VARIEDADES

Contra-ataque

Saída do forno, a HQ 'Caô' desafia com histórias nacionais a hegemonia dos super-heróis americanos

 


Antes de sair de casa para divulgar o gibi Caô, um almanaque de quadrinhos 100% nacional, cheio de temas folclóricos, o roteirista carioca Patati (Carlos Eugênio Baptista, segundo sua certidão de nascimento), de 44 anos, veste uma camisa estampada com a caveira do Justiceiro, um ícone da editora americana Marvel Comics nos anos 80.

A princípio, o traje parece inadequado a quem tem um discurso nacionalista. Mas o uso da blusa faz todo o sentido quando se escuta com calma a proposta da revista que aterrissou ontem em bancas do Rio e de São Paulo, com tiragem de 20 mil exemplares, editados pela Toque de Letra. Patati quer travar uma guerra. E convenceu o editor gaúcho Flávio Braga, 50 anos, e a produtora baiana Juliana Carvalho, 26, a embarcar com ele no conflito que espera deflagrar contra a hegemonia dos super-heróis e dos samurais de mangá no mercado brasileiro.

– Montamos uma verdadeira aliança nacional para difundir um gibi que é nacionalista sem ser ufanista – anuncia Patati, que, apesar do amor que sente pelo Homem-Aranha, Batman e outros vigilantes mascarados made in USA, sentia falta de ler gibis de ação sobre temas brasileiros.

Daí, Patati começou a fazer Caô.

– Não estou desistindo dos heróis Marvel e DC com essa revista. Mas quero que as pessoas tenham acesso a histórias de aventura em que pelo menos um dos personagens se chame Juracy. O Brasil sempre teve uma fortíssima tradição de quadrinhos de humor. No campo do terror, havia uma expressividade também. Mas penso que não devemos nos fechar em gêneros. As janelas devem se abrir – diz Patati, veterano quadrinista revelado nos anos 70 nas páginas das extintas Spektro e Pesadelo e que em 2003 lançou o elogiado álbum Sangue Bom, pela editora Ópera Graphica.

Em dobradinha com Flávio Braga na edição, Patati convocou uma invejável seleta de desenhistas nacionais para o número 1 da revista, na qual assina a maioria dos roteiros. Amparado pelo traço de Allan Alex, por exemplo, resgatou o personagem do taxista Nonô Jacarê, que criara na saudosa HQ Porrada, ao escrever Um táxi para o baile, com trama ambientada no Morro do Adeus, em Bonsucesso. Junto ao ilustrador Márcio de Castro, concebeu (a ótima) A pedra do Bendengó, que revisita o conflito na região de Canudos (1870-1897) a partir da suposta queda de um meteoro no Nordeste, no fim do século 19. Mas não abriu mão de adaptar o biscoito fino da literatura nativa, ao verter em forma de desenho o conto Noite de almirante, de Machado de Assis.

– É uma forma de convidar o leitor de quadrinhos a conhecer o lado contista deste grande autor que Machado foi – diz.

Além de editar, Flávio Braga também arriscou-se a escrever e converteu memórias de estudante na sombria história O calor da lua, que aborda a censura militar no Brasil de 1972.

– Quis mostrar como a sombra da ditadura pesava no ensino de 2° Grau – lembra Flávio.

Ciente das dificuldades de concorrer com o quadrinho americano, Patati confia no taco da arte local :

– Fecho com uma frase do folclorista Câmara Cascudo: “O melhor do Brasil é o brasileiro”. Não sei esta empreitada vai morrer afogada num riacho ou subir o arranha-céu do sucesso. Mas, vamos tentar... (JB)

 

 
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Rio Branco-AC, 8 de janeiro de 2005
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