OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Solidão urbana

Que lugar solitário esta cidade. Todo este movimento, as pessoas passam para lá e para cá, passam através de mim, olham, algumas olham bem, mas não falam, muito menos sorriem, apenas seguem, com suas pressas e olhos, com seus medos e segredos, com seus constantes compromissos, com suas vontades disfarçadas, com a fantasia geral de parecer indiferente, como quem quase nada sente, como se não fosse gente a que vai ficando, ou olhando a que vai, a que sai, ou apenas indo e vindo, como se a cidade não fosse aqui, como se cada um fosse para muito longe do outro, como se houvesse tanta coisa além do outro, além de gente, além da simplicidade evidente.

Talvez a solidão, mas ela é de gente, dessa mesma que passa ou fica, dessa mesma que me olha e que eu vejo, ou penso que vejo, dessa mesma que faço que sinto, até digo, mas não sei se posso imitar, assim tão rápido, assim tão distante, não do passo ou do olho, não do gesto ou do fingimento, assim distante do que precisaria ser visto e dito, assim rápido, para ouvir e enxergar, para poder sentir e entender todos esses movimentos, todos esses papéis e rumos, todos esses destinos e sem-caminhos, toda essa pressa em dobrar a esquina, em disfarçar a vida, em passar para amanhã, para entender que a solidão é vasta, é vastidão, maior que a cidade e a verdade, é imaginação.

Por isto é tão movimentada e urbana, por isto percorre as ruas da vida, persegue as pessoas que a transitam, por isto pode haver um ou outro congestionamento, uma ou outra série de esperas para continuar seguindo, imaginando. Por isto não pára e sente o prazer da solidão, apenas finge, dança nas calçadas e boates, nas pistas e avenidas, como se fosse a música do momento, como se fosse a medida do presente, sendo já uma antiga balada, um velho ritmo, que de velho desvia o olhar, esconde o sorriso, perde o afago, como se um lugar no futuro fosse o sentido, como se um preço ou valor pudesse restituir o momento desperdiçado, como se a pressa fosse alcançar a definição inversa.

Gente, cidade, tudo movimenta e a vida passa para lá, para cá, faz que pára, estaciona, volta, deita e rola, até esquece da gente. A solidão, apesar desse ir, vir e quase parar, parece às vezes conseguir colocar o tempo em filas, demoradas filas, que mesmo seguindo adiante, diminuem o passo para sentir a espera, o jeito das coisas, das praças e das vitrines, o gosto dos bares e das moças, o gosto puro da espera, o ritmo da fantasia, o tempo da indiferença, como se as pessoas fossem assim tão diferentes e umas não se vissem nas outras, como se a solidão fosse apenas minha, enquanto percorro a cidade e faço que vejo a vastidão, enquanto faço que converso e namoro com esta sensação.

 

 
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Rio Branco-AC, 7 de novembro de 2004
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