COTIDIANO

Agricultura quer mais crédito

Município de Sena Madureira pede respeito bancário ao ciclo da mandioca no Acre

 


Montezuma Cruz

Palmital (SP) - Os bancos fecham os olhos a essa realidade de Sena Madureira e isso prejudica o setor. “Nosso plantio é no grosso, sem muita seleção. Se o solo for bem tratado, a gente passa de 80 toneladas”, ele garante. Os entraves do financiamento da lavoura estão inquietando os pequenos agricultores interessados em ampliar lavouras. As agências do Banco da Amazônia S/A e do Banco do Brasil S/A trabalham apenas com o segundo ciclo, o mesmo que vigora na região Sul do País. “Isso é prejudicial para quem se dispõe a plantar mais”, queixou-se o deputado Fernando Melo (PT-AC). Ele prometeu levar o assunto à Comissão de Agricultura, da qual é membro titular, na expectativa de convencer o Banco do Brasil a adotar os dois ciclos. “Basta querer e tudo se resolve.”

Até há 20 anos, as fecularias brasileiras trabalhavam no plantio tradicional, de maio a outubro. Para Moisés, o ideal em Sena Madureira é formar lavouras após o inverno amazônico, no período de maio a agosto. O mercado de Sena Madureira paga 50 centavos pelo pé de mandioca. Em distâncias maiores, esse preço baixa, informa Moisés. O município planta as cultivares nativas pirarucu, panati e araçá. É grande o êxito das nativas acreanas. A partir dos nove meses, a araçá está pronta para ser beneficiada. A variedade pirarucu tem um ciclo de 16 meses.

Apoio financeiro

Fernando Melo conversou com Moisés durante a viagem a Palmital, próximo ao Rio Paranapanema, na divisa entre os estados de São Paulo e Paraná. Eles visitaram indústrias de farinha, polvilho, amido e álcool de mandioca na região. Melo deverá destinar uma emenda ao Orçamento Geral da União para contemplar o plantio de mandioca n esse município.Cerca de 50 famílias do Pólo Agroflorestal Elias Moreira, por exemplo, adotam a mandioca como a mais importante atividade econômica.

Ali, a produção de farinha atende à demanda do mercado local. As conhecidas Casas de Farinha, construções padronizadas lançadas pelo Governo Estadual do Acre, vêm ajudando a agregar maior valor ao produto. “Sena entra no mapa da produção com uma das melhores farinhas da região e o ideal é termos no futuro a marca Farinha do Acre, congregando todos os municípios farinheiros”, sugere Enos Vale.

Colaboração de especialistas

A mandioca é também ecológica. Segundo os extensionistas, a entrega de kits de mecanização agrícola com o apoio do governo e da Prefeitura de Sena Madureira vai permitir a redução de áreas degradadas e a preservação do meio ambiente. Melo vai pedir à Comissão de Agricultura uma audiência pública para debater o mercado da mandioca, da fécula e do álcool no País, e o resgate da cultura na Amazônia. Ele não descarta a possibilidade de o Acre conseguir produzir mais para poder mover a sua própria indústria no setor. “É para isso que estou trabalhando”, afirma.

O deputado está coletando informações com os agrônomos Diones Salla e João Pacheco, respectivamente do Centro de Raízes e Amidos Tropicais (CERAT) da Universidade Estadual Paulista em Botucatu, e da Coordenadoria de Assistência Técnica e Integral (CATI), da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo em Duartina.

Douglas Alexandre, técnico agrícola responsável por uma série de experiências com álcool de mandioca no CERAT, também vem sendo consultado. Após o seu encontro com o presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Sílvio Crestana, e a audiência pública na Comissão de Agricultura, Melo pretende convidá-los para conhecer as lavouras do Acre e opinar sobre um projeto que resgate a cultura na Amazônia.

Fernando Melo e extensionistas conhecem a indústria paulista

São Pedro do Turvo e Palmital, SP – O Cristo Redentor está presente nas praças de pequenas cidades do interior paulista pelas quais passou o deputado Fernando Melo (PT-AC) no final da semana, durante excursão a lavouras e à indústria de beneficiamento de mandioca. Em São Pedro do Turvo, a 390 quilômetros de São Paulo, a estátua colocada pelos irmãos Freitas traduz o significado do maior apelo mundial: pela paz.

Com 6,7 mil habitantes, fundada em 1889, São Pedro do Turvo tem muitas lavouras de mandioca e uma indústria que fabrica polvilhos doce e azedo, fécula de mandioca e álcool de cereais. Da Ourominas saem diariamente 25 toneladas de polvilho e 15 mil litros de álcool neutro de cereais – mandioca, milho e arroz –, que abastecem os mercados dos estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. “Vamos chegar a 20 mil litros brevemente”, prevê José Carlos de Freitas, um dos diretores.

Fernando Melo, membro titular da Comissão de Agricultura da Câmara, e os extensionistas agrícolas Joaquim Moisés e Enos Marcos Vale, ambos da Secretaria de Agricultura e Produção de Sena Madureira (AC), foram recebidos sexta-feira e sábado por industriais e técnicos do setor em São Pedro do Turvo e Palmital, municípios tradicionais na cultura da mandioca no Estado de São Paulo.

Lenha move caldeira

O funcionamento das indústrias e a safra da mandioca no interior paulista motivaram a comitiva a aprofundar estudos visando à construção de uma futura usina de fécula e álcool no Acre. Tanto a Ourominas quanto a Halotek Fadel, de Palmital, possuem geradores de energia elétrica de reserva para prevenir quedas no sistema de energia. O deputado e sua comitiva presenciaram a paralisação das máquinas da Halotek durante alguns minutos na tarde de sexta-feira, por causa de um apagão de cinco minutos no sistema estadual de energia.

Os geradores de reserva funcionam com a indispensável lenha de eucalipto (3 metros cúbicos por hora), bagaço de cana-de-açúcar e briquete, um compacto de pó-de-serra com bagaço de cana produzido numa pequena indústria de Ipaussu, na Rodovia Raposo Tavares. As fibras da mandioca são levadas semanalmente por caminhões da Companhia Vale do Rio Doce. Servem para a separação do minério de ferro em Mariana (MG).

A Halotek fabrica amido industrial e só pára suas máquinas das 6 às 9h, quando o consumo, não subsidiado, é mais caro. Começou as atividades há 30 anos em Palmital, cidade de 20 mil habitantes nascida em 1885. “Era uma farinheira simples que aproveitava toda a mandioca roxinha da região”, lembra o gerente industrial, agrônomo Vitório Fadel Neto, da quarta geração dos Fadel, que chegaram ao Brasil para trabalhar na lavoura cafeeira. A roxinha foi substituída pelas poderosas cultivares IAC, sigla do Instituto Agronômico de Campinas.

O sucesso do amido, do polvilho e do álcool

650 toneladas por dia (35 t/hora), operando 20 horas, é o total de mandioca que a Halotek mói em sua fábrica. Sua capacidade é para 800 toneladas.

2,5 mil alqueires de mandioca entre um e dois ciclos é o total da área própria cultivada pela empresa. O plantio e a colheita são mecanizados e neles são usadas altas tecnologias de adubação.

7 mil alqueires é o total da área de mandioca (predominância da variedade IAC tardia e precoce) cultivada pelos fornecedores da empresa, em Palmital e em municípios vizinhos.

24 centavos é a cotação do grama da mandioca com 1,5% de terra. O custo da lavoura fica em torno de R$ 5 mil para a mandioca de 18 a 24 meses. Os contratos são feitos incluindo as fases da colheita ao transporte da safra.

5 Kg de mandioca bruta rende 560 gramas de amido na Halotek, ao custo de R$ 120 a tonelada.

R$1,70 é o preço do quilo do polvilho vendido pela Ourominas. Ela vende também a granel, para as panificadoras, em fardos de 25 Kg.

R$ 2,20 é o preço do litro de álcool de cereais, vendido em carretas fechadas pela Ourominas para indústrias de perfumaria, cosméticos e de bebidas em geral.

Nada se perde, tudo se transforma - R$ 30 é o custo da tonelada do bagaço de cana-de-açúcar adquirido pela Ourominas na Usina São Luís, em Ourinhos, para mover seu principal gerador.

O custo do metro cúbico de eucalipto queimado na caldeira da Ourominas é de R$ 55.

R$ 8 a tonelada é o preço da vinhaça da mandioca. A de milho (mais rico em proteínas) custa R$ 12 a t. A Ourominas abastece um plantel próprio, de 150 cabeças de gado mestiço, confinado próximo à indústria. Cada cabeça tem um ganho médio de peso diário entre 800 g e 1 Kg.

20 mil litros por dia é o volume de vinhaça vendido a produtores rurais na região.

 

 
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Rio Branco-AC, 8 de abril de 2008
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