| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
Florentina Esteves * |
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| Filosofando Não ficamos a prestar atenção a cada palavra que falamos, mas bem que deveríamos. A carga emocional de certas palavras, ou seu significado exato, podem ser de uma profundidade capaz de reverter uma vida. Não é por outro motivo que sou apaixonada pela semântica. Pois bem, no outro dia me detive no sentido do termo “eterno”, cativada, até, por sua eufonia. Mas, quer maior responsabilidade que adjetivar-se algo de eterno? Tirante Deus, de quem se diz não ter antes nem depois, sendo eterno, a que ou a quem poderíamos atribuir tal qualificativo? Mutante como é o ser humano, nada que se lhe atribua pode ser eterno. Amor eterno? Fácil de dizer. Primeiro, a própria biologia, que nos modifica ao correr do tempo e da idade, se encarregaria de desmascará-lo, de desmistificá-lo. E depois, além da semântica, a psicologia. Então é preciso muito cuidado com essa “eternidade”. O mesmo se aplica a “jamais”, “nunca”, “sempre” e por aí vai uma coleção de palavras. Mas voltando ao “eterno”, temos de dar razão a Vinícius de Moraes, quando, nos falando de amor eterno, diz mais ou menos isso: “que o amor seja infinito enquanto dure, posto que e chama”. Andei lendo na revista Veja um comentário sobre o alcance das expressões “presente”, “passado” e “futuro”. E se questionava sobre se o presente existe, posto que apenas ao mencionarmos a palavra, saímos do presente e enveredamos pelo passado. E também lá vamos nós adentrando a filosofia, ao questionarmos se nosso conhecimento é indiscutível: presente? passado? futuro? E nos lembramos de que o próprio conhecimento é indefinível, apenas exprimindo uma relação entre um pensamento e um objeto. Nos albores da filosofia grega essa questão foi considerada de somenos importância, pois que era opinião corrente que o espírito reflete o mundo exterior como um espelho. E nosso conhecimento derivaria de duas fontes fundamentais: a sensibilidade — faculdade de intuição ou da receptividade das impressões, e o entendimento — faculdade do juízo ou da espontaneidade dos conceitos. Tal é, em suas linhas capitais, o mecanismo do conhecimento, segundo o filósofo Kant... Resta considerar o que se deduz daí quanto à questão da “coisa em si” e dos fenômenos, considerando que as formas puras da intuição são o espaço e o tempo. E isto significa que a sensibilidade só pode ser impressionada pelo que se acha dentro do espaço e do tempo; e como só podemos conhecer o que impressiona nossa sensibilidade, daí resulta que só podemos conhecer o que se nos apresenta dentro do espaço e do tempo. E como o espaço e o tempo são formas puramente ideais e subjetivas, tudo o que conhecemos ou podemos conhecer, é também ideal e subjetivo. Bem, mas esse caminho do nosso pensamento está se mostrando filosoficamente acidentado, e para não complicar, trazemos aqui uma experiência narrada por um filósofo cujo nome nos escapa. Trata-se da seguinte experiência: Um homem viveu toda sua vida numa caverna, sem nunca de lá ter saído. Do mundo exterior, portanto, ele somente via sombras, aquelas de quem passasse diante da caverna. Então seu conhecimento se resumia a isso. Diríamos, portanto, que ele tinha conhecimento de mundo real? Ou apenas do imaginário? Complicado? Fácil? Deixo ao leitor a solução desse teorema. * Professora e Escritora |
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