OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Regatão e porto-solidão

Imprestável da Silva, por aí jaz o velho regatão. Dá saudades até em quem apenas ouviu falar dele. Ancorou no porto-solidão, fincou o ferro, beijou a areia e desceu a carga de sonhos. O povo dos seringais veio para as cidades, a fonte da seringa secou e quase nada é novidade. Se alguma aparecer, não vende, encalha. O seringueiro virou soldado e passou a lutar outra guerra, mais concorrida, onde a vida não corre lenta como látex. E o homem da embarcação, sem chita nem cambraia para levar, sem borracha para trazer, foi perdendo a correnteza. Deixou de transportar ilusões, mas nunca deixará de carregá-las.

Por um triz, Esquecido da Silva, o regatão perdeu-se num estirão, baleeira e batelão. No mesmo termo, muitos dias de subida depois, o homem que nele regateava, o outro regatão, enfiou-se num balseiro, perdeu o canal do rio, foi tragado por uma crônica sem rumo, deu com os burros n’água. Enquanto isso, as velhas conversas-fiadas, sem comando na popa, saem para desfilar no salão da margem esquerda do velho Rio Acre, em direção ao Purus e daí para o mar. Vão desfilando, crescem, reproduzem, ganham da verdade e viram lenda, barranco acima, Internet afora. Só assim volta o regatão.

O regatão era a Alegria da Silva do povo do mato, lá de dentro, gente da floresta, do centro e da margem. Todos vinham para a beira, olhar e saber, quem sabe, comprar e possuir, trocar impressões e ilusões. Ouvir, ver, coisas e gente diferente, gente que vinha da cidade, trazendo sonhos e mercadorias, gente que dava notícias, contava algo bom de ouvir e trazia o mundo. Gente que levava a borracha e o futuro. E ele foi, por rios nunca imaginados, subiu mares e continentes, saiu do mato. A borracha não é mais o futuro dessa gente, e sem ela, não há regatão. O que há, não é mais como aquele.

Mas, agorinha, interessava metro e meio de chita, uma seiva de alfazema e uns carretéis de linha branca, bem alvinha. Se tudo corresse bem, na outra viagem interessaria um rádio de pilhas, daqueles com três faixas. Mas só se a antena fosse comprida, para alcançar as ondas médias perdidas no meio de castanheiras, seringueiras e samaúmas. Não esquecer do leite-de-colônia e do pente de osso. A comadre parteira quer uns sacos de estopa e uma tesoura Mundial. Essas coisas, a gente lá do oco do mundo só encontrava naquele regatão, baleeira e batelão.

Francisco Antônio da Silva conheceu a Clair Cunha da Silva lá dentro do mato, às margens do Purus, ele regatão, ela segurando o coração. Seu Chico Cunha permitiu, o filho do Lauro Fontes tinha boa intenção. O velho Lauro desbravou Manoel Urbano, conhecia até o Chandles, foi delegado, o filho, escrivão e regatão... Deu-se o fato. De bubuia, o casal foi descendo, do Rio Purus para o Acre. Aportando em Rio Branco, nasceu o Zé da Silva, filho único. Aqui parido, aqui embalado, isso não se regateia. A crônica é a história do cronista. Mas interessa o regatão, baleeira e batelão, igual ao homem na embarcação.

Lá vai o regatão, levando coisas que não existem nos seringais, levando o mundo para a gente do mato, Enfurnada da Silva, que precisa saber que não está só. O regatão de dentro, o comandante da embarcação, hoje dorme aqui, depois acolá, encara a malária e espanta os medos. Isso aqui é lugar para gente de coragem, diz e segue adiante. Gente que sabe esperar. Na outra viagem, quem sabe, uma lanterna de três elementos, uma lata de goiabada e a cartilha dos barrigudinhos. Na outra, depois da que vem no mês que entra, jabá e fumo forte, a gente do mato espera. O futuro passa.

Depois da curva grande, depois da espera enorme, depois de meses compridos, lá vem de novo o regatão, ainda aquele homem no timão. O seringueiro já entregou a produção, ficou devendo no barracão, mas não pode perder a ilusão, isso não. Chama a meninada, dá as ordens à patroa, entorna uns goles cachaça, até de álcool, apura a vista por baixo da aba do chapéu e abre-se para o mundo que vem ali. Mostra-o aos filhos, comenta-o com a mulher. Esperançoso, diz que logo irão conhecê-lo. Embrenhado da Silva, diz que vai entregar mais, o preço vai subir, a conta vai desempatar.

Depois de entregar o mundo, o homem do regatão segue adiante, curvas e salões, canal e estirões, sua vida é rever portos e olhos, colher o dízimo, navegar os rios. O comandante da ilusão segue e volta, conhece homens e caminhos, tem trabalho a fazer, rios a navegar. Descuidado da Silva, não notou que o leite branco correu para outras águas e conheceu outros portos. Não conheceu um tal progresso, primo do êxodo. Ocupado com o trabalho, o seringueiro também não viu nada disso. Nem iria entender. Só sentiu quando o regatão passou a demorar mais e mais, quase já não vinha. Com ele, foi-se o futuro.

Deu-se o fato. Inútil da Silva, o regatão não tinha mais para onde ir, novidades para levar, borracha para trazer. Não havia mais quem o esperasse. Os sonhos viajaram. Para onde foram, o seringueiro e o regatão? Saudades de quem viu. A Clair ainda lembra, as moças nas janelas, o Chico Antônio surgindo, o coração apressando. Saudades que atingem até quem não estava no contexto. Faz viajar, como o regatão. Viajar levando o mundo, carregando sonhos. Não há mais mundo para levar nem aquele regatão para viajar. A viagem tem outros destinos e o porto voltou a ser só barranco.

Agora, os projetos são mais modernos, a espera é mais visível. Passou o regatão que viabilizou o Acre. Ou estacionou no porto-solidão, sem o homem no timão. Passou o tempo das moças nas janelas e da seiva de alfazema. Mas não custa lembrar do regatão, do homem e da ilusão. Os rios ainda estão aí e ainda há gente lá dentro, Escondida da Silva, à margem do mundo globalizado. Esse mundo, sempre apressado, não sabe que o regatão abasteceu sonhos e forjou belas realidades. Como a da Clair e a do filho dela. Lá para aquele porto distante, eles mandam beijos para o Chico Antônio. Quem ouvir, favor retransmitir.

 

 
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Rio Branco-AC, 8 de janeiro de 2006
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