OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

Francisco Gregório Filho *

 

Meios-dias

Próximo ao meio-dia, visita minha sala uma professora jovem, de aproximadamente 30 anos de idade, bonita, elegante, de corpo bem torneado e pele de quem freqüenta piscinas. Pede para falar comigo a sós. Solicito, então, às companheiras com quem partilho a sala, que me deixe a sós com a professora. Ela fecha a porta com a chave, abre a bolsa e retira um bloco de papel escrito com letras desenhadas a esferográficas de tinta azul e põe em cima de minha mesa.

- Veja isso, consegui reunir aí uma coletânea de poemas eróticos e quero que você saiba o que desejo fazer. - Abriu o bloco numa página qualquer e mandou-me ler. - Leia com voz forte e pausada. Leia e veja-me.

Atendi o seu pedido, ainda assustado com a determinação da moça professora.

O texto fora extraído do livro de Poesia Erótica, tradução de José Paulo Paes, um fragmento de Os amores, V;1-2,9-26, de Ovídio (43 a.C. - 18 d.C.)

Enquanto eu lia o poema em voz forte e pausada, a professora desenvolvia movimentos sensuais em torno de uma cadeira e ia tirando as peças da roupa que vestia. Tentei interromper, mas ela determinou que continuasse a leitura.

Chegou a tirar a blusa e o sutiã; quando estava abrindo os botões da saia, eu parei de ler e, mesmo sob seus protestos, ameacei abrir a porta. Foi se recompondo lentamente enquanto falava sobre seu projeto: iria abandonar o magistério; depois de oito anos dando aulas em escolas públicas municipais, desistira de viver na miséria. Mostrou-me o contracheque; o salário não chegava a dois mínimos, acrescidos de alguns benefícios. Uma vergonha, para uma mulher que cursou Pedagogia e concluiu a pós-graduação em Literatura. Com aquele salário não conseguia pagar suas despesas, ou melhor, estava pagando para trabalhar, afirmou indignada. Pediu-me desculpas pela cena e zanga, detalhou-me seu plano: produziria um show de strip-tease para boates finas, mas não ao som de músicas, e sim ao som das leituras dos poemas eróticos que ela coletara e reunira ali naquele bloco. Já tinha feito uma proposta a um programador de uma boate e recebera a promessa de concretizar seu intento. Mas, antes, queria que eu visse uma demonstração de suas habilidades; para que eu lhe sugerisse algumas correções artísticas. Fui buscar dois copos d’água, um para mim, outro para ela. Recuperado do susto e olhando aquela mulher bonita com projeto tão inusitado, folheei o bloco e tomei conhecimento da qualidade do repertório: Ovídio, La Fontaine, Régnier, Rosseau, Marot, Aretino, Goethe, Iriarte, Ronsard, Jodelle, Herriet, todos traduzidos pelo poeta José Paulo Paes, e ainda alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade. Bonita coletânea, fiquei deslumbrado. Mas o que dizer àquela bela professora sobre seu projeto? Lembrou-se ela de me dizer que a tal promessa do homem da boate triplicaria seu salário de professora já na primeira semana.

O procedimento era o seguinte: seriam distribuídas cópias dos poemas aos freqüentadores da boate, e, enquanto eles dariam voz, ela tiraria a roupa, em movimentos sensuais.

- Grande idéia - eu disse, fixando seus olhos. E perguntei - e depois, você, como fica? Seu coração? Sua cabeça?

A professora irritou-se com minha indagação. Tomou o bloco da minha mão, fechou a bolsa, chamou-me de sacana e filho de uma égua, bisonho. Bateu a porta, saiu com passos firmes sem se despedir. Fiquei tonto, sem saber o que fazer ou o que dizer. Pensei em correr atrás e convidá-la para uma conversa mais tranqüila, mas não tive forças. Sentado, apenas repetia um poema de Ovídio, que constava da coletânea escrita no bloco e que ficou de cor. De coração.

Fragmento

Era intenso o calor, passava do meio dia;

Estava eu em minha cama repousando.

(...) Eis que vem Corina numa túnica ligeira,

Os cabelos lhe ocultando o alvo pescoço;

Assim entrava na alcova a formosa Semíramis,

Dizem, e Lais que amaram tantos homens.

Tirei-lhe a túnica; de tão tênue mal contava:

Ela lutou todavia por cobrir-se

Com a túnica, mas sem empenho em vencer:

Venceu-a, sem mágoa, a sua traição.

Ficou em pé, sem roupa, ali diante dos meus olhos.

Em seu corpo não havia um só defeito.

Que ombros e que braços me foi dado ver, tocar!

Os belos seios, que doce comprimi-los!

Que ventre mais polido logo abaixo do peito!

Que primor de ancas, que juvenil a coxa!

Por que pormenorizar? Nada vi não louvável,

E lhe estreitei a nudez contra o meu corpo.

O resta, quem não sabe? Exaustos repousamos.

Que outros meios-dias me sejam tão prósperos!

Os amores, V: 1-2, 9-26

*Contador de Histórias

 

 
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Rio Branco-AC, 8 de maio de 2005
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