ESPECIAL | |
A beleza do Pacífico está bem próxima do Acre Última etapa da viagem mostra o esplendor do deserto de Atacama e os incríveis vales e montanhas do Peru e da Bolívia |
|
Quem sai do Acre, passa por Cuzco e vai até Lima, capital do Peru, tem a oportunidade de desfrutar três mil quilômetros da costa do Pacífico, percorrendo praias, deserto e outras paisagens inesquecíveis, bem mais próximas do que as praias do Centro-Sul e do Nordeste brasileiro. Seguindo a rota que alguns acreanos já fazem pela Rodovia do Pacífico durante o verão amazônico, este repórter, o fotógrafo José Diaz e a equipe de reportagem da TV Nacional passamos dois dias conhecendo a famosa “Cidade dos Reis”, nome dado a Lima em 1535 pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro. A capital peruana encanta por seus museus, conventos, igrejas e casarões de estilo colonial, que deram à cidade o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. De Lima, a opção de viagem pela costa do Pacífico segue para o Norte rumo a Tumbes, na fronteira com o Equador, ou para o Sul, em direção a Tacna, na fronteira com o Chile, sempre percorrendo a bem pavimentada rodovia Panamericana, que permite a qualquer cidadão viajar pelas três Américas. E foi para as praias do Sul que seguimos viagem para alcançar as cidades portuárias de Matarani e Ilo, as mais próximas do Acre, a pouco mais de 1.900 quilômetros de Rio Branco. Uma segunda opção rodoviária em estudo pelo governo peruano, entre Puente Inambari, na selva, e Puno, próximo ao Lago Titicaca, vai permitir que a ligação rodoviária de Rio Branco ao Pacífico seja reduzida para cerca de 1.500 quilômetros. Este terceiro encarte da série de reportagens “Do Acre ao Pacífico” trata da viagem que fizemos durante 20 dias para mostrar a integração rodoviária entre a Amazônia brasileira e os vizinhos do Peru e da Bolívia, países que tendem a formar, junto com o Equador, a Colômbia, a Venezuela e as Guianas, o chamado Merconorte, o Mercado Comum do Norte, o último grande bloco de países da América do Sul que falta para consolidar a integração econômica, social e cultural das Américas. Saindo de Rio Branco, passando por Lima, La Paz (capital boliviana) e retornando à capital acreana, percorremos o total de 5.300 km de rodovias. Neste encarte, retratamos o percurso de 3.020 km que separam Lima de cidades peruanas como Pisco, Ica, Nazca, Camaná, Ilo, Matarani, Arequipa e Moquegua, e de cidades bolivianas como Desaguadero, na fronteira com o Peru, La Paz e Guayaramirim, já na fronteira com a cidade rondoniense de Guajará Mirim, de onde regressamos pela BR-364 até Rio Branco. De Lima a Arequipa, a segunda cidade do Peru, são ao todo 966 quilômetros pela rodovia Panamericana, que ora se situa junto às belas praias do Pacífico, ora fica entre a costa e o deserto de Atacama e algumas vezes passa por dentro do próprio deserto, que nasce no Chile e é considerado o mais seco do mundo. Cerca de 240 km depois de Lima alcançamos a cidade de Pisco, situada numa das regiões de maior produção de pisco (espécie de cachaça) e vinhos. Do porto da cidade, formada por uma população predominantemente crioula que habita em casas de estilo colonial, se pode observar tartarugas e peixes abundantes. De Pisco, percorremos 70 km até Ica, também cidade pequena, já afastada da Costa, onde se pode comer massas, frangos e peixes, acompanhado do bom vinho da região.
Linhas de Nazca formam calendário astronômico A meia hora de Ica, a paisagem se transforma em deserto arenoso, com o vento formando pequenas tempestades de areia ao lado do asfalto novo da Panamericana Sul, onde se pode desenvolver boa velocidade. Ali, se passa por um dos lugares mais impressionantes do Peru, onde estão situadas as famosas linhas de Nazca, cidade situada a 150 km de Ica e centro de uma cultura que se formou entre os séculos II antes de Cristo e VII depois de Cristo. As enigmáticas linhas de Nazca são constituídas de 12 figuras de animais gravadas entre centenas de linhas retas que se cruzam e formam figuras geométricas como trapézio e triângulos no meio do deserto. Estudadas durante muitos anos pela alemã María Reiche, as linhas de Nazca parecem se constituir num monumental calendário astronômico, cujas figuras marcam os distintos períodos ou fases solares. Há, ainda, os que acreditam se tratar de pistas de aterrissagem para naves de extraterrestres. Antes que se resolva o ancestral mistério que as cercam, as linhas de Nazca também foram declaradas Patrimônio Cultural da Humanidade. O peruano Luiz Cahe, de 41 anos, todos os dias vai para um dos pequenos mirantes, instalados ao lado da rodovia, pintar e vender pedras contendo as linhas e calendários astronômicos. “As pessoas que sobem aqui no mirante ou sobrevoam as linhas ficam impressionadas com a beleza delas. Eu pinto calendário porque entendo que as linhas formam figuras astronômicas”, disse Cahe, ao demonstrar muita perícia e habilidade artísticas. Antes de passar por Nazca, fomos conhecer a Viña Ocucaje, que produz anualmente dois milhões de litros de piscos e de vinhos, entre eles o Cabernet e o Chalonet, que são em parte exportados para o Panamá e os Estados Unidos. Segundo o gerente da viña, Alejandro Girao, de 75 anos, 65 dos quais dedicados à produção de vinho, a região de Ocucaje está se firmando como produtora de vinhos de boa qualidade. “Estamos ampliando nossa produção para o mercado peruano e para outros países”, disse Girao. Seguimos viagem rumo à cidade costeira de Matarani a mais de 400 quilômetros adiante pela rodovia Panamericana, onde passamos por pequenas cidades como Camaná, situada num vale profundo, cortado por um rio desemboca no Pacífico, Mollendo e Punta Curió, todas cercadas por paisagens costeiras ou pelas areias coloridas do deserto de Atacama. Em Matarani, está instalado o único porto privado do Peru, explorado pela empresa Internacional do Sur, que hoje movimenta por ano uma carga de 1,5 milhão de toneladas, entre importação de trigo para o mercado boliviano e exportação da soja produzida em Santa Cruz de La Sierra, também na Bolívia. O porto de Matarani é explorado há cinco anos pela Internacional do Sul, que investiu US$ 8 milhões para se automatizar e movimentar até 22 containeres por hora. O porto é o único do Peru que dispõe de um guia móvel capacitado para levantar até 73 toneladas até os navios que semanalmente encostam ali. “Estamos preparado para exportar os produtos que sejam produzidos na Amazônia brasileira, tais como soja, milho, algodão, carne, castanha e outros produtos que venham a ser produzidos pela floresta de seu país”, disse o gerente geral do porto, Erick Hein Dupont. Sendo exportada por Matarani, uma mercadoria que sai do Acre, de Rondônia ou de Mato Grosso pode economizar um percurso de cerca de cinco mil milhas até a Costa Oeste dos Estados Unidos ou até o Sudeste Asiático. De Matarani, fomos conhecer a cidade costeira do Ilo, onde está situado o porto do Pacífico mais próximo do Acre. Por ali, o Peru exporta grande parte de seus pescados, além de produtos agrícolas e de mineração. Ilo tem pouco mais de 20 mil habitantes, que moram, em sua maioria, em casas feitas de pedra, o que dá ao lugar o nome de “Cidade de Pedra”. No porto, além de centenas de barcos de pescas, o ponto alto de atração dos turistas são os bandos de coloridos pelicanos que dão belos razantes atrás de sobras de peixe e outros pescados.
Vale do Condor atrai turistas do mundo inteiro Logo chegamos em Arequipa, a segunda maior cidade do Peru, com mais de dois milhões de habitantes, que se orgulham de morar numa região do altiplano andino a mais de 2,3 mil metros de altura e cercada por três imensos vulcões. De qualquer lugar da cidade, se pode enxergar o esplendor dos vulcões Misti, de 5.822 metros, Chachani, de 6.075 metros, e Pichu Pichu, o menor deles, com 4 mil metros acima do nível do mar. Centro dos mais freqüentados circuitos turísticos do Peru, Arequipa é uma cidade ensolarada o ano inteiro, apresentando um fantástico céu azul. Conhecida como “A Cidade Branca”, Arequipa é um lugar de gente muito hospitaleira e famosa por sua arquitetura colonial, sua boa cozinha e sua história de revoluções e levantamentos. Ali, os turistas têm a opção de visitar os distritos de Yanahuara, Cayma e San Blas, passando por ruas estreitas, museus e famosas igrejas coloniais. A maioria dos turistas que vão a Arequipa faz questão de conhecer Santa Catalina, o famoso monastério fundado em 1580, onde religiosas costumavam se enclausurar totalmente, dedicando-se exclusivamente às orações. Aberto ao mundo 400 anos depois de sua fundação, só a partir de 1970 foi possível visitantes conhecerem o interior do monastério secular. Um dos circuitos preferidos pelos turistas internacionais sai de Arequipa e segue por 520 quilômetros de boa estrada de cascalho batido até Cuzco, por onde se chega pela rota turística que está sendo preparada pelo governo peruano para receber os habitantes da Amazônia a partir da Rodovia do Pacífico, de Brasiléia a Assis Brasil, que foi inaugurada há dois anos pelo governo acreano. Saindo de Arequipa, o turista vai até Yura, localidade famosa por sua águas medicinais que descem do vulcão Chachani. De Yura, o caminho prossegue para Sicuani, situada a 3.549 metros de altura, cuja população habita um vale repleto de eucaliptos e de paisagens fantásticas. Sicuani também possui águas termais, que permitem a todos se recuperar depois do longo percurso de mais de 350 km desde Arequipa. O mais famoso circuito turístico do Peru e um dos mais visitados da América do Sul é o que vai dar num dos canions mais profundos do mundo. Trata-se do Vale do Condor, situado a mais de 2 mil metros abaixo do nível do mar, onde se pode observar, além do vôo de uma maiores aves do planeta, a grande profundidade de seus imensos canions. Para se chegar ao Vale do Condor, o caminho passa pela localidade de Chivay, a porta de entrada do Valle del Colca, formado por impressionantes vulcões e fantásticas paisagens. De Arequipa, seguimos viagem por 173 km para Moquegua, bem próximo de Tacna, a apenas 36 km da fronteira do Peru com o Chile. Em Moquegua, encontramos novos traços da arquitetura colonial espanhola e sítios arqueológicos do tempo dos Incas. Ali, para os mais dispostos, é possível subir o vulcão Ubinas, de 5.670 metros, de onde se têm uma vista impressionante dos vales. Meia hora de carro de Moquegua se pode chegar a Torata, um pitoresco povoado de casas coloniais. Um pouco mais distante, se encontra Omate, um pequeno vale incrustado no meio do deserto e um dos centros mais importantes de produção de frutas do Peru. Embora já um pouco cansados pela extensa quilometragem, pelo frio intenso em determinadas regiões e pela rotina de entrar e sair de hotéis e hospedarias, de fazer e desfazer malas e de se alimentar mal em lugares mais isolados, as duas equipes de reportagem seguiram firmes de Moquegua em direção à Desaguadero, pequena cidade boliviana situada às margens do lago Titicaca, na fronteira com o Peru. Neste trecho, de 230 km, o início do cansaço da longa viagem deu lugar a novos deslumbres diante dos imensos e profundos vales, cercados de lagos e montanhas de neve por todos os lados. Estávamos deixando o Peru das belas lhamas, das simpáticas vicunhas, dos peludos carneiros, das batatas, dos frangos, dos peixes, dos campesinos das montanhas e dos cholos descendentes diretos do fantástico povo Inca.
Lago Titicaca, o portal de entrada na Bolívia Entramos no dia 13 de agosto na Bolívia, outro país andino de rara beleza, também com suas montanhas nevadas, suas lhamas e seus campesinos, que pareceram mais pobres do que seus vizinhos. Nossa passagem de um país ao outro se deu exatamente a poucos metros das águas do lago Titicaca, que banha os dois países e é considerado o lago navegável mais alto do mundo, com mais de 3.800 metros acima do nível do mar. Ali, os dois países são divididos por uma simples ponte sobre um dos inúmeros braços do Titicaca, onde é intenso o vai e vem de pessoas comprando e vendendo desde comestíveis até o mais simples objeto caseiro. Estávamos na Bolívia e logo seguimos viagem rumo a La Paz, que se situa a apenas 90 km da fronteira. Com mais de dois milhões de habitantes, La Paz se encontra num vale profundo e, mesmo assim, situa-se a 3.649 metros acima do nível do mar. Bastante fria em agosto, com temperaturas que vão abaixo de zero durante a madrugada, La Paz não foge à regra das grandes cidades andinas, com grandes museus, belas igrejas, grandes praças e comércio intenso nas ruas e avenidas. Antes de deixar La Paz e rumar para a Amazônia brasileira, as equipes de reportagem foram surpreendidas mais uma vez com novo infortúnio do cinegrafista Josenir Melo, que teve roubada sua sacola de mão com a câmera de vídeo e - o mais grave - com as fitas contendo toda a reportagem televisiva desde a saída de Rio Branco. Depois de mobilizarmos toda a imprensa de La Paz e pregarmos cartazes em muitas ruas das cidade, anunciando boa recompensa, conseguimos reaver as fitas gravadas, que deram origem a uma bela série de reportagens sobre a integração do Acre com o Peru e a Bolívia, comandada pela repórter Cristina Lino e o produtor Eduardo Fittipaldi. A série foi veiculada em todo o país pela TV Nacional e deverá ser exibida, em breve, na forma de documentário, em canais televisivos da França e dos países de língua portuguesa. Refeita do susto, parte da equipe partiu de La Paz de avião para Brasília e o Acre e a outra parte se dirigiu nas duas caminhonetes rumo ao estado pelas montanhas, vales e selva bolivianas. Para o Norte, rumo à Amazônia brasileira, o ponto mais alto fica na região de Nando Jankho, a 6.429 metros acima do nível do mar. A carretera que desce os andes bolivianos é piçarrada e tão acidentada quanto à da subida da Cordilheira peruana, com curvas perigosas em volta de grandes montanhas, onde muitos turistas estrangeiros ainda se arriscam em descer os grandes precipícios até de bicicletas, todos incentivados pelas paisagens paradisíacas da região. Cruza-se muitos riachos ao longo da rodovia, de onde se pode ver muitas cachoeiras descendo das grandes montanhas andinas. Há também na “Los Yungas”, como é chamada a carretera boliviana, lugares de muito misticismo, com dedicado louvor ao “Señor de la Cumbre”, protetor dos que desejam fazer uma boa viagem descendo os andes bolivianos até a planície amazônica, onde se alcança mais facilmente, por uma selva densa, o Departamento de Riberalta, na fronteira com o estado de Rondônia. Ali, a equipe teve que fazer um desvio de 15 km por dentro da mata porque a rodovia estava fechada por quebradores e quebradeiras de castanha revoltados porque seus direitos trabalhistas não estavam sendo cumpridos pelo governo boliviano. Na Bolívia, a Polícia revista os veículos atrás de drogas. Saindo de La Paz, o roteiro de 1.200 km até Guajará Mirim, em Rondônia, passa pelas cidades de Coroico, Caranavi, Rurrenahaque, Reys, Santa Rosa e Guayaramerín. Há também muitos pedágios a pagar, inclusive os que pessoas dos povoados mais pobres fazem para combater a fome. De Guajará Mirim, a equipe seguiu por três horas até pegar o asfalto da BR-364, daí gastou meia hora para alcançar a travessia do rio Abunã e mais cinco horas para retornar a Rio Branco.
|
|
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| ESPORTE |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VIA PÚBLICA |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Com Leonildo Rosas |
| ANCELMO GÓIS |
| Com Ancelmo Góis |
|
|