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Fábrica de preservativos masculinos é inaugurada em Xapuri

Empreendimento é o primeiro a utilizar látex de seringal nativo na produção de camisinhas


Whilley Araújo

O governador do Estado, Binho Marques, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e diversas outras autoridades inauguraram oficialmente na tarde de ontem, no município de Xapuri, a fábrica de preservativos masculinos (Natex). O empreendimento, primeiro a utilizar látex de seringal nativo na produção de camisinhas, possui a capacidade de produzir 100 milhões de unidades por ano, com geração de 150 empregos diretos.

Durante a inauguração da indústria, o governo do Acre e o Ministério da Saúde assinaram um convênio de R$ 22 milhões para a produção dos preservativos. O acordo foi assinado por Binho Marques e pelo secretário Nacional de Vigilância em Saúde, Gerson Penna, que representou o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, no evento. A idéia do convênio é implementar ações de produção e fabricação de preservativos para suprir as demandas do Programa Nacional de DST/Aids. O investimento prevê ainda a busca de novas tecnologias para a produção de preservativos femininos a partir de produtos regionais.

O programa de fornecimento de látex natural para a fábrica abrange 24 seringais da Reserva Extrativista Chico Mendes e região. Cerca de 550 produtores já foram treinados e equipados com o kit de coleta do líquido. O número de participantes deve chegar a 750 nos próximos meses.

Na solenidade de inauguração da Natex, o governador do Acre afirmou que o empreendimento representa um novo passo, não apenas por influenciar na melhoria da economia do Estado, mas por se tratar de uma fábrica que consegue conciliar o desenvolvimento do meio ambiente com o desenvolvimento social.

“A Natex significa, especialmente, a possibilidade de inclusão social. Nessa obra temos o que podemos chamar de PPC, que é o público, o privado e o comunitário. Essa fábrica associa os investimentos feitos pelo governo, pela iniciativa privada e envolve a comunidade, e esse é o modelo que pretendemos levar para as quatro outras regiões do Estado, proporcionando assim uma melhor qualidade de vida para a população”, enfatizou Binho.

Na oportunidade, a ministra Marina Silva argumentou que o líder seringueiro Chico Mendes, assassinado há 20 anos quando lutava pela preservação da natureza, abriu um caminho, o qual todos estão aprendendo a caminhar.

“Vale ressaltar que essa fábrica é fruto da necessidade de prevenção das DST’s. Sendo que ao mesmo tempo agrega valor ao produto dos seringueiros, criando um novo padrão de produção e um processo novo de inclusão com a valorização da floresta em pé, e das reservas extrativistas”, acrescentou a ministra.

Para o senador Tião Viana (PT-AC), vice-presidente do Senado Federal, a inauguração da fábrica é de extrema importância, pois se trata de um projeto que incorpora tecnologia em um produto que vem do coração da floresta. “A Natex irá evitar e proteger o contágio do câncer de colo de útero - doença que atinge um grande número de mulheres por ano no país -, além de contribuir para que a Aids não continue se propagando com tanta intensidade pelo mundo”, destacou o parlamentar, que também é médico.

Após a inauguração da obra, Binho Marques, Marina Silva, o ex-governador Jorge Viana e outras autoridades presentes ao evento plantaram mudas de seringueira na entrada da Natex.

A fábrica de preservativos é implantada pelo Estado com investimentos de R$ 30 milhões, sendo os principais parceiros o Ministério da Saúde, por meio da Funasa; Programa DST/Aids, Ministério da Integração Nacional, Suframa, BID e programa “Luz para Todos”. Aproximadamente 700 famílias de seringueiros estão envolvidas na coleta do látex durante o primeiro ano de produção.

O consumo de líquido por ano do empreendimento é de 500 mil litros de látex in natura.

Seringueiros passam a ter um lucro maior com a fábrica

Morador do seringal Cachoeira, na colocação Botafogo, o produtor Hugo Paz de Souza, 43, trabalha com extração de látex há 23 anos. Porém, há pouco mais de um ano ele precisava comercializar outros produtos para garantir o sustento de seus quatros filhos e da esposa, pois o comércio da borracha não era suficiente para sua família.

“Antes eu conseguiu arrecadar no máximo R$ 300 por mês com a venda do látex. Após começar a vender o produto para a fábrica esse valor dobrou. Com isso já consegui comprar alguns gados e proporcionar uma vida melhor para a minha família”, comentou Hugo.

Outro seringueiro que obteve um maior lucro após começar a vender o látex para a Natex foi Raimundo Nonato Santiago, 36, pai de cinco filhos. “Consigo tirar uma média de 15 litros de látex por dia, o que me garante um salário de aproximadamente R$ 650 por mês. Como tenho um roçado com plantação de arroz, macaxeira, banana e outros, o lucro obtido com a venda do látex se torna suficiente para que eu possa viver tranquilamente se ter a necessidade de sair do seringal para procurar trabalho na cidade”, assegurou Raimundo, morador da colocação Nova Vida 3, no Seringal Cachoeira.

Convênios para assistência técnica e pesquisa

Durante a solenidade de inauguração da fábrica foram assinados dois acordos entre o governador do Estado e o diretor-presidente da Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac), César Dotto: um de cooperação e assistência técnica e o outro para o desenvolvimento de novos produtos a partir da extração do látex. O valor dos investimentos é de R$ 22 milhões.

No ato, Binho Marques anunciou a potencialização de pelo menos cinco Zonas Especiais de Desenvolvimento (ZEDs) até 2010, realizando assim um dos sonhos de Chico Mendes.

“Desde a década de 70 o Chico já era visionário, pois olhava o seringal não apenas com os problemas de terra resolvidos, mas com qualidade de vida para os seringueiros, escola, saúde e produção. E é isso o que estamos fazendo”, frisou.

Camisinhas com menor custo

O preservativo produzido em Xapuri alcança o mercado com cerca de 10% a menos de custo de produção e descobriu-se, depois de muitos experimentos, que a rentabilidade do látex nativo é até 8% superior à do látex de cultivo. Além disso, os testes revelaram também que no látex nativo a presença de minerais é 50% menor que no látex de cultivo, o que amplia a resistência da camisinha.

O que eles disseram

“Essa é uma fábrica que traz algumas concepções de Chico Mendes, dando condições para que o produtor garanta seu sustento sem sair da zona rural. Ainda falta muito para alcançarmos o ideal do Chico, mas esse empreendimento é um modelo daquilo que ele pregava.”

Elenira Mendes, filha do ex-líder seringueiro e presidente do instituto que leva o nome do pai

“Só conseguimos fazer as coisas quando unimos força, e essa fábrica é resultado dessa união, que vai desde o esforço do seringueiro lá na reserva extrativista até os investimentos disponibilizados pelo governo federal.”

Jorge Viana, ex-governador e presidente do Fórum de Desenvolvimento Sustentável

“Esse é um momento de grande importância, pois essa fábrica tanto se consolida como a realização de algo muito esperado pelos produtores, como dá seqüência aos sonhos do homem que teve coragem de lutar para mudar a realidade do Acre e do país – o Chico Mendes”

Raimundo Barros, o Raimundão, vice-presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Acre.

“Nada mais justo que o Ministério da Saúde estar no meio da Floresta Amazônica inaugurando uma fábrica de preservativos, que produz camisinhas com a extração de látex de seringal nativo, no Dia Mundial da Saúde. Esse produto permitirá que as pessoas façam amor com segurança e possam planejar melhor o fututo.”

Gerson Penna, secretário Nacional de Vigilância em Saúde

 
 
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Rio Branco-AC, 8 de abril de 2008
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