Tendências no Acre e o ambiente
globalizado das catástrofes
O fato da inexistência de políticas públicas nas áreas de intersecção entre evitação, mitigação e adaptação relativas a eventos e catástrofes naturais no Acre, tem levado a riscos e calamidades repetidamente à população. Malária, enchentes e fumaça são recorrentes anualmente desde Máncio Lima até Acrelândia. Mais doenças no Juruá, mais fumaça no leste do Acre, enchentes lá e cá.
As manifestações de mudanças climáticas acontecem precisamente na ocorrência de eventos extremos. Mais chuvas, mais secas, maior intensidade dos ventos, temperaturas mais frias e temperaturas mais quentes, favorecendo em ocasiões a proliferação de agentes patogênicos e de vetores de doenças. A tendência é piorar, tanto global, regional como localmente.
Podem servir de exemplos locais e regionais alguns dos impactos sofridos em localidades de todos os continentes. Na América do Sul: em fevereiro deste ano no departamento do Beni, na vizinha Bolívia, as enchentes danificaram 50 mil famílias e provocaram em torno de 60 mortos e desaparecidos. Na Amazônia, o ano 2005 marcou a ocorrência de uma seca extraordinária. Na América Central: também em 2005, na Guatemala, o furacão Stan danificou quase 100 mil pessoas, matando mais de 500 e aproximadamente 70 em El Salvador, 20 em México, 10 na Nicarágua, 4 em Honduras e 2 na Costa Rica. Na América do Norte: nesse mesmo ano 2005 o fuçarão Katrina deixou mais de mil e trezentas pessoas mortas no litoral sul dos Estados Unidos, somando-se a isso milhares de desabrigados; atualmente centenas de milhares de pessoas ainda sofrem as conseqüências dos impactos. Na Ásia: nestes dias, a passagem do furacão Nargis por Mianmar (antiga Birmânia) tem deixado até agora mais de 22 mil mortos e mais de 40 mil desaparecidos.
Não precisa de mais exemplos para ilustrar como a população mais pobre de todos os continentes é a mais afetada.
Para subsidiar as políticas públicas de prevenção aos impactos de enchentes, secas e queimadas no Acre, pode-se considerar que:
Existe uma tendência de diminuição das chuvas observada desde 1990 quando o valor médio de chuva por dia foi de 5,6 mm sendo que para o ano 2000 esse valor foi de 5,2 mm e para 2007 de 5,0 mm.
Atualmente, o acumulado das chuvas durante os quatro primeiros meses do ano é maior que o caracterizado para antes de 1970, por outro lado o valor mínimo de chuva acontece em junho e não em agosto como antigamente. A seca chega abruptamente em maio.
O aumento das precipitações na transição da seca para a estação chuvosa até dezembro acontece a uma taxa de 31 mm/mês, menor do que o estabelecido para antes de 1970, que era de 37 mm/mês. As chuvas se estabelecem mais lentamente.
Na época das chuvas, entre outubro e abril, caem 83 % do volume das chuvas anuais. A distribuição das chuvas por trimestre expressa que o acumulado de janeiro a março é 43 % do total anual, de abril a junho de 16 %, de julho a setembro de 10 % e de outubro a dezembro de 31 %. A distribuição das chuvas por quadrimestre demonstra que o acumulado de janeiro a abril é de 53 % do total anual, de maio a agosto de 11 % e de setembro a dezembro de 36 %.
Mais chuvas nos primeiros quatro meses do ano, seguido de uma chegada abrupta da seca, que tem mudado do mês mais seco, agosto, para junho, que poderia retrair para maio ou abril. Também, a lenta chegada da época das chuvas permite concluir que a seca aumenta em extensão enquanto as chuvas se concentram em menos meses e o acumulado anual das chuvas diminui. Logicamente isto se reflete no nível médio do rio Acre, que em Rio Branco, diminuiu 1 metro em 35 anos. Atualmente sobra água em vários meses e falta água durante outros, quando numerosos bairros ficam sem o abastecimento, nesse momento não existe água nem para combater os incêndios urbanos; as queimadas florestais se apagam com as chuvas que demoram a vir. O atendimento hospitalar é tumultuado, ora nas chuvas, ora na seca; e para os afetados pelas enchentes a opção é o Ginásio Coberto.
Não e uma questão pontual, não tem a ver com o nível do rio hoje, ontem ou no ano anterior, nem de uma estatística de focos de queimadas; números que justificariam tomar medidas também pontuais e emergenciais. Embora interessem essas medições, trata-se de tendências que dizem respeito ao agravo da situação ambiental e social.
Evidentemente, com a precariedade no atendimento hospitalar e a defesa dos civis, não estamos preparados para mais água durante menos tempo e falta de água e mais fumaça durante mais tempo. Será uma maior catástrofe dirigida, como sempre, aos mais pobres.
* Coordenador, Grupo de Estudos e Serviços Ambientais
Universidade Federal do Acre
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